Enquanto o país respira os primeiros dias de 2025, o Palácio do Planalto já traça as linhas de um tabuleiro complexo: garantir apoio político para a possível reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. A estratégia envolve negociações com o Centrão, partidos de base e até rivais históricos. Mas os obstáculos são tão densos quanto a ambição.
Lula busca consolidar alianças com líderes influentes no Congresso, como Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB), cotados para comandar o Senado e a Câmara em 2026. O objetivo é assegurar estabilidade legislativa e evitar que siglas como União Brasil e Republicanos lancem candidaturas próprias –ou engrossem o caldo de uma candidatura bolsonarista.
A reforma ministerial é outra carta na manga. Partidos como PP e Republicanos pressionam por mais espaço na Esplanada, especialmente após a eleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara. O Planalto estuda redistribuir pastas para ampliar laços, mas enfrenta resistências: o MDB, por exemplo, afirma não querer mais cargos, enquanto o PSD exige um ministério estratégico.
Apesar dos acenos, partidos do Centrão evitam compromissos formais. “A decisão de apoiar Lula em 2026 dependerá do cenário político em 2025”, admitiu um ministro aliado. Ratinho Júnior (PSD-PR), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) são nomes cotados para a Presidência, o que fragmenta as lealdades e aumenta a cotação das legendas no leilão pré-2026.
Para o governo, a neutralidade de partidos como Republicanos e União Brasil é essencial. Se não lançarem candidatos, a oposição perde força. Mas a incerteza persiste: “Nenhum partido definirá apoio agora”, ressalta um líder do Centrão.
O agronegócio surge como um adversário estratégico. Apesar de medidas como o Plano Safra recorde e acordos comerciais, setores do agro criticam a gestão petista e sinalizam apoio a candidatos de centro-direita, como Tarcísio e Caiado. A hostilidade é alimentada por declarações de Lula contra “fascistas” do setor e atritos com ministros como Marina Silva (Rede-SP), do Meio Ambiente.
Já a oposição, liderada pelo PL, tenta unificar a direita em torno de uma candidatura única, evitando a pulverização de votos. O ex-presidente Jair Bolsonaro, inelegível até 2030, ainda mobiliza bases, enquanto aliados como Nikolas Ferreira (PL-MG) viralizam críticas nas redes.
Solto, a tendência é que Bolsonaro busque uma solução caseira para a disputa presidencial do ano que vem. Nomes da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro (PL-SP) aninam até o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, interessado em ampliar as bancadas do partido na Câmara e no Senado.
No entanto, o cenário mudaria com Bolsonaro preso. Na hipótese de prisão, Tarcísio, Ratinho e Caiado representariam uma “ponte” para o retorno do ex-presidente à cena política. Uma vitória da direita poderia abrir a porta do cárcere para Bolsonaro, além de manter vivo o projeto político da direita conservadora.
A comunicação do governo vive um divisor de águas. Após tropeços como a polêmica da taxação do Pix, Lula trouxe o marqueteiro Sidônio Palmeira para centralizar a estratégia. A meta é transformar a Presidência em um “gabinete de campanha”, priorizando temas como combate à dengue e programas sociais.
Mas a desconfiança persiste: 67% dos entrevistados pela Quaest acreditam que o governo ainda pode taxar o Pix, apesar das negativas oficiais. Para Sidônio, o descrédito é um “câncer em metástase” — e a cura exige mais do que propaganda.
Aos 79 anos, a saúde de Lula é uma variável delicada. Em reuniões reservadas, o presidente atribui sua decisão final a “Deus” e cita acidentes recentes, como a queda que exigiu cirurgia na cabeça. Aliados temem que a falta de um sucessor claro — Haddad, Camilo Santana e Rui Costa não têm apoio unânime — deixe o PT vulnerável. Uma das soluções seria atravessar a Praça dos Três Poderes para buscar o ministro Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal (STF), para enfrentar contra a extrema direita.
Mas o fato é que Lula é candidatíssimo a um quarto mandato e o presidente já está cuidado para levantar palanques regionais, a exemplo de Pernambuco, onde possivelmente marchará com João Campos (PSB), e no Paraná, o PT planejar lançar Enio Verri como candidato ao Palácio Iguaçu.
A eleição está longe, mas as peças já se movem. Lula sabe que, sem o Congresso, não há reeleição. E sem popularidade, não há Congresso. O desafio é equilibrar concessões políticas, respostas à crise econômica e uma comunicação que reconquiste a confiança perdida.
Enquanto isso, o Centrão observa, o agro articula, e a oposição espera seu momento. Em 2026, o Brasil decidirá não apenas um nome, mas qual jogo de poder prevalecerá.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
![Lula assina contrato de concessão da BR-381. Foto: Ricardo Stuckert [22/01/2025]](https://www.esmaelmorais.com.br/wp-content/uploads/2025/01/lula-concessao-br381.jpg.webp)



