Entenda porque parte do PIB brasileiro é devido às mulheres, cerca de R$ 1 trilhão ao ano
Confesso que já perdi as contas das vezes em que entrei em embates épicos com a minha esposa sobre um tema nada trivial: quem deve remunerar o trabalho doméstico e de cuidado das mulheres? Nossas conversas, quase sempre acaloradas, têm um ponto central claro: reconhecer o valor, até hoje invisível, da economia do cuidado.
Minha tese é cristalina e não abro mão dela: essa dívida colossal é da sociedade, não dos indivíduos. Cabe ao Estado, sim, indenizar as mulheres pelo machismo estrutural que sempre explorou seu trabalho invisível e não remunerado. Para mim, o problema não é apenas doméstico; é estrutural e histórico. Muitas mulheres – a minha esposa não faz parte desse grupo – pensam diferente. Para elas, o ônus deveria recair diretamente sobre o parceiro. Em outras palavras, os maridos deveriam abrir a carteira e pagar pelo jantar, pela roupa lavada e pela educação dos filhos, num acerto de contas individualizado.
[No meu caso, certamente, haveria uma compensação no acerto de contas porque eu também contribuo diariamente com o serviço doméstico não remunerado.]
Porém, não há como fugir da verdade social: individualizar essa dívida é reduzir uma luta legítima a uma guerra dos sexos, uma versão doméstica e empobrecida do identitarismo woke. Além disso, cairíamos numa injustiça ainda maior, ignorando a realidade econômica e social da maioria dos brasileiros.
Defender que a economia do cuidado seja uma responsabilidade coletiva também abre caminho para discutir outras reparações históricas. Vejamos o caso da escravidão no Brasil, crime hediondo cujas cicatrizes sociais perduram até hoje. É justo responsabilizar “além” dos descendentes diretos dos proprietários de escravos pelo trabalho não remunerado dos escravizados. Todavia, cabe à sociedade, por meio do Estado, reparar esse passado cruel, pois o tecido social inteiro se beneficiou da exploração brutal.
A analogia é clara: mulheres, historicamente exploradas em suas aptidões e individualidades, merecem reconhecimento social e reparação econômica. Tornar a questão uma briga conjugal ou uma disputa entre gêneros é minimizar a importância de uma luta histórica e legítima.
Penso que a economia do cuidado das mulheres, que representa 8,5% do PIB brasileiro, segundo a FGV, não deve se limitar a um bate-boca entre homem e mulher. Esse valor representa cerca de R$ 1 trilhão ao ano, considerando o PIB de R$ 11,74 trilhões em 2024, consolidado pelo IBGE.
A título de indenização pelo trabalho não remunerado, essa parcela do PIB daria mensalmente o valor de R$ 14.285,71 para cada uma das 70 milhões de mulheres que têm mais de 18 anos.
Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, minha homenagem é também um apelo por justiça social. Não basta flores, chocolates ou promessas vazias. Precisamos reconhecer o valor real das mulheres, e essa conta quem deve pagar é o Estado, em nome de todos nós. Mais do que um direito, as mulheres merecem garantias concretas. E ponto final.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




