Pressão no diesel recoloca recompra da Petrobras no centro

Estatal deve ser instrumento de soberania econômica, com comando orientado pelo Estado e compromisso com abastecimento, investimento e desenvolvimento nacional, não apenas com a remuneração imediata dos acionistas

O barril do petróleo Brent recuou a US$ 102,91 nesta quarta-feira (1º), depois de tocar US$ 98,35 no intradia, mas isso ainda não virou alívio para o bolso do brasileiro. O mercado segue operando sob incerteza sobre a normalização do fluxo no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito.

A queda da cotação não encerra o choque porque o problema deixou de ser apenas preço de tela e continua sendo risco de oferta, logística e reposição de estoques. A Agência Internacional de Energia (IEA) afirmou nesta quarta que as perdas de petróleo do Oriente Médio devem crescer em abril, com impacto inflacionário e desaceleração econômica, e apontou justamente diesel e querosene de aviação entre os derivados mais pressionados.

No Brasil, o governo não fala em desabastecimento imediato, mas já está em modo de contenção. O Ministério de Minas e Energia (MME) instalou uma Sala de Monitoramento do Abastecimento em 10 de março, com acompanhamento diário do mercado, e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reforçou em março o monitoramento de estoques e importações, embora diga que, até aqui, não identifica restrições à oferta doméstica.

A equipe econômica já mexeu no diesel porque é ali que a inflação costuma ganhar tração na vida real. O Ministério da Fazenda anunciou no mês passado o corte de PIS/Cofins sobre o diesel e autorizou subvenção à comercialização do combustível rodoviário. Hoje, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, disse que o governo também está “olhando com atenção” para gás liquefeito de petróleo (GLP) e querosene de aviação (QAV), dois derivados com efeito político imediato sobre gás de cozinha e passagens aéreas.

O QAV, aliás, já saiu do campo da ameaça e entrou no caixa das companhias. A Petrobras elevou em cerca de 55% o preço do combustível de aviação a partir deste 1º de abril. O combustível representa mais de 30% dos custos operacionais das aéreas no Brasil, e a holding da Gol afirmou precisar elevar tarifas em cerca de 10% para cada aumento de US$ 1 por galão no combustível.

No diesel, a tentativa de contenção continua. A Petrobras ampliou a oferta de abril em 70 milhões de litros de diesel S10 e 95 milhões de litros de gasolina por meio de contratos, depois de o mercado reagir mal aos prêmios cobrados em negociações e de a ANP exigir a liberação de volumes adicionais. Isso ajuda a segurar a curva curta, mas não muda o dado central: enquanto Ormuz seguir sob risco e a infraestrutura energética do Oriente Médio permanecer atacada, o repasse pode atrasar, não desaparecer.

O barril pode cair na tela e continuar caro na economia real. Quando diesel, GLP e QAV entram na zona de pressão, a inflação volta a rondar frete, comida, gás de cozinha e passagens.

Portanto, a recompra das ações da Petrobras precisa voltar ao centro do debate nacional porque uma empresa estratégica de petróleo não pode permanecer ajoelhada ao dogma do Preço de Paridade de Importação (PPI), que subordina o interesse público à lógica do mercado externo.

O Brasil tem escala, reservas, parque de refino e demanda para perseguir a autossuficiência em produção, refino e transporte de combustíveis, reduzindo a vulnerabilidade do país a choques internacionais e a especulações que batem no diesel, no gás de cozinha e na inflação.

Essa virada exige recuperar a Petrobras como instrumento de soberania econômica, com comando orientado pelo Estado e compromisso com abastecimento, investimento e desenvolvimento nacional, não apenas com a remuneração imediata dos acionistas.

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