A Folha de S. Paulo, mais uma vez, veste seu figurino habitual de porta-voz dos interesses do mercado financeiro. O editorial dominical, repleto de chavões e alertas apocalípticos, serve como uma advertência de que, por trás das páginas online e impressas, há um conglomerado com profundas ligações com o capital especulativo.
É impossível ignorar que o jornalão paulistano possui negócios bilionários por meio do PagBank, Moderninha e outros serviços bancários. Seus clientes estão nas carteiras de investimentos e em operações financeiras que, ironicamente, dependem da própria política monetária que o jornal defende com tanto afinco. A “independência editorial” perde força quando os donos da caneta têm uma calculadora em outra mão.
O banqueiro Luiz Frias, com fortuna estimada em R$ 5 bilhões, preside o Grupo Folha.
Quando se trata de recursos destinados à população mais pobre, a Folha não hesita em carimbar como “gastança”. Os R$ 150 bilhões aprovados no Congresso, essenciais para manter políticas públicas e corrigir um orçamento devastado pela gestão anterior, são tratados como desperdício. Já os bilhões destinados a pagar juros estratosféricos da dívida pública não merecem sequer uma vírgula crítica.
Nos últimos 12 meses até janeiro de 2024, o Brasil desembolsou R$ 745,9 bilhões apenas em juros da dívida pública, de acordo com dados do Banco Central. É o maior valor desde o início da série histórica, em 2002.
O rombo deixado por Bolsonaro, estimado em R$ 400 bilhões, foi convenientemente ignorado no texto da Folha. O que se vê é um jornalismo seletivo, que silencia diante dos privilégios dos bilionários enquanto vocifera contra qualquer política que vise reduzir desigualdades sociais.
O editorial, carregado de expressões dramáticas como “cavalo de pau” e “freio de arrumação”, busca incutir medo no leitor. A estratégia é antiga: assustar a classe média para justificar políticas de arrocho fiscal, cortes em saúde, educação e salários.
É curioso como a Folha e seus aliados no mercado financeiro nunca mencionam a necessidade de tributar grandes fortunas ou heranças milionárias. A solução, segundo eles, é sempre penalizar os mais pobres e proteger os rentistas.
O Brasil tem hoje os maiores juros reais do planeta, superando até mesmo países em guerra, como a Rússia. A justificativa? “Combater a inflação”. No entanto, a inflação já está sob controle há meses, e o Banco Central continua mantendo a taxa Selic em níveis proibitivos.
Quem ganha com isso? Bancos, fundos de investimento e, claro, os negócios financeiros da própria Folha. É um círculo vicioso onde o jornal especula, seus parceiros lucram e a população paga a conta.
A Folha não é apenas um jornal. É um instrumento político e financeiro que atua para garantir os lucros de seus investidores e parceiros. Seu editorial não é uma análise técnica, mas uma peça de propaganda disfarçada de opinião.
O Brasil precisa, sim, de responsabilidade fiscal. Mas isso não pode ser um discurso seletivo que protege os privilégios dos mais ricos enquanto sufoca políticas essenciais para os mais pobres.
Lula, com todas as suas imperfeições, escolheu o caminho mais humano: o de manter um pouco do Estado como ferramenta de combate às desigualdades. E isso, para a Faria Lima e seus porta-vozes, é imperdoável.
O jogo está claro, mas o povo brasileiro já aprendeu a ler nas entrelinhas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




