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Lula reage a tarifas de Trump e reafirma soberania no NYT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou neste domingo (14) um artigo no New York Times em que reage às tarifas de 50% impostas por Donald Trump contra produtos brasileiros. O líder brasileiro disse que “a democracia e a soberania do Brasil não estão à venda” e acusou a Casa Branca de usar medidas econômicas para pressionar por impunidade ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo STF a 27 anos de prisão.

O petista lembrou que os EUA acumulam superávit de US$ 410 bilhões no comércio bilateral nos últimos 15 anos e que 75% das exportações americanas entram no Brasil sem tarifa. Lula classificou como “ilógicas” e “políticas” as medidas do governo Trump, citando que até o vice-secretário de Estado, Christopher Landau, teria admitido motivações ideológicas em reunião com empresários.

No ensaio, Lula defendeu a decisão do Supremo Tribunal Federal que condenou Bolsonaro e aliados pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. O presidente ressaltou que não se tratou de “caça às bruxas”, mas de um julgamento amparado pela Constituição de 1988 e em provas robustas, inclusive planos de assassinato de autoridades.

O artigo também rebateu acusações americanas de censura a empresas de tecnologia. Segundo Lula, o Brasil aplica a mesma lei a todas as plataformas e busca proteger cidadãos de fraudes e do discurso de ódio. Ele destacou ainda o papel do PIX como mecanismo de inclusão financeira e citou a queda de 50% no desmatamento da Amazônia em dois anos.

Ao final, Lula apelou ao diálogo e ao multilateralismo, mas reafirmou que “a democracia e a soberania do Brasil não estão na mesa de negociações”. A publicação reforça a estratégia do Planalto de internacionalizar o embate com Trump e consolidar Lula como voz da democracia no cenário global.

O gesto de Lula no New York Times é uma resposta direta ao cerco de Trump e da direita americana, que tentam reabilitar Bolsonaro via pressão comercial. Ao levar a disputa à arena internacional, o presidente reforça que a soberania não se dobra a tarifas. Resta saber se o Congresso dos EUA seguirá a cartilha de Trump ou reconhecerá o Brasil como parceiro estratégico.

Aqui está a íntegra do artigo de Lula no NY:

Lula: Democracia e Soberania do Brasil Não São Negociáveis

Decidi escrever este ensaio para estabelecer um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos. Ao longo de décadas de negociação, primeiro como líder sindical e depois como presidente, aprendi a ouvir todos os lados e a levar em conta todos os interesses em jogo. É por isso que examinei com atenção os argumentos apresentados pelo governo Trump para impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

Trazer empregos de volta aos Estados Unidos e promover a reindustrialização são motivações legítimas. No passado, quando os Estados Unidos levantaram a bandeira do neoliberalismo, o Brasil alertou sobre seus efeitos nocivos. Ver a Casa Branca finalmente reconhecer os limites do chamado Consenso de Washington — uma receita de política de mínima proteção social, liberalização irrestrita do comércio e desregulação generalizada, dominante desde os anos 1990 — confirma a posição brasileira.

Mas recorrer a ações unilaterais contra Estados individuais é prescrever o remédio errado. O multilateralismo oferece soluções mais justas e equilibradas. O aumento tarifário imposto ao Brasil neste verão não é apenas equivocado, mas também ilógico. Os Estados Unidos não têm déficit comercial com nosso país, nem enfrentam altas tarifas aqui. Nos últimos 15 anos, acumularam superávit de US$ 410 bilhões no comércio bilateral de bens e serviços. Quase 75% das exportações americanas para o Brasil entram livres de tarifas. Segundo nossos cálculos, a tarifa efetiva média sobre produtos americanos é de apenas 2,7%. Oito dos dez principais itens entram com tarifa zero, incluindo petróleo, aeronaves, gás natural e carvão.

A ausência de racionalidade econômica por trás dessas medidas deixa claro que a motivação da Casa Branca é política. O vice-secretário de Estado, Christopher Landau, teria afirmado isso no início deste mês a um grupo de empresários brasileiros que buscavam abrir canais de negociação. O governo dos EUA está usando tarifas e a Lei Magnitsky para buscar impunidade para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que orquestrou uma tentativa de golpe fracassada em 8 de janeiro de 2023, na tentativa de subverter a vontade popular expressa nas urnas.

Tenho orgulho do Supremo Tribunal Federal brasileiro por sua decisão histórica na quinta-feira, que resguarda nossas instituições e o Estado democrático de direito. Não se tratou de uma “caça às bruxas”. O julgamento foi resultado de um processo conduzido de acordo com a Constituição de 1988, promulgada após duas décadas de luta contra uma ditadura militar. Seguiu-se a meses de investigações que revelaram planos para assassinar a mim, o vice-presidente e um ministro do Supremo. As autoridades também descobriram um rascunho de decreto que teria, na prática, anulado os resultados das eleições de 2022.

O governo Trump ainda acusou a Justiça brasileira de perseguir e censurar empresas de tecnologia americanas. Essas alegações são falsas. Todas as plataformas digitais, sejam nacionais ou estrangeiras, estão sujeitas às mesmas leis no Brasil. É desonesto chamar de censura a regulação, sobretudo quando o que está em jogo é a proteção de nossas famílias contra fraudes, desinformação e discurso de ódio. A internet não pode ser uma terra sem lei onde pedófilos e abusadores tenham liberdade para atacar nossas crianças e adolescentes.

Igualmente infundadas são as acusações de práticas desleais do Brasil no comércio digital e nos serviços de pagamento eletrônico, bem como de falha na aplicação das leis ambientais. Ao contrário de prejudicar operadores financeiros dos EUA, o sistema de pagamentos brasileiro, conhecido como PIX, possibilitou a inclusão financeira de milhões de cidadãos e empresas. Não podemos ser penalizados por criar um mecanismo rápido, gratuito e seguro que facilita transações e estimula a economia.

Nos últimos dois anos, reduzimos pela metade a taxa de desmatamento na Amazônia. Só em 2024, a polícia brasileira apreendeu centenas de milhões de dólares em ativos usados em crimes ambientais. Mas a Amazônia continuará em risco se outros países não fizerem sua parte na redução das emissões de gases de efeito estufa. O aumento da temperatura global pode transformar a floresta em savana, alterando padrões de chuvas em todo o hemisfério, inclusive no Meio-Oeste americano.

Quando os Estados Unidos dão as costas a uma relação de mais de 200 anos, como a que mantêm com o Brasil, todos perdem. Não existem diferenças ideológicas que devam impedir dois governos de trabalharem juntos em áreas onde têm objetivos comuns.

Presidente Trump, continuamos abertos a negociar tudo aquilo que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão em negociação. Em seu primeiro discurso à Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2017, o senhor disse que “nações soberanas fortes permitem que países diversos, com valores, culturas e sonhos diferentes, não apenas coexistam, mas trabalhem lado a lado com base no respeito mútuo”. É assim que vejo a relação entre Brasil e Estados Unidos: duas grandes nações capazes de se respeitar e cooperar pelo bem de brasileiros e americanos.

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