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Nunes mostra que MDB liberou palanque, mas escolheu lado

Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo pelo MDB, colaborou no plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo registro publicado em 21 de junho, e transformou a neutralidade nacional do partido em conflito concreto para Rafael Greca, Baleia Rossi e o MDB do Paraná.

A liberação dos palanques estaduais pelo MDB já não é apenas uma fórmula de sobrevivência eleitoral. Com Ricardo Nunes na engrenagem programática de Flávio Bolsonaro, a neutralidade formal do partido ganhou endereço, tema e consequência política.

O prefeito de São Paulo colaborou em três áreas do plano de governo do pré-candidato do PL à Presidência da República: transporte, segurança alimentar e segurança pública. A informação foi registrada em 21 de junho, quando Nunes havia sido convidado por Flávio Bolsonaro para contribuir com propostas nessas áreas.

O dado muda a pergunta. O problema já não é apenas saber se o MDB permitirá palanques diferentes para Lula (PT) e Flávio Bolsonaro em 2026. O problema é saber até onde vai a elasticidade quando um dos principais prefeitos do partido ajuda a montar pedaços do programa presidencial do bolsonarismo.

No lançamento do plano de segurança de Flávio Bolsonaro, em 18 de junho, o senador citou como referência o Smart Sampa, programa de monitoramento por câmeras da gestão Nunes em São Paulo. No transporte e na segurança alimentar, as experiências da capital paulista, como eletrificação de ônibus e Armazéns Solidários, foram usadas como material para o programa do pré-candidato do PL.

A consequência política é direta para Baleia Rossi. O presidente nacional do MDB disse ao Blog do Esmael, no sábado (20), em Curitiba, que o partido não terá palanque nacional e que os diretórios estaduais estarão livres para escolher o arranjo que melhor atender à correlação de forças local. A fala acomodou interesses regionais, mas Nunes mostrou que a liberdade pode passar da foto de campanha para a elaboração de proposta de governo.

No Paraná, a conta chega à mesa de Rafael Greca. O ex-prefeito de Curitiba foi lançado pelo MDB como pré-candidato ao Palácio Iguaçu em 20 de junho, na Sociedade Thalia, com discurso moderado, baixa presença de prefeitos e cuidado para não romper pontes com o governador Ratinho Junior (PSD). Agora, Greca terá de explicar se a elasticidade nacional do MDB é apenas tática eleitoral ou se também autoriza colaboração política com Flávio Bolsonaro.

O eleitor antibolsonarista verá contradição. Um MDB que tenta vender moderação no Paraná terá dificuldade para ignorar que o prefeito da maior cidade do país, filiado ao mesmo partido, ajudou a abastecer o programa do principal nome presidencial da direita bolsonarista.

O eleitor conservador verá outra cobrança. Se o MDB pode colaborar com Flávio Bolsonaro em São Paulo, por que o MDB do Paraná não assumiria logo em que lado está na disputa nacional?

Essa dupla pressão é o risco real da estratégia de Baleia Rossi. A liberdade de palanque pode proteger diretórios estaduais, prefeitos e candidatos proporcionais, mas também retira do partido a comodidade da neutralidade moral. Em política, quem libera todos os lados acaba sendo cobrado por todos eles.

Nunes oferece o primeiro caso concreto dessa ambiguidade. Não é uma declaração genérica, não é um aceno de corredor e não é apenas fotografia em evento. É colaboração em programa de governo, com impacto em transporte, alimentação e segurança pública, três áreas que falam com usuário de ônibus, família endividada no supermercado e eleitor assustado com crime urbano.

Flávio Bolsonaro ganha com a operação porque tenta vestir seu projeto com peças administrativas de um prefeito do MDB reeleito em São Paulo. Nunes ganha porque mantém ponte com o bolsonarismo e com Tarcísio de Freitas (Republicanos), dois ativos eleitorais decisivos no estado. O MDB ganha tempo, mas perde nitidez.

No Paraná, Greca entra nessa disputa sem poder fingir que o caso é paulista demais para interessar ao eleitor local. A pré-campanha ao governo do Paraná será atravessada por Lula, Flávio Bolsonaro, Sergio Moro (União), Ratinho Junior e Requião Filho (PDT). Quem tentar escapar da eleição nacional encontrará a eleição nacional na porta do comitê.

A leitura editorial do é simples: Baleia Rossi liberou o palanque; Ricardo Nunes mostrou como essa liberação funciona na prática. O MDB não ficou neutro. O MDB se autorizou a negociar por partes.

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