A audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), realizada em Washington em 6 e 7 de julho de 2026, levou a tarifa de 25% contra produtos brasileiros para a fase decisiva das exceções. A decisão final é esperada até 15 de julho, e o conflito já saiu da diplomacia para atingir exportadores, cooperativas, indústria, portos e empregos no Paraná.
O USTR propôs aplicar tarifa adicional de 25% sobre bens brasileiros no âmbito da investigação da Seção 301, aberta contra atos, políticas e práticas do Brasil em temas como comércio digital, Pix, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. O próprio aviso do governo norte-americano prevê exceções para determinados produtos e convida interessados a disputar o alcance da lista.
É nesse ponto que o Paraná entra no centro da disputa.
A Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) estima que cerca de 80% das exportações industriais paranaenses para os Estados Unidos podem ser atingidas caso a tarifa seja confirmada. A defesa protocolada pela entidade reúne produtos que somam aproximadamente US$ 1 bilhão dos US$ 1,3 bilhão exportados pela indústria do estado ao mercado norte-americano em 2025.
A lista defendida pela Fiep inclui madeira, molduras, compensados, madeira serrada, pisos, portas, móveis de madeira, revestimentos cerâmicos, papel, café instantâneo, mel, filés de tilápia, couro bovino, enzimas, resinas, dextrinas e equipamentos ortopédicos. A entidade também pede que produtos já sujeitos à Seção 232, como itens do setor metalmecânico, não sofram dupla cobrança pela Seção 301.
O anexo do USTR já exclui da tarifa itens como cortes bovinos, café não torrado e torrado, terras raras, partes aeronáuticas, celulose e determinados produtos de madeira. A disputa real está nos códigos tarifários que ficaram na zona cinzenta: o produto genérico pode parecer protegido, mas o derivado exportado pelo Paraná pode continuar exposto.
O dado econômico local explica a urgência. Segundo análise do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), com base no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os Estados Unidos foram o segundo destino das exportações do Paraná em 2024, com US$ 1,587 bilhão, atrás apenas da China. Madeira e produtos de madeira responderam por 38,71% da pauta paranaense para os EUA; alimentos, por 14,30%; máquinas e equipamentos, por 13,70%.
A audiência mostrou que a guerra das exceções não é retórica. Representantes brasileiros, importadores americanos e entidades setoriais disputaram linha por linha o que entra ou sai da tarifa. A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) defendeu que produtos do capítulo 44 sejam excluídos, sob o argumento de que vêm de florestas plantadas, rastreáveis e certificadas, e que a tarifa não atacaria o problema do desmatamento ilegal.
Do outro lado, produtores americanos de madeira defenderam manter molduras e millwork brasileiros dentro da tarifa, alegando concorrência desleal e impacto de produtos ligados a desmatamento. Esse é o conflito concreto para o Paraná: a mesma cadeia que sustenta fábricas, fretes e empregos no estado é apresentada por concorrentes dos EUA como alvo preferencial da sanção.
A cobrança política também muda de endereço. Não basta dizer que a tarifa é ruim para o Brasil. Gleisi Hoffmann (PT), Filipe Barros (PL), Alexandre Curi (Republicanos), Requião Filho (PDT), Sandro Alex (PSD), Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Alvaro Dias (MDB) precisam responder quais cadeias paranaenses defendem, quais exceções pedem e que pressão fizeram sobre Itamaraty, MDIC, USTR, Fiep, Ocepar e Portos do Paraná antes de 15 de julho.
A Fiep já se moveu. A Abimci foi à audiência. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também apareceu na programação oficial. Falta saber se a bancada paranaense atuará como representação econômica do estado ou se deixará a disputa virar apenas munição eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A diferença é prática. Para o trabalhador industrial, o produtor rural, o caminhoneiro, o exportador e o município dependente do comércio exterior, a lista de exceções vale mais do que discurso em rede social. Se madeira, tilápia, mel, couro, café solúvel, máquinas e derivados industriais ficarem fora da proteção, a tarifa deixará de ser notícia internacional e entrará na planilha de custos do Paraná.
O Blog do Esmael acompanhará, produto por produto, quem pediu exceção, quem se omitiu e quem tentou transformar uma ameaça comercial contra o Paraná em palanque eleitoral.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




