O prefeito de Araucária Dr. Gustavo Botogoski (PL) entrou em rota de colisão com a Câmara Municipal depois que a presidência do Legislativo anulou a sessão que havia recebido a denúncia e instalado uma comissão processante contra ele, abrindo uma crise institucional que transbordou para o plenário, com esvaziamento de quórum e ameaça de judicialização.
A Prefeitura de Araucária convidou a imprensa para uma coletiva às 16h00, no salão nobre, com a presença do prefeito, para tratar do impasse entre Executivo e Legislativo. O recado enviado ao Blog do Esmael fala em “situação que acontece entre o executivo e legislativo municipal”, sinal de que o município quer tomar o controle da narrativa ainda no mesmo dia.
Pelo lado da Câmara, o estopim, segundo relato atribuído ao site O Popular, foi uma dúvida regimental levantada em plenário pelo vereador Ricardo Teixeira (Republicanos): a denúncia teria 46 páginas e não teria sido lida na íntegra quando o recebimento foi votado duas semanas antes. A presidência, exercida pelo vereador Eduardo Castilhos (PL), decidiu que a falha criava um “vício insanável”, declarou a votação nula e determinou a leitura completa.
A reação veio em bloco. Vereadores que apoiavam a comissão processante deixaram o plenário, o que derrubou o quórum e tornou improvável qualquer deliberação após a leitura integral, empurrando o conflito para uma queda de braço política e, possivelmente, para o Judiciário.
O pano de fundo é o acordo judicial envolvendo transporte coletivo e uma dívida que a Prefeitura afirma ser antiga. Em manifestação pública anterior, Botogoski sustentou que não houve pagamento, que qualquer acerto depende de análise judicial e que a solução buscaria evitar aumento do passivo por juros e correções, defendendo pagamento por precatório conforme o rito legal.
“Não houve pagamento de nenhum valor relacionado a esse acordo. Nenhum centavo foi pago. Qualquer acordo dessa natureza depende de análise e decisão do Judiciário, e enquanto isso não ocorre, não há qualquer pagamento”, disse o prefeito, assegurando que a decisão final depende da Justiça.
Segundo o prefeito Gustavo Botogoski, o município herdou uma dívida antiga, reconhecida em processo judicial público, com perícia contábil que comprovou que o município é devedor. “Diante disso, a nossa responsabilidade foi buscar uma solução que protegesse o dinheiro do cidadão, evitando que essa dívida se tornasse ainda maior no futuro, com juros, correções e encargos.”
Quando a Câmara recebeu a denúncia no último dia 10 de fevereiro, o procedimento foi formalizado no sistema legislativo (SAPL) com referência à instauração de comissão processante. Na mesma data, veículos locais registraram que a comissão foi instalada por 9 votos a 3 e que seus integrantes foram definidos por sorteio, com nomes divulgados publicamente.
O que mudou agora não foi o mérito da acusação, mas o terreno onde ela pisa. Se a nulidade se sustentar, a comissão volta à estaca zero. Se cair, a Câmara reabre a trilha do processo, com um custo político alto para todos os lados, porque a cidade passa a discutir menos ônibus e mais a capacidade das instituições de se fiscalizarem sem virar ringue.
No balanço, a crise em Araucária é um alerta clássico: rito é poder. Quem controla o procedimento controla o tempo, a narrativa e, muitas vezes, o resultado. E, quando Legislativo e Executivo trocam o debate público por guerra de bastidores, quem paga a conta é a governabilidade da cidade.
O município de Araucária, a 29 km de Curitiba, tem o terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do Paraná. Possui cerca de 152 mil habitantes e 110 mil eleitores cadastrados no TSE. É um importante polo petroquímico no estado, com a Refinaria da REPAR/Petrobras e a recém-reaberta fábrica de fertilizantes Fafen.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




