O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embarcou neste domingo (12) rumo a Israel e ao Egito, em uma ofensiva diplomática que busca consolidar o cessar-fogo entre Israel e Hamas, após dois anos de guerra em Gaza.
A viagem marca também o início da operação de libertação de 20 reféns israelenses vivos, em troca de cerca de 2 mil prisioneiros palestinos, dentro do acordo mediado por Washington, Cairo, Doha e Ancara.
Trump declarou, antes de decolar da Base Aérea de Andrews, que “a guerra acabou” e que “todos estão comemorando juntos, algo que nunca havia acontecido no Oriente Médio”.
O presidente descreveu o momento como “muito especial” e creditou o sucesso do acordo à participação de países árabes e muçulmanos, como Catar, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, destacando que “todos estão dançando nas ruas, inclusive em Israel”.
Segundo a porta-voz do governo israelense, Shosh Bedrosian, os reféns serão entregues de uma só vez ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha, na madrugada de segunda-feira (13), e levados à base militar de Re’im, no sul de Israel, para reencontro com familiares.
Bedrosian confirmou que o grupo inclui dois pares de irmãos, soldados israelenses e cidadãos com dupla nacionalidade.
Os corpos de 28 reféns mortos também serão repatriados, enquanto equipes humanitárias tentarão localizar outros desaparecidos.
A libertação dos prisioneiros palestinos, entre eles 22 menores e centenas detidos desde 2023, deve ocorrer simultaneamente, segundo a imprensa local.
Israel prometeu liberar os detidos que não têm vínculos diretos com ataques armados.
O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que, após a troca, o exército “continuará a eliminar os túneis do Hamas”, enquanto engenheiros alertam sobre minas e explosivos não detonados em bairros inteiros de Gaza.
Trump discursará nesta segunda (13) no Knesset, o Parlamento israelense, e depois seguirá para Sharm el-Sheikh, no Egito, onde co-presidirá, com Abdel Fattah el-Sisi, a Cúpula de Paz do Oriente Médio.
O encontro reunirá mais de 20 países, entre eles França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Catar e o secretário-geral da ONU.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, também confirmou presença.
O Egito afirmou que a reunião “visa encerrar a guerra em Gaza, fortalecer a estabilidade regional e inaugurar uma nova fase de segurança e reconstrução”.
O evento, descrito pela Casa Branca como “cerimônia de paz”, deve formalizar a primeira fase de um plano de 20 pontos proposto por Trump para encerrar o conflito e iniciar a reconstrução do território devastado.
Antes do embarque, Trump falou com o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, e afirmou considerar enviar mísseis Tomahawk à Ucrânia.
O republicano disse que conversaria com Vladimir Putin antes de qualquer decisão, pois a medida seria “um novo passo de agressão”.
“Se essa guerra não acabar, posso enviar Tomahawks”, declarou.
Durante entrevista à NBC, o vice-presidente JD Vance confirmou que o governo americano “não planeja colocar botas em Gaza ou em Israel” e descartou o envio de 200 novos militares à região.
Segundo ele, o monitoramento do cessar-fogo e da ajuda humanitária ficará a cargo do Comando Central dos EUA, que já possui tropas estacionadas no Oriente Médio.
Vance também reconheceu que “nem todos os reféns mortos poderão ser recuperados”, mas afirmou que “a maioria será devolvida às famílias, para que possam ter algum fechamento emocional”.
Enquanto Trump tenta capitalizar o acordo como símbolo de sua política externa, o contexto doméstico americano segue tenso.
O governo completa doze dias de paralisação administrativa, e Trump tem usado manobras orçamentárias para garantir o pagamento das Forças Armadas, driblando o impasse com o Congresso.
Paralelamente, nomeou Dan Scavino, seu assessor mais leal desde a campanha de 2016, para chefiar o Escritório Presidencial de Pessoal, responsável por nomeações e exonerações de servidores.
O cessar-fogo em Gaza, em vigor desde sexta-feira (10), é visto como o maior avanço diplomático desde o início da guerra, em 2023, quando ataques do Hamas mataram cerca de 1.200 israelenses e resultaram no sequestro de 251 pessoas.
Em resposta, Israel bombardeou o enclave palestino, deixando mais de 67 mil mortos, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Enquanto os tratores limpam escombros em Khan Yunis e Gaza City, milhares de palestinos tentam retornar a casas destruídas.
Agências humanitárias, lideradas pelo Crescente Vermelho Egípcio, anunciaram o envio de 9 mil toneladas de ajuda humanitária, priorizando alimentos, água e medicamentos.
O premiê britânico Keir Starmer anunciou um pacote de 27 milhões de dólares em ajuda, e o Canadá confirmou que reconhecerá formalmente o Estado Palestino após a cúpula no Egito.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, recusou o convite para participar, alegando “incompatibilidade com governos que atacaram o povo iraniano”.
O ex-conselheiro de segurança nacional de Joe Biden, Jake Sullivan, elogiou Trump por “ter conseguido um cessar-fogo real e a libertação dos reféns”, mas advertiu que a paz só será duradoura “se houver um caminho crível para um Estado palestino”.
Em Jerusalém, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu unidade nacional e declarou em pronunciamento: “Este é um momento de lágrimas e de alegria, porque amanhã nossos filhos voltarão para casa. É o início de um novo caminho de reconstrução e cura.”
A missão de Trump ao Oriente Médio busca encerrar a guerra em Gaza, deflagrada em 7 de outubro de 2023.
O discurso de “guerra encerrada” contrasta com o ceticismo de líderes regionais e com a fragilidade de uma trégua ainda não consolidada.
Se o cessar-fogo se sustentar e os reféns forem de fato libertados, Trump poderá se proclamar pacificador; se ruir, seu “momento histórico” virará mais um capítulo de promessas desfeitas no deserto.
Leia também no Blog do Esmael: Governo Lula repatria brasileiros e palestinos da Faixa de Gaza para o Egito; Netanyahu não tem qualquer limite ético ou legal, diz governo Lula; Cessar-fogo temporário em Gaza entrará em vigor nesta quinta-feira

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




