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Paulo Martins leva cheiro de enxofre ao acordo Ratinho-Moro

O Palácio Iguaçu saiu do ato de Sergio Moro com uma pergunta incômoda na mesa: Paulo Martins foi ao palanque da extrema direita por conta própria ou com senha política do grupo de Ratinho Junior?

O vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins (Novo), subiu ao palco de Moro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) na sexta-feira (29), em Curitiba, no mesmo momento em que o governador Ratinho Junior (PSD) tenta vender Sandro Alex (PSD) como seu nome oficial para a sucessão no Paraná.

Nos corredores do poder, a presença de Martins produziu duas leituras opostas. A primeira diz que Ratinho Junior teria ficado “fulo da vida” com a “chifrada” de seu pupilo político, que foi abraçar Moro no evento organizado pelo campo adversário ao candidato do Palácio Iguaçu.

A segunda leitura, defendida pelos mais incrédulos, é menos inocente. Para esse grupo, Ratinho Junior estaria permitindo uma “pinguela” com Moro, Flávio Bolsonaro e a direita bolsonarista para manter aberta uma saída política caso Sandro Alex não decole na corrida pelo governo.

A pimenta que arde no Palácio Iguaçu vem de antes. Paulo Martins estava no PL, migrou para o Novo e fez a travessia com a bênção política de Ratinho Junior, que participou da cerimônia de filiação em Curitiba. O ato foi registrado pelo Blog do Esmael e já havia deixado no ar a suspeita de que Martins não se movia sozinho.

Esse histórico adiciona cheiro de enxofre à cena de sexta-feira. Quando o pupilo de Ratinho sobe no palanque de Moro, elogia o senador e o trata como “próximo governador do Paraná”, a dúvida deixa de ser folclore de bastidor e passa a incomodar a candidatura oficial de Sandro Alex.

A leitura de “acordo branco” entre Ratinho Junior e Moro ainda é hipótese política, não fato comprovado. Mas ela cresce porque os dois evitam ataques públicos duros, mesmo disputando o mesmo espaço eleitoral da direita paranaense. Não há guerra aberta. Há sinais, silêncios e gestos calculados.

A nova bomba no enredo está no contraste entre a propaganda e o chão da política. A linha “unidos e em paz”, associada ao grupo de Ratinho Junior e à pré-campanha de Sandro Alex, tem a mão do publicitário argentino Jorge Gerez, marqueteiro do governador e nome escalado para operar a comunicação do candidato governista.

Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), porém, há deputados que avaliam que paz demais não reelege ninguém. Para esse grupo, a campanha de 2026 pedirá “tiro, porrada e bomba” no discurso, na ocupação de território e na disputa direta com Moro, Requião Filho, Gleisi Hoffmann e o bolsonarismo que já se move sem pedir licença ao Palácio Iguaçu.

A contradição é simples e venenosa. Enquanto Gerez vende a imagem de continuidade serena, parte da base parlamentar olha para a própria sobrevivência eleitoral e enxerga outro roteiro: menos paz de estúdio, mais confronto de rua, rede social, plenário e palanque.

Moro percebeu a fresta. Ao resgatar o slogan “unidos e em paz”, marca política usada por Ratinho Junior, o senador rebateu a ideia de pacificação como se ela fosse omissão diante da disputa nacional. O recado foi simples: para a direita reunida em Curitiba, não há paz possível fora do alinhamento com Flávio Bolsonaro.

O senador também usou a imagem da avestruz para criticar quem, segundo ele, prefere esconder a cabeça em vez de se perfilar no combate ao PT e à esquerda. Ratinho Junior não foi citado nominalmente, mas a mira política era visível para quem conhece a guerra fria entre o Palácio Iguaçu e o palanque lavajatista-bolsonarista.

O dado objetivo é que Paulo Martins não foi um espectador perdido na plateia. Ele discursou, cumprimentou lideranças nacionais da direita, chamou Filipe Barros de “próximo senador do Paraná” e tratou Deltan Dallagnol como alguém que voltará “ainda maior” ao Congresso Nacional.

Martins também fez uma saudação direta a Moro. Disse ter “respeito público” pelo senador e agradeceu o tratamento recebido. Em seguida, afirmou que Moro será “o próximo governador do Paraná”. A frase bateu de frente com a linha oficial do Palácio Iguaçu, que trabalha pela candidatura de Sandro Alex.

O vice-prefeito ainda transformou Curitiba em vitrine ideológica do evento. Disse que a capital recebeu Flávio Bolsonaro com “céu cinza, garoa, muito frio” e “o calor de uma gente honesta, trabalhadora, patriota e que nunca elegeu o PT”.

A fala ajudou a dar o tom do palanque. Martins elogiou Rogério Marinho (PL-RN) pela reforma trabalhista, atacou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pediu a Flávio Bolsonaro que desse, “politicamente falando”, uma “surra no PT” na eleição presidencial.

O trecho mais sensível para o Palácio Iguaçu, porém, veio no subtexto. Martins é vice de Eduardo Pimentel (PSD), prefeito de Curitiba, herdeiro político do grupo governista na capital e aliado de Ratinho Junior. Não é um quadro político qualquer. É parte da engrenagem de poder que o governador ajudou a montar.

Por isso, a ida ao ato de Moro não foi lida apenas como gesto pessoal. Ela encostou na disputa real pelo comando do Paraná em 2026. De um lado, Ratinho Junior tenta preservar a narrativa de unidade em torno de Sandro Alex. De outro, seu entorno aparece no palanque do principal rival.

A contradição agora pesa sobre o governo estadual. Se Paulo Martins agiu sem aval, o Palácio Iguaçu tem um problema de disciplina política. Se agiu com tolerância, Ratinho Junior pode estar tentando jogar em duas mesas ao mesmo tempo, com Sandro Alex no discurso oficial e Moro como plano de sobrevivência.

O risco é evidente. Sandro Alex depende da transferência de prestígio do governador para sair do lugar. Cada gesto ambíguo de aliados próximos de Ratinho Junior em direção a Moro enfraquece a mensagem de que a candidatura governista tem dono, rumo e comando.

Para Moro, o ganho foi imediato. O ato de sexta-feira colocou no mesmo palco PL, Novo, bolsonarismo, lavajatismo e um representante da Prefeitura de Curitiba. Para Sandro Alex, a cena produziu ruído justamente na capital, maior colégio eleitoral do Paraná e vitrine decisiva da pré-campanha.

O Palácio Iguaçu pode chamar de mal-entendido, cálculo ou liberdade individual. O fato político, porém, já está posto: o pupilo de Ratinho Junior migrou para o Novo sob olhar do governador, subiu no palanque de Moro e Flávio Bolsonaro, elogiou o rival do candidato oficial e deixou a sucessão paranaense com uma rachadura pública que o slogan “unidos e em paz” não consegue esconder.

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