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ANPD põe big techs na mira do ECA Digital

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) tirou o ECA Digital do terreno do discurso nesta sexta-feira (20), ao publicar orientações preliminares para aferição de idade e um cronograma que abre monitoramento imediato sobre lojas de aplicativos e sistemas operacionais proprietários. O movimento muda o eixo da discussão: o governo deixou a abstração de lado e escolheu começar pela fiscalização da infraestrutura que organiza a vida digital de crianças e adolescentes.

Politicamente, o recado é claro. Brasília decidiu subir a cobrança para o topo da cadeia, onde estão os donos da porta de entrada do ecossistema digital, e não apenas para os apps na ponta. A própria fundamentação da ANPD diz que app stores e sistemas operacionais têm papel “estruturante”, permitem aferição de idade e supervisão parental no próprio dispositivo e concentram mercado em poucas empresas. O documento técnico ainda cita que os celulares são o principal meio de acesso à internet para 96% da população de 9 a 17 anos e menciona a concentração de mercado de Android, iOS, Windows e macOS no Brasil. Na prática, isso coloca sob pressão regulatória sobretudo Google, Apple e, no desktop, Microsoft.

O coração dessa ofensiva é o fim da complacência com a autodeclaração etária. A página oficial do ECA Digital já informa que, para produtos e serviços proibidos, não basta mais o velho botão de “tenho 18 anos”. A orientação preliminar da ANPD reforça que soluções baseadas exclusivamente na autodeclaração do usuário têm baixo grau de confiabilidade, por dependerem de informação facilmente manipulável.

Ao mesmo tempo, a agência tenta fechar outro flanco político, o da privacidade. O texto recomenda transparência, auditabilidade, canais para contestação e retificação da idade aferida e orienta que fornecedores evitem armazenar biometria, imagens ou dados extraídos de documentos de identidade em registros de auditoria. Em outras palavras, o Estado quer mais controle etário, mas sem liberar um faroeste de coleta de dados sensíveis.

O cronograma mostra que a ANPD não pretende parar no aviso inicial. A etapa aberta agora, a partir de março de 2026, inclui a divulgação das orientações preliminares, a criação de página pública sobre o ECA Digital e o monitoramento da implantação das soluções de aferição de idade por lojas de aplicativos e sistemas operacionais. Em abril, a agência prevê tomada de subsídios para um guia sobre fornecedores de tecnologia. A partir de agosto, devem sair orientações e parâmetros normativos mais específicos, com nova etapa de monitoramento. De novembro em diante, entra a atualização dos regulamentos de fiscalização e de aplicação de sanções administrativas. Já as ações de fiscalização previstas no mapa prioritário da agência ficam projetadas para janeiro de 2027.

Há um detalhe importante nesse desenho. A ANPD classifica o monitoramento atual como atividade preventiva, voltada a levantar dados e orientar a adaptação dos regulados. Mas o próprio comunicado deixa claro que isso não impede outras ações a qualquer tempo, caso haja denúncias ou identificação de violações com risco elevado para crianças e adolescentes. O aviso, portanto, é suave na forma, mas duro no conteúdo.

Para famílias e escolas, a mudança de fase também pesa. O Ministério da Justiça diz que o ECA Digital distribui responsabilidades entre família, sociedade, Estado e plataformas, e a lei alcança redes sociais, jogos, aplicativos, lojas de apps, sistemas operacionais e plataformas de vídeo. Isso significa que o debate sobre proteção infantojuvenil sai do campo moral e entra no campo operacional: quem controla acesso, quem responde por risco e quem paga a conta da adequação.

O governo Lula escolheu começar pelo encanamento invisível da internet. É um movimento de regulação de Estado contra plataformas que, por anos, tentaram tratar proteção de crianças como tema de autorregulação ou peça de marketing. Se o cronograma avançar como anunciado, o ECA Digital deixará de ser promessa legislativa para virar teste real de força entre Brasília e as big techs. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

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