O adiamento da votação do PL Antifacção no Congresso nos lembra que não há solução simples para problemas complexos, especialmente quando o debate técnico é atropelado pelos interesses eleitorais de todos.
À centro-direita interessa trazer a segurança para o centro do palco político, já que é nesse campo em que ela costuma crescer nas preferências do eleitor.
Pela relevância do assunto, ao governo Lula não é possível fugir do tema. O Palácio do Planalto já sinalizou que fará o enfrentamento, tanto que reuniu ministros ex-governadores nessa quinta e adiou a cerimônia de isenção do IR, tema que trará dividendos políticos à gestão Lula 3.
Na atual discussão da segurança pública, a centro-direita não está ganhando todos os debates. O governo teve uma pequena vitória na terça com recuo do relator Guilherme Derrite (PL-SP), e adotou postura de cautela na quarta, defendendo mais discussão sobre o assunto.
O relatório de Derrite foi capaz de contrariar todos os demais atores: tanto o governo quanto o PL e os governadores de direita apoiaram o adiamento das discussões por estarem insatisfeitos com o texto.
Foi adicionado ao debate político o resultado da pesquisa Quaest, interpretada no Planalto como mais um sinal de que o governo não pode fugir ao debate da segurança e precisa dar uma resposta, mesmo com a leitura de que o impacto estava dentro do esperado, já antecipado pelos trackings.
Fora do governo, há a leitura de que a fala de Lula sobre os traficantes foi a grande responsável pela queda, e não a atuação do governo na área. Entre as soluções que estão em estudo está a criação de uma Secretaria de Combate ao Crime Organizado.
O debate trouxe um ponto positivo para a oposição. O PL adotou a questão do terrorismo como a próxima bandeira, após o fracasso da anistia. A estratégia do partido agora é tentar esticar ao máximo a discussão dos projetos, se possível até dezembro no Congresso, para constranger o governo e manter o tema da segurança em alta, de preferência até as eleições.
A discussão da semana teve um impacto negativo para Guilherme Derrite e consequentemente ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no curto prazo (ambos tendem a colher frutos positivos no médio prazo, a depender do desenrolar nas próximas semanas). Nesta semana, os dois ficaram no meio da queda de braço entre PL e governo.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, também não se saiu bem do episódio até o momento. Inicialmente ele agradou ao seu partido e à centro-direita, ao dar a relatoria a Derrite, mas acabou desagradando a todos os demais envolvidos.
Historicamente, os temas econômicos são os definidores de eleições. Ainda não está claro se a segurança será o tema que definirá votos em outubro de 2026 nas eleições presidenciais, mas esse não é nosso cenário-base. Mantemos a aposta de que economia será mais importante (e a segurança nas eleições locais terá impacto relevante).

Jornalista e historiadora. Analista da Fatto Inteligência Política em Brasília. Traça cenários de risco político.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Blog do Esmael.




