A queda: policiais caem em golpe de criptomoedas e entram em depressão

► Alvo de denúncias, empresas suspeitas de pirâmide financeira causam prejuízos a integrantes de forças policiais

Nathália Cardim, do Metrópoles, site parceiro do Blog do Esmael

Treinados para investigar e combater crimes complexos, agentes de segurança estão perdendo economias de uma vida – dinheiro amealhado ao longo de suas carreiras profissionais e até recursos de aposentadorias – em um clássico golpe de pirâmide. Empresas fraudulentas que supostamente vendem criptomoedas estão buscando novas vítimas nos quartéis e nas delegacias brasileiras com a promessa de triplicar a quantia investida logo nos primeiros meses.

Se há alguns anos os golpes de pirâmides tinham como alvo trabalhadores humildes, com pouca instrução, hoje isso parece ter mudado. Com o aumento da entrada de pessoas físicas na bolsa de valores e uma maior atenção da sociedade para o mundo dos investimentos, o principal foco desses esquemas bilionários têm sido gente instruída e com dinheiro no bolso, próximos da aposentadoria, mas com pouca informação sobre o mercado financeiro.

Mesmo vítimas, vários agentes e militares entendem que compartilham parte da responsabilidade. O sucesso das pirâmides financeiras tem a ver com a maneira com que o golpe se distribui, normalmente entre pessoas do círculo de confiança das primeiras pessoas que entram no esquema e logo são responsáveis por espalhar a rede, na busca de lucros na forma de comissões. Então, além de se sentirem vulneráveis, inseguros, envergonhados e humilhados, muitos são tomados pela culpa.

Quando eles se enxergam em um patamar de prejuízo, laços familiares ficam abalados, casamentos são destruídos e alguns até cometem suicídio. “Imagina quando o policial se dá conta de que foi enganado? Entra um mix de emoções, ele deixa de ser um agente da lei para ser vítima. Entra a questão da vergonha (como assim um policial caiu num golpe?), depois vem o desespero financeiro (perdi tudo), os neurotransmissores entram, com certeza, em curto circuito”, pondera a psicóloga Patrícia Viana Cruz, especialista em saúde mental na segurança pública.

Durante mais de dois meses, o Metrópoles se dedicou a buscar informações e explicações sobre o assunto e a identificar prejuízos amargados por vítimas integrantes de forças de segurança. Na Polícia Federal, não há estatísticas oficiais sobre agentes que se envolveram em esquemas fraudulentos. No entanto, entidades ligadas à categoria estão atentas ao problema e têm criado mecanismos para proteger a saúde mental dos funcionários e até oferecido orientação jurídica às vítimas.

A reportagem entrevistou mais de 20 pessoas de diferentes unidades da Federação – entre policiais militares, civis, servidores da força aérea brasileira, educadores financeiros, advogados, psicólogos e psiquiatras – a fim de reportar dramas pessoais e indicar serviços de ajuda disponíveis. Mais do que isso: chamar a atenção de possíveis novos investidores e evitar perdas irreversíveis. A reportagem não divulgará os nomes dos envolvidos para não expô-los. Por isso, nomes fictícios foram criados com o objetivo de deixar o texto mais fluido.

No Brasil, o número de golpes cresce de forma vertiginosa. A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) divulgaram a pesquisa “Fraudes em Investimentos no Brasil”, com dados referentes a 2021:

O primeiro-sargento da Polícia Militar do Distrito Federal João Fortes* é apenas um dos milhares de brasileiros que foram vítimas de golpes financeiros. Ao mergulhar fundo no universo dos investimentos e acabar perdendo boa parte do meio milhão aplicado, ele adoeceu silenciosamente e se matou em casa há um ano.

Convidado por um colega da corporação, o sargento se convenceu diante da insistência do amigo em conhecer a oportunidade. Ele resolveu aplicar, inicialmente, R$ 20 mil na G44 Brasil Intermediações Financeiras S/A, empresa que mantinha escritório na capital do país, em Taguatinga, e atraía interessados em investir no mercado financeiro desde 2017.

“No começo, era tudo uma maravilha. Entrou dinheiro. Meu pai trocou o celular dele e o da minha mãe e, depois, perguntou se eu queria entrar. Eu, minha mãe e o meu irmão gêmeo também investimos no negócio”, disse o filho mais velho da vítima, de 27 anos.

De acordo com o filho de Fortes*, a empresa prometeu 300% de rendimento em cima do investimento em um ano. A família entrou como sócio-participante em 2018, e, já em meados de 2020, com a desculpa da pandemia de Covid-19, os empecilhos começaram a surgir. “Assim que ativamos o plano, recebemos os valores acordados nos contratos. No entanto, eles passaram a atrasar os pagamentos devidos, a título de participação de lucros da sociedade”, conta o jovem.

A princípio, a família acreditava que o dinheiro inicial aplicado iria voltar para a carteira, mas isso nunca aconteceu. “Paralelamente aos investimentos em moedas, eles começaram a divulgar uma mineradora e a possibilidade de investir em pedras preciosas. Meu pai entrou e acabou que nunca recebeu as esmeraldas também”, afirma.

Sem se abrir com a família sobre as dívidas e com vergonha de pedir ajuda, o policial não conseguiu vencer a depressão sozinho. “Para tentar reaver a grana, ele entrou em outras plataformas parecidas. Aos poucos, fomos percebendo mudanças em seu comportamento: meu pai sempre foi forte e alegre, mas passou a ser uma figura triste e emagreceu muito. Ele não se abria com a gente nem com ninguém. Os próprios colegas de serviço perceberam como ele estava abatido”, relata.

A família começou a se preocupar após um incidente na chácara do cunhado de Fortes. O policial não quis descer do carro e entrar na casa, pois, segundo ele, havia feito uma desgraça na família. “Deu no que deu. O mal dele foi não querer compartilhar o que estava se passando na cabeça dele. No dia 30 de maio de 2021, tivemos a pior notícia das nossas vidas”, finaliza o jovem.

Geralmente, as vítimas afetadas pela fraude procuram as autoridades quando já estão abaladas psicologicamente e com as economias desestruturadas. “As pessoas que sofreram o golpe não aceitam que caíram em uma cilada porque o esquema paga bem no início. Normalmente, a pirâmide só começa a ruir por volta de 12 meses do primeiro aporte”, explica Carlos Galvão, detetive particular que trabalha investigando esquemas de pirâmides há 17 anos.

ImagemCarlos Galvão é detetive particular e trabalha investigando esquemas de pirâmides há 17 anos. Crédito: Igo Estrela/ Metrópoles

De acordo com o especialista, os esquemas financeiros de criptomoedas são complexos: é possível operar em todo o território nacional e no exterior, podendo alcançar até 48 países. Mas o método não difere daquelas estruturas conhecidas dos golpes de pirâmide. Ele é apenas potencializado pela desinformação das pessoas sobre criptomoedas e o uso intenso das redes sociais para divulgar o trabalho. Os golpistas publicam vídeos na internet, convidam os investidores e, dessa forma, criam uma cadeia muito grande.

A arquitetura da pirâmide de criptomoeda tem como pilar uma extensa rede de pessoas físicas e jurídicas. Em algumas empresas, existem cargos estabelecidos, como presidente, vice-presidente, diretor comercial e diretor de comunicação. “Na maioria dos esquemas, há autoridades de alta patente que participam do quadro de diretores. Isso cria confiança nas vítimas e facilita o convite para elas participarem”, explica Galvão.

O especialista pontua que os funcionários públicos são o alvo preferido dos golpistas, porque têm salários fixos. “Os operadores de pirâmides gostam especialmente dos militares, pois eles recebem pecúlios e acabam investindo nessas pirâmides através de convite dos amigos de farda que têm acesso aos valores”, explica. A remuneração dos investidores aumenta a cada nível e é feita por meio de participação nos lucros, ou seja, um percentual sobre os contratos firmados.

Ao contrário das vítimas que acabam convidando os colegas de trabalho e familiares para participar de um possível bom negócio, a maioria dos donos dos esquemas tem desde o início o intuito de aplicar o golpe. “Eles não possuem intenção alguma de pagar até o final o montante que aquela pessoa investiu. Os valores são expressivos e chegam à casa dos milhões”, pontua o advogado Jaider Hilário Nery da Silva, que move 123 processos contra uma operadora em Brasília.

Enquanto as vítimas amargam dívidas quase milionárias, os golpistas de pirâmide não se escondem, eles ostentam vida de luxo nas redes sociais, mesmo depois de serem desmascarados. Compram carros de luxo de marcas, como Audi, Porsche e BMW, adquirem imóveis e mansões em bairros de luxo, viajam para outros países, como Emirados Árabes e Nova Zelândia. Aparecem sempre muito bem vestidos e usando itens de ouro. Quando são descobertos, os bandidos fogem para outras nações usando o grande volume de dinheiro roubado.

A G44 (conheça o caso abaixo), por exemplo, movimentou no Brasil cerca de R$ 1 bilhão. De acordo com Galvão, mais de 10 mil clientes amargam prejuízo de R$ 500 milhões e continuam na esperança de receber o dinheiro de volta. Mas os investidores podem acabar frustrados na busca pela reparação judicial dos pagamentos não feitos pelos golpistas, porque quando as empresas são investigadas, elas já não possuem mais fundos ou os bens estão ocultados.

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A demora da Justiça para resolver casos de golpes com bitcoins causa sensação de impunidade para as vítimas. Guilherme Carlo*, agente da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), de 54 anos, é um exemplo. Ele desenvolveu transtorno de ansiedade e, por isso, não consegue dormir direito desde que registrou, em 2020, o boletim de ocorrência contra a GSAF Investimentos Ltda.

Carlo conseguiu reunir na mesma denúncia que a sua pelo menos 30 investidores de Brasília que acusam de fraude financeira o casal Alexsandro e Gesllane Nunes de Souza Azevedo, sócios da GSAF; e outras seis partes que respondem juridicamente pela acusação de golpes financeiros. “Há dois anos o nosso caso está em apuração na delegacia, mas nunca nem fui chamado para depor”, diz.

Seduzido por uma suposta rentabilidade, Carlo aplicou, em 2019, cerca de R$ 180 mil com o grupo. “Estava quase me aposentando e havia juntado um dinheiro bom ao longo da minha vida profissional. O meu irmão e um amigo, que também trabalham na PCDF, me apresentaram a um homem que se passava por trader e me deu toda segurança no negócio. Como captador, ele recebia 10% de cada montante investido. Reconheço que falhei. Eu acreditei”, relata a vítima.