A Polícia Federal deflagrou neste 1º de julho a Operação Galho Fraco II, terceira fase da Rent a Car, para apurar suspeita de desvio de dinheiro público em locação de veículos paga com cota parlamentar da Câmara dos Deputados; a consequência política chega ao PL, que tenta vender em 2026 uma vitrine moral sem explicar a planilha do próprio cotão.
A operação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e cumpre cinco mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais. A investigação apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, fraude processual e organização criminosa.
O alvo político da notícia não é apenas o entorno do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara. A linha dura está nos registros de reembolso, nas empresas contratadas, nas notas fiscais e na pergunta que o eleitor entende sem juridiquês: dinheiro público destinado ao mandato foi usado para serviço real ou para dar aparência legal a um esquema?
Sóstenes não é alvo da nova fase, segundo levantamento do Blog do Esmael. A PF, porém, afirma que a etapa de 1º de julho busca aprofundar a apuração sobre movimentação e destino dos recursos. Esse ponto desloca a notícia da foto da operação para a contabilidade da Câmara.
A empresa Harue Locação de Veículos Ltda. aparece no centro das fases anteriores da apuração. Segundo cobertura baseada nos autos e nos dados da Câmara, a Harue recebeu R$ 841,9 mil de cota parlamentar entre 2015 e 2024. A suspeita é de emissão de notas fiscais falsas e simulação de contratos de locação de veículos.
Na fase anterior, a PF já havia apontado indícios de que gabinetes parlamentares contrataram locadora com dinheiro da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), mecanismo de reembolso usado por deputados para despesas do mandato. A Câmara permite a consulta pública desses gastos, inclusive por parlamentar, fornecedor, mês, ano e tipo de despesa.
Os números públicos ajudam a dimensionar o peso político da rubrica. Em 2026, a página oficial da Câmara registra R$ 215.500,58 de cota parlamentar gasta por Sóstenes Cavalcante até junho e R$ 256.225,25 por Carlos Jordy (PL-RJ) no mesmo período. Esses valores não significam irregularidade por si; mostram que a cota parlamentar é dinheiro recorrente, volumoso e verificável.
O caso contamina o discurso moral do PL porque nasce na rubrica que deveria custear mandato. Locação de veículo, passagem, escritório e divulgação parlamentar são despesas permitidas quando há serviço prestado, nota válida e finalidade pública. O problema investigado é outro: a suspeita de que empresas e particulares tenham sido usados para dar aparência de legalidade à movimentação de recurso público.
Em dezembro de 2025, a PF apreendeu cerca de R$ 430 mil em espécie em endereço ligado a Sóstenes. O parlamentar afirmou à imprensa que era vítima de perseguição política e que o dinheiro tinha origem na venda de um imóvel. A explicação é declaração atribuída ao deputado; não elimina a investigação nem autoriza condenação antecipada.
A diferença entre acusação e prova precisa ser preservada. Não há sentença condenatória contra Sóstenes ou Jordy nesse caso. A investigação corre sob supervisão do STF porque envolve parlamentares com foro. O que já existe é suficiente para uma cobrança pública: a Câmara deve abrir a planilha de forma inteligível, o PL deve explicar seus contratos e a oposição bolsonarista precisa dizer se defende transparência também quando a suspeita bate na própria porta.
No Paraná, a operação atravessa a pré-campanha de Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL). O trio foi lançado em Curitiba, em 29 de maio, em ato com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com discurso centrado em combate à corrupção, segurança pública e ataque ao STF. A Galho Fraco II obriga essa frente a responder sobre dinheiro público real, não apenas sobre moralidade abstrata.
Moro tenta disputar o governo do Paraná com o selo da Lava Jato. Deltan busca transformar a memória da operação em ativo eleitoral. Filipe Barros, deputado federal pelo Paraná, disputa espaço no mesmo campo político e aparece na Câmara com R$ 214.305,94 de cota parlamentar gasta em 2026 até junho, dado público e regular até prova em contrário. Nenhum dos três é acusado na Galho Fraco II. A questão política é outra: quem usa a ética como palanque aceita auditoria no próprio quintal?
Essa é a armadilha para o PL. Quando a legenda fala em corrupção, tenta jogar a suspeita sempre no adversário. Quando a PF chega à cota parlamentar de aliados, o discurso muda para perseguição, abuso ou silêncio. O eleitor que paga imposto não precisa escolher entre STF e bolsonarismo para exigir uma resposta simples: qual empresa recebeu, por qual nota fiscal, por qual veículo, em qual período e com qual prova de uso público?
A eleição de 2026 no Paraná terá pedágio, Copel, segurança, educação, saúde e disputa nacional. Mas também terá memória moral. O campo de Moro, Deltan e Filipe Barros só mantém o verniz anticorrupção se defender transparência sem seletividade. Caso contrário, a Galho Fraco II vira um passivo incômodo: o partido que promete limpar Brasília também precisa explicar o próprio cotão.
O Blog do Esmael seguirá acompanhando a planilha da cota parlamentar, as empresas citadas nos autos e os reflexos da operação no palanque do PL no Paraná. Compartilhe esta matéria e envie novas informações documentadas à redação.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




