O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP), saiu politicamente menor da reunião do diretório nacional do PSOL neste sábado (7): o partido rejeitou por ampla maioria a entrada na federação do PT, decidiu renovar a aliança com a Rede Sustentabilidade e, ao mesmo tempo, confirmou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já no primeiro turno. O recado interno foi claro: unidade contra a extrema direita, sim; diluição orgânica no petismo, não.
A votação expôs a correlação de forças dentro do PSOL. Segundo relatos convergentes publicados neste sábado, cerca de 76% do diretório rejeitaram a federação com o PT, numa derrota direta para o campo de Boulos, que defendia a adesão à Federação Brasil da Esperança, formada por PT, Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Partido Verde (PV).
Em nota oficial, a presidenta nacional do partido, Paula Coradi, afirmou que o debate ocorreu de forma “democrática e ampla”. No plano prático, porém, a resolução aprovada preserva a autonomia partidária do PSOL e autoriza a renovação da federação PSOL-Rede, considerada pela direção como instrumento mais seguro para atravessar a cláusula de barreira sem subordinação às táticas estaduais do PT.
O ponto central da derrota de Boulos está justamente aí. O grupo do ministro apostava que a aproximação estrutural com o PT ampliaria musculatura eleitoral, tempo de propaganda e acesso a recursos em 2026. A maioria partidária, no entanto, entendeu que o preço seria alto demais: perda de autonomia, submissão a composições regionais heterogêneas e desgaste da identidade programática construída desde a fundação do PSOL, uma dissidência do próprio PT.
A resolução política aprovada pelo PSOL também fechou a porta para candidatura própria ao Planalto. O partido decidiu apoiar Lula desde o primeiro turno, repetindo a opção de 2022 e enquadrando essa escolha como parte da prioridade estratégica de derrotar a extrema direita. Ao mesmo tempo, a sigla fixou como objetivo central superar a cláusula de barreira e ampliar suas bancadas na Câmara e nas assembleias estaduais.
Esse arranjo produz uma situação curiosa, mas bastante brasileira: o PSOL seguirá no palanque de Lula, porém sem aceitar um casamento formal com o PT. Em português claro, a legenda quer votar junto no essencial da disputa nacional, mas manter as mãos livres nos estados, sobretudo onde o petismo negocia com forças do centro e até com lideranças rejeitadas por setores psolistas.
No bastidor, a rejeição reacendeu especulações sobre o futuro de Boulos. Reportagens publicadas antes e no dia da votação registraram que lideranças do PSOL acreditam numa eventual migração do ministro para o PT, caso a federação fosse enterrada. Ao mesmo tempo, o próprio Boulos negou essa intenção, segundo a velha mídia corporativa. Portanto, o dado seguro, neste momento, é este: há pressão, rumores e leitura de isolamento interno, mas não há confirmação pública de desfiliação.
Politicamente, o episódio interessa muito além da vida interna do PSOL. Para o PT, a recusa trava o plano de unificar de forma mais rígida a esquerda institucional na eleição presidencial. Para Lula, o apoio está garantido, mas sem a vantagem adicional de incorporar o PSOL à federação. Para Boulos, sobra um dilema: permanecer como principal rosto de uma ala derrotada dentro do partido ou recalibrar seu projeto pessoal para 2030 sem romper de imediato.
Há ainda um componente matemático nada desprezível. Em 2026, a cláusula de barreira exigirá desempenho mínimo nacional para preservar fundo partidário e tempo de propaganda. A direção do PSOL aposta que ainda pode superar esse piso com chapa própria forte para a Câmara, manutenção da federação com a Rede e atração de nomes competitivos. Os defensores da federação com o PT, por sua vez, consideravam esse caminho mais arriscado.
No fundo, o PSOL decidiu sobreviver como partido, não como corrente auxiliar do lulismo. Isso não significa rompimento com Lula, longe disso. Significa que a sigla quer continuar sendo voz própria no campo progressista, inclusive para pressionar o governo pela esquerda em temas como agenda ambiental, justiça tributária, mobilização popular e enfrentamento ao centrão. A derrota de Boulos, portanto, não é só organizativa. É um freio interno num projeto de aproximação mais profunda com o PT.
A decisão do PSOL mostra que a unidade da esquerda em 2026 terá limites bem definidos. Haverá palanque comum contra o bolsonarismo, mas não haverá fusão de identidade. E isso diz muito sobre o ciclo político que se abre: Lula continua sendo o polo agregador, porém já não absorve automaticamente todas as legendas à sua esquerda.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




