O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) transformou nesta segunda-feira (25) a ligação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro em munição contra o próprio campo da direita, ao chamar a aproximação com o fundador do Banco Master de “mau sinal” e dizer que ela pode favorecer Lula (PT) em 2026.
A fala foi dada em evento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), em São Paulo. Zema afirmou que fica “muito preocupado” com a possibilidade de a direita “entregar” a eleição à esquerda e disse que quem vota em Flávio Bolsonaro pode estar entregando a disputa para Lula.
O ataque foi direto no ponto mais sensível da pré-campanha bolsonarista. Zema não tratou Vorcaro como ruído menor. Ele usou o banqueiro como fronteira política, com a frase atribuída pelos jornalões ligados à Faria Lima: relação com “banqueiro bandido é mau sinal”. Em outro momento, resumiu a crítica com a expressão “gambá cheira a gambá”.
A novidade política não está apenas na dureza da frase. Está no deslocamento do caso Master. Até aqui, aliados de Flávio Bolsonaro tentavam jogar o escândalo no colo do governo Lula, com a narrativa de que o Banco Master seria um problema do atual ciclo de poder. Zema fez o movimento inverso: levou Vorcaro para dentro da disputa sucessória da direita.
O caso já tem efeito eleitoral medido. O Datafolha divulgado na sexta-feira (22) apontou Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro por 47% a 43% em simulação de segundo turno. No primeiro turno, Lula apareceu com 40%, Flávio Bolsonaro com 31%, Caiado com 4%, e Zema e Renan Santos com 3%. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas entre os dias 20 e 21 de maio, com margem de erro de 2 pontos percentuais.
Foi esse número que deu utilidade política à fala de Zema. A direita não bolsonarista passou a ter argumento para dizer que Flávio Bolsonaro pode carregar militância, mas também pode carregar rejeição. A disputa deixa de ser só moral e passa a ser matemática eleitoral.
O Blog do Esmael registrou outro dado importante: Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato ao Planalto, evitou crítica direta a Flávio Bolsonaro no mesmo evento. A diferença de tom revela a etapa atual da disputa. Zema abriu a trincheira. Caiado ainda mede o terreno.
Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, adotou outro caminho. Primeiro evitou tratar do assunto, depois disse que o caso “preocupa”, mas defendeu que Flávio Bolsonaro continuasse dando explicações. A postura mostra que o governador paulista tenta preservar a ponte com o bolsonarismo sem afundar junto no Banco Master.
Aécio Neves (PSDB-MG) aparece em outra faixa do mesmo jogo. O PSDB-SP declarou apoio a uma possível pré-candidatura do tucano ao Planalto, enquanto a federação PSDB/Cidadania discute reposicionamento para 2026. Quanto mais Flávio Bolsonaro sangra, mais espaço se abre para nomes que tentam vender moderação dentro da oposição.
O caso que alimenta essa guerra nasceu com a divulgação de áudios e mensagens pelo Intercept Brasil. O site afirmou que Flávio Bolsonaro negociou recursos de Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O senador negou irregularidade e, depois da publicação, admitiu ter tratado de investimento privado para a produção.
No Paraná, a fala de Zema chega no pior momento para Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros. O Blog do Esmael mostrou que Flávio Bolsonaro desembarca em Curitiba na sexta-feira (29) para dividir palanque com Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), em ato marcado para as 18h30 no Jockey Club do Paraná, no White Hall Eventos.
A pergunta política ficou mais simples depois da fala de Zema. Moro e Deltan vão aparecer abraçados a Flávio Bolsonaro no Paraná no mesmo momento em que outros presidenciáveis da direita tratam Vorcaro como cerca sanitária?
O teste é especialmente duro para o Paraná porque Moro e Deltan construíram capital político em torno da Lava Jato e do discurso anticorrupção. Ao lado de Flávio Bolsonaro, os dois terão de explicar se o caso Master é problema alheio, dano administrável ou fatura que a direita local aceita pagar para manter o bolsonarismo no palanque.
Flávio Bolsonaro ainda tem militância, partido e sobrenome. Mas Zema mostrou que, na direita, o sobrenome já não basta para calar concorrente. O Banco Master virou senha para medir quem fica perto, quem sai de lado e quem começa a preparar outro caminho para 2026.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




