Blog do Esmael, direto de Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) nos cenários mais sensíveis da nova pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta quarta-feira (11), mas o retrato político do momento vai além da fotografia eleitoral: o caso Master já contaminou a percepção pública, e 35% dos entrevistados que dizem conhecer o escândalo o associam ao Supremo Tribunal Federal (STF), não diretamente ao Palácio do Planalto.
Esse dado ajuda a desmontar, ao menos por enquanto, a tentativa de parte da velha mídia de colar de forma automática a imagem de Lula ao enredo do banco. A crise existe, produz ruído institucional e afeta o ambiente político, mas a própria pesquisa indica uma dispersão dessa responsabilidade percebida pelo eleitorado: 35% ligam o caso ao STF, 21% ao governo federal, 18% ao Congresso e 26% a todos os anteriores.
No levantamento do Instituto Ideia encomendado pelo Canal Meio, Lula marca 47,4% contra 45,3% de Flávio Bolsonaro num cenário de segundo turno e 46,4% contra 44,8% de Tarcísio, ambos dentro da margem de erro de 2,5 pontos. Ao mesmo tempo, a rejeição do petista chega a 43,6%, acima dos 34,5% atribuídos a Flávio. A pesquisa ouviu 1.500 eleitores entre 6 e 10 de março e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00386/2026.
É aí que entra a leitura política feita pela ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), responsável pela articulação do governo Lula. Ela não costuma brigar com os números quando eles acendem sinal amarelo, mas insiste numa lição aprendida em décadas de embate político: já decretaram muitas vezes a morte do PT e de Lula, e a história mostrou que nem sempre a manchete do dia vira resultado de eleição. Em 2024, por exemplo, Gleisi já havia reagido publicamente à tese de “morte” do partido, afirmando que não era a primeira vez que isso era anunciado. E a pesquisa em tela está longe de representar um epitáfio do lulismo.
O ponto central, para o Planalto, é que o caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro e virou disputa de narrativa. Só que essa narrativa não anda numa única direção. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), revelado nesta quarta-feira (11), aponta que uma empresa ligada ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da gestora Reag entre dezembro de 2022 e maio de 2024. O próprio ACM Neto confirmou os pagamentos e alegou prestação de serviços de consultoria.
Também pesa nesse quadro o episódio envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Reportagens publicadas na última semana informaram que ele viajou, na campanha de 2022, em um jato ligado a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, durante a caravana Juventude pelo Brasil, mobilização pró-Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial.
Em outras palavras, quanto mais a investigação avança, mais aparecem conexões políticas que passam longe de uma associação exclusiva entre o Master e o campo lulista. O caso segue pressionando instituições, respingando no STF, no Congresso e no governo, mas os vínculos já tornados públicos mostram intensa interlocução com nomes relevantes da direita e do bolsonarismo.
Por isso a pesquisa desta quarta-feira merece ser lida com menos histeria editorial e mais senso de correlação de forças. Lula não está folgado. O Planalto tem motivo para se preocupar com rejeição, com a competitividade de Flávio e Tarcísio e com o desgaste produzido pelo ambiente de crise. Mas também não há base sólida, até aqui, para vender a ideia de que o caso Master carimbou sozinho a testa do governo. A disputa segue aberta, o eleitorado continua dividido e o escândalo, ao que tudo indica, tem raízes mais cravadas na direita do que gostariam os editorialistas de ocasião.
A fotografia da manhã, portanto, não mostra um Lula liquidado politicamente. Mostra um presidente sob pressão, diante de adversários competitivos, numa conjuntura em que a guerra de narrativa tenta correr na frente dos fatos. E os fatos, ao menos por enquanto, ainda complicam mais de um lado. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




