PF mira Banco Master e amplia cerco a Daniel Vorcaro e Tanure

A Polícia Federal avançou sobre o núcleo do Banco Master ao cumprir mandados de busca em endereços do controlador Daniel Bueno Vorcaro e de parentes, ampliando a investigação sobre um suposto esquema de fraudes financeiras que pode ter desviado bilhões do sistema bancário para patrimônio privado.

A nova fase da Operação Compliance Zero atingiu também nomes de peso do mercado, como o empresário Nelson Tanure e o investidor João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora Reag Investimentos. As diligências ocorreram em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, com foco em endereços ligados à cúpula do banco e a empresas do conglomerado.

Nelson Tanure não é um nome estranho ao Paraná. O empresário ganhou projeção no estado em 2020, no primeiro governo de Ratinho Júnior (PSD-PR), ao arrematar a Copel Telecom em leilão de privatização por cerca de R$ 2,4 bilhões, por meio de um fundo ligado ao seu grupo. A operação marcou a saída do braço de telecomunicações da Copel do controle estatal e transformou o ativo na atual Ligga Telecom. Desde então, Tanure passou a ser figura recorrente nos bastidores econômicos paranaenses, associado a aquisições de empresas em dificuldade financeira e a movimentos de reestruturação que frequentemente caminham no limite entre a ousadia empresarial e a controvérsia regulatória.

Segundo a PF, o esquema do Master envolvia captação de recursos, aplicação em fundos e posterior desvio para pessoas físicas ligadas a Vorcaro. A apuração aponta crimes como organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais.

O cerco se intensificou após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, ao concluir que a instituição não tinha condições de honrar compromissos financeiros. Entre as práticas sob investigação está a emissão de CDBs com promessa de rendimentos até 40% acima da taxa de mercado, retorno considerado irreal pelas autoridades.

Fontes da investigação estimam que o volume das fraudes possa chegar a R$ 12 bilhões.

A ordem para as buscas partiu do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que também determinou o sequestro e bloqueio de bens e valores superiores a R$ 5,7 bilhões. Ao todo, são 42 mandados de busca e apreensão.

A operação teve episódios que chamaram atenção. O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi detido no aeroporto quando embarcaria para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele acabou liberado após a ação, já que a prisão foi apenas para viabilizar as diligências. Em novembro, o próprio Vorcaro havia sido preso em Guarulhos quando também tentava deixar o país rumo a Dubai.

Nelson Tanure, conhecido por investir em empresas em dificuldade financeira, não foi encontrado em sua residência, mas teve o celular apreendido quando foi localizado no Aeroporto do Galeão, no Rio. Ele nega irregularidades, mas já responde a outra investigação no Ministério Público Federal por suposto uso de informação privilegiada no mercado acionário.

Nos bastidores, a PF e o Banco Central apuram operações financeiras consideradas atípicas, envolvendo fundos ligados à Reag Investimentos. Um dos casos citados em relatórios oficiais aponta um fundo que multiplicou artificialmente seu patrimônio em poucas semanas, a partir de recursos emprestados pelo Banco Master, em transações que levantaram suspeitas de maquiagem contábil.

O Banco Central informou ao Ministério Público Federal que mais de R$ 10 bilhões em operações de crédito do Master foram aplicados por empresas em fundos com rendimento inferior ao custo das operações, o que reforça a hipótese de que o banco servia como engrenagem para desviar recursos.

Diante da liquidação do Master, o Tribunal de Contas da União entrou no caso para fiscalizar o processo, em articulação com a autoridade monetária, evitando que brechas jurídicas beneficiem os antigos controladores da instituição.

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que ele tem colaborado com as autoridades e que todas as medidas judiciais estão sendo cumpridas com transparência. Os advogados dizem que o empresário permanece à disposição para esclarecer os fatos.

O avanço da PF sobre o Banco Master expõe mais do que um escândalo financeiro. Revela a fragilidade da fiscalização sobre conglomerados bancários de médio porte e reacende o debate sobre como esquemas sofisticados conseguem operar por anos antes de serem estancados. Para o sistema financeiro e para os investidores lesados, a resposta agora depende de uma apuração rigorosa e de punições que não se percam nos labirintos do poder econômico.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, considerou o caso Master como maior fraude bancária da história do Brasil.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *