Zohran Mamdani desafia Cuomo e vira fenômeno em NY
A corrida para a prefeitura de Nova York, que parecia um passeio garantido para o ex-governador Andrew Cuomo, virou do avesso. Zohran Mamdani, um jovem socialista democrata, filho de imigrantes, nascido em Uganda, emergiu como protagonista inesperado e ameaça o retorno de Cuomo ao poder.
O outsider que virou pedra no sapato do establishment
Com apenas 33 anos e pouco tempo de vida pública, Mamdani encarnou o papel de outsider com maestria. Deputado estadual eleito pelo Queens em 2021, o político progressista ficou conhecido nas redes sociais, onde acumula quase um milhão de seguidores no Instagram e TikTok. Seus vídeos irreverentes, em que percorre as ruas e o metrô de Nova York, o aproximaram de um eleitorado jovem cansado dos rostos tradicionais.
Essa estratégia, combinada com propostas ousadas — como congelar aluguéis, construir 200 mil moradias populares e tornar os ônibus gratuitos —, rompeu a bolha da esquerda e atraiu olhares da imprensa nacional. A adesão pública de nomes como Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders deu fôlego à campanha.
Bastidores da eleição mais imprevisível da década
Nos bastidores, o que se vê é um embate entre o passado e o futuro do Partido Democrata. Cuomo, político veterano que renunciou em 2021 após acusações de assédio sexual, tenta vender a imagem de estabilidade e experiência. Mamdani, ao contrário, representa o desconforto do status quo e o grito de renovação.
A equipe de Cuomo, incomodada com o avanço do rival, apelou para ataques diretos. Panfletos o retratando com a pele escurecida e a barba acentuada foram denunciados por Mamdani como islamofobia explícita — ele seria o primeiro prefeito muçulmano da cidade. O grupo pró-Cuomo alegou erro gráfico, mas o dano já estava feito.
Enquanto Cuomo evita o contato com a imprensa e com o público, Mamdani lota casas de shows ao lado de Ocasio-Cortez e organiza comícios animados em bairros operários e de imigrantes.
Moradia, transporte e taxação dos ricos: o plano Mamdani
As propostas de Mamdani tocam em nervos expostos da metrópole. O congelamento de aluguéis e a construção de 200 mil moradias públicas buscam enfrentar a histórica crise habitacional. Já a gratuidade dos ônibus, estimada em US$ 630 milhões anuais, seria bancada pelo aumento de impostos sobre milionários e grandes corporações.
A elite nova-iorquina, naturalmente, reagiu. O mercado financeiro e setores conservadores do Partido Democrata encaram Mamdani como um risco à ordem econômica da cidade.
Em uma publicação nas redes sociais, o jovem socialista e mulçumano foi direto ao que interessa aos eleitores:
“Nossa campanha sempre foi guiada por uma crença muito simples: Nova York não pode ser a maior cidade do país se as pessoas não conseguem pagar para viver aqui.
Eu apresentei soluções de bom senso para reduzir o custo de vida. Congelar o aluguel para inquilinos de imóveis com aluguel estabilizado. Construir 200 mil moradias acessíveis. Garantir creche universal e gratuita. E muito mais.
Nós temos condições de tornar a vida mais fácil aqui. Estou concorrendo à prefeitura para fazer exatamente isso.”
O fator Gaza e o duelo pela comunidade judaica
Outro ponto de tensão são as críticas de Mamdani à guerra de Israel em Gaza. Ele classificou as ações israelenses como genocídio — um discurso que Cuomo explora para acusá-lo de antissemitismo, de olho no eleitorado judeu. Mamdani, porém, afirma ter construído alianças com judeus progressistas e propõe a criação de um departamento municipal para investigar crimes de ódio.
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O recado de Nova York para o Partido Democrata
Com a popularidade de Eric Adams em queda e o Partido Republicano fragilizado, as primárias democratas devem definir o favorito para a sucessão na maior cidade dos Estados Unidos. A votação acontece em 24 de junho de 2025, com período de votação antecipada iniciado em 14 de junho.
Na cidade de Nova York, o processo ocorre por meio da chamada votação por ordem de preferência, ou segundo turno instantâneo, em que os eleitores classificam seus candidatos em ordem de escolha. Essa dinâmica amplia as chances de nomes progressistas como Zohran Mamdani, cuja base jovem e mobilizada promete fazer diferença nas urnas.
Mas as primárias não encerram o jogo. A eleição geral para prefeito está marcada para 4 de novembro de 2025, quando o vencedor disputará o comando da cidade em meio a um cenário político nacional polarizado e a uma crise urbana cada vez mais visível.
Mais do que uma disputa municipal, a ascensão de Mamdani revela o cansaço com a velha política e sinaliza um racha interno entre o establishment e a ala progressista do Partido Democrata.
Resta saber se o recado de Nova York será ouvido em Washington — e se o fenômeno Mamdani é o prenúncio de um novo ciclo político nos Estados Unidos.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




