O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o ex-ministro Fernando Haddad (PT) e o presidente Lula (PT) já tratam o voto 60+ como peça central de 2026: esse eleitorado cresceu 74% entre 2010 e março de 2026, enquanto o eleitorado total avançou 15% no mesmo período.
A eleição não será decidida só no TikTok, portanto.
O dado mais duro vem da Nexus, com base no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Brasil tinha 20,8 milhões de eleitores com 60 anos ou mais em 2010. Em março de 2026, esse número chegou a 36,2 milhões.
Em São Paulo, o grupo representa 25% do eleitorado. No país, chega a 23,2%. Ou seja, quase um em cada quatro votos pode vir de eleitores que atravessaram Plano Real, crises de inflação, reformas da Previdência, Sistema Único de Saúde (SUS), pandemia, bolsonarismo e a volta de Lula ao poder.
A disputa paulista ajuda a explicar o movimento nacional.
Definitivamente, o eleitorado 60+ entrou no radar das pré-campanhas de Tarcísio e Haddad. A campanha petista quer reapresentar Haddad aos mais velhos, explorando a memória dos governos Lula. O entorno de Tarcísio, por sua vez, pretende mostrar entregas da gestão estadual, sobretudo obras de infraestrutura.
Esse eleitor pesa porque vota com outra lógica.
O jovem pode ser mais ruidoso nas redes. O eleitor mais velho, porém, acumula memória de governo, renda, aposentadoria, preço de remédio, fila no SUS, segurança pública e estabilidade no fim do mês.
A direita sabe disso.
Tarcísio tenta vender gestão, obra e ordem. É a linguagem mais confortável para um governador que busca reeleição no maior colégio eleitoral do país.
Haddad tenta reconectar sua imagem à marca Lula, especialmente entre quem viveu os programas sociais, a valorização do salário mínimo e a ampliação do consumo nos primeiros governos petistas.
Lula também entra nessa conta.
A eleição presidencial de 2022 foi decidida por menos de 2 milhões de votos. Em cenário apertado, um bloco de 36,2 milhões de eleitores não é detalhe estatístico. É território de campanha.
A abstenção também derruba uma ideia preguiçosa sobre esse público.
Entre os eleitores com 60 anos ou mais, a abstenção caiu de 37,1% em 2014 para 34,5% em 2022. Entre os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo, a abstenção também recuou, de 63,6% em 2014 para 58,9% em 2022.
Isso significa que parte desse eleitorado está indo à urna por convicção.
Para a esquerda, o desafio é falar de renda, saúde, aposentadoria, democracia e proteção social sem cair em palestra. Para a direita, a tarefa é tentar capturar esse voto com segurança, obras, antipetismo e promessa de estabilidade.
São Paulo vira laboratório dessa disputa.
Tarcísio aparece competitivo nas pesquisas estaduais. Haddad, escolhido por Lula para a batalha paulista, carrega a missão de reduzir a vantagem do governador e ajudar o palanque presidencial no estado mais populoso do país.
A campanha de 2026 terá vídeo curto, inteligência artificial e guerra digital. Mas urna não é só algoritmo.
O eleitor 60+ guarda memória política. E memória, em eleição apertada, pode pesar mais do que trend.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




