O segundo dia da audiência dos Estados Unidos sobre a tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros reúne, nesta terça, 7 de julho, representantes políticos e empresariais ligados a cadeias que responderam por mais de US$ 1 bilhão das exportações paranaenses ao mercado americano em 2024. A eventual sobretaxa pode atingir encomendas industriais, produção, transporte de cargas e municípios dependentes de fábricas exportadoras.
Flávio Bolsonaro abre o primeiro painel do dia ao lado da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). A programação posterior inclui a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a WEG, a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a Klabin e a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci).
A composição dos painéis mostra que o conflito comercial ultrapassa as divergências sobre o Pix, as plataformas digitais e a política brasileira. A mesa inclui papel e celulose, madeira processada, máquinas, motores, equipamentos elétricos e calçados, setores integrados à economia industrial do Paraná.
Em 2024, o Paraná exportou US$ 1,587 bilhão aos Estados Unidos, seu segundo principal destino naquele ano. Madeira e derivados responderam por US$ 614,5 milhões; máquinas e equipamentos, por US$ 217,6 milhões; equipamentos elétricos, por US$ 131,2 milhões; papel e derivados, por US$ 53,8 milhões; e couro e produtos relacionados, por US$ 47,9 milhões.
Somadas, essas cinco cadeias movimentaram US$ 1,064 bilhão, o equivalente a 67,1% de tudo o que o Paraná vendeu aos Estados Unidos em 2024. O número mede a dimensão comercial dos setores representados na audiência, mas não corresponde automaticamente ao valor que será sobretaxado.
A proposta americana contém exceções por produto e mantém fora da tarifa mercadorias submetidas a outros regimes comerciais. O próprio USTR pediu aos participantes informações sobre insumos sem fornecedores alternativos, riscos de desorganização das cadeias produtivas e impactos sobre empresas e consumidores americanos.
O setor madeireiro concentra a maior exposição paranaense. Apenas as vendas de compensados aos Estados Unidos alcançaram US$ 192,5 milhões em 2024. Entre janeiro e maio de 2026, produtos florestais paranaenses, incluídos itens sujeitos à medida e itens excepcionados, somaram aproximadamente US$ 90 milhões no mercado americano.
A posição escrita de Flávio Bolsonaro tem natureza predominantemente política. Em documento apresentado ao processo americano, o senador pediu a suspensão da tarifa por 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 90 dias e retomada automática da medida caso não ocorram avanços nas negociações. A argumentação relaciona o calendário comercial à eleição brasileira de outubro de 2026 e sustenta que a sobretaxa poderia favorecer eleitoralmente o governo Lula.
O pedido não pode ser tratado como posição automática da CNI, da Klabin, da Abimci ou da Abimaq. A agenda oficial confirma apenas que essas organizações participam da audiência. Qualquer afirmação sobre as reivindicações empresariais deverá ser baseada nas manifestações efetivamente apresentadas por cada representante, e não na proximidade física ou política entre os participantes.
No Paraná, uma redução das encomendas poderia atingir primeiro as fábricas exportadoras e, em seguida, fornecedores menores, transportadoras, caminhoneiros, terminais logísticos e operadores portuários. Não há, porém, número oficial disponível que permita afirmar quantos empregos dependem diretamente das vendas aos Estados Unidos.
O módulo municipal do Comex Stat identifica o domicílio fiscal do exportador, e não necessariamente a cidade onde o produto foi fabricado. Cruzar esses dados diretamente com empregos municipais produziria uma precisão enganosa. O cálculo adequado exige combinar os produtos efetivamente alcançados pela tarifa com registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) ou do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
A decisão americana deverá ser conhecida até 15 de julho de 2026. Até lá, a questão central para o Paraná será identificar quais mercadorias permanecerão na lista, quais conseguirão exceções e se compradores americanos começarão a reduzir ou adiar pedidos.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




