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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), anunciou a demissão da diretora Lisa Cook do conselho do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, sob a alegação de “fraude hipotecária”. A medida expõe a tentativa de Trump de reduzir juros pela força e reforça no Brasil a discussão sobre encampar o Banco Central, hoje blindado pela chamada autonomia.
A manobra de Trump contra o FED
Lisa Cook, primeira mulher negra a integrar o conselho do Fed, foi removida mesmo sem acusação formal de crime. O estopim teria vindo do empresário Bill Pulte, próximo de Trump, que acusou Cook de falsificar documentos em um financiamento imobiliário. O caso foi levado ao Departamento de Justiça, mas ainda sem provas ou condenação.
Especialistas apontam que Trump se valeu de um dispositivo pouco testado da lei que rege o Fed, que permite a demissão de diretores apenas por “justa causa”. A decisão abre uma batalha institucional sobre os limites de poder do presidente diante de um banco que, por tradição, deveria manter-se afastado das pressões políticas.
Nos bastidores, porém, a motivação é clara: Trump pressiona há meses pela redução drástica dos juros básicos, contrariando o colegiado do Fed, que resiste temendo riscos inflacionários. A saída de Cook abre espaço para o republicano indicar aliados leais e remodelar a política monetária dos EUA.
O reflexo no Brasil e a autonomia do BC

No Brasil, o episódio reacende o debate sobre a Lei Complementar 179, sancionada em fevereiro de 2021 por Jair Bolsonaro (PL), que deu ao Banco Central “autonomia formal”. Desde então, críticos apontam que a instituição passou a operar sob forte influência do sistema financeiro e da Faria Lima, distante das prioridades da economia real.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT-SP), tem insistido que “o Brasil não pode servir de quintal de ninguém”, frase que ecoa no Palácio do Planalto como senha para um movimento de retomada do controle político sobre a política monetária. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também tem reforçado a necessidade de blindar o país contra especulações internas e ataques externos, sobretudo em tempos de sanções e tarifaços impostos por Trump contra exportações brasileiras.
Ou seja, Lula tem a chance de ouro para retomar a soberania do Banco Central.
Semana da Pátria e disputa simbólica
Às vésperas do 7 de Setembro, Lula e o PT pretendem transformar o debate sobre o Banco Central em bandeira de soberania nacional. A defesa do verde e amarelo como cores populares, recuperadas da extrema direita, se mistura à pauta econômica: a necessidade de retomar o comando sobre juros, moeda e crédito.
Do outro lado, aliados de Jair Bolsonaro, como o pastor Silas Malafaia, mobilizam atos em defesa do ex-presidente e contra o STF. A disputa pelas ruas, e pelas cores, dará o tom de um país em que a política monetária deixou de ser um tema técnico para se tornar questão de soberania.
BC dos oligarcas
A queda de Lisa Cook expõe que nem mesmo o Fed está imune às pressões políticas e aos humores de um presidente disposto a submeter o banco central ao seu projeto. No Brasil, a experiência recente mostra que autonomia sem legitimidade popular é sinônimo de captura pelos banqueiros. Encampar o BC pode ser menos um retrocesso institucional e mais um gesto de soberania diante da ofensiva especulativa de Trump e seus aliados.
Aqui está a íntegra da carta de Trump demitindo a diretora do FED
A CASA BRANCA
WASHINGTON
25 de agosto de 2025
Dra. Lisa D. Cook
Membro Conselho de Governadores
Sistema da Reserva Federal dos Estados Unidos
20ª Rua e Avenida Constituição, N.W.
Washington, D.C. 20551
Prezada Governadora Cook:
De acordo com minha autoridade sob o Artigo II da Constituição dos Estados Unidos e a Lei da Reserva Federal de 1913, conforme emendada, a senhora está, por meio desta, removida de sua posição no Conselho de Governadores da Reserva Federal, com efeito imediato.
A Lei da Reserva Federal estabelece que a senhora pode ser removida, a meu critério, por justa causa. Vejo 12 U.S.C. § 242. Determinei que há justa causa suficiente para removê-la de sua posição.
Conforme exposto na Denúncia Criminal datada de 15 de agosto de 2025, do Sr. William J. Pulte, Diretor da Agência Federal de Financiamento Habitacional, para a Sra. Pamela Bondi, Procuradora-Geral dos Estados Unidos (“Denúncia Criminal”) (anexada a esta carta como Anexo A), há motivo suficiente para acreditar que a senhora pode ter feito declarações falsas em uma ou mais operações hipotecárias. Por exemplo, conforme detalhado na Denúncia Criminal, a senhora assinou um documento atestando que um imóvel em Michigan seria sua residência principal no próximo ano. Duas semanas depois, a senhora assinou outro documento para um imóvel na Geórgia declarando que este seria sua residência principal no ano seguinte. É inconcebível que não tivesse ciência do primeiro compromisso ao fazer o segundo. É impossível que tivesse a intenção de cumprir ambos.
A Reserva Federal tem uma responsabilidade enorme por definir taxas de juros e regular bancos de reserva e bancos membros. O povo americano deve ter plena confiança na honestidade dos membros encarregados de definir políticas e supervisionar a Reserva Federal. À luz de sua conduta enganosa e potencialmente criminosa em uma questão financeira, não posso — e não tenho — tal confiança em sua integridade. No mínimo, a conduta em questão configura negligência grosseira em transações financeiras, o que põe em dúvida sua competência e confiabilidade como reguladora financeira.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




