Por Prof. Luiz Carlos Paixão da Rocha
Na última sexta-feira (30/05), a educação do Paraná entrou em luto! A notícia da morte da professora Silvaneide Monteiro Andrade, dentro do Colégio Cívico Militar Jaime Cannet indignou a todos. A tragédia já amplamente relatada nas redes sociais, ocorreu durante uma reunião em que representantes da Seed cobravam da professora um maior desempenho no uso de uma das famigeradas plataformas da educação do Paraná.
Muitos da categoria colocaram-se no lugar da professora, pois também já presenciaram ou foram vítimas deste tipo de assédio moral. Não é à toa, que uma das marcas da plataformização da educação do Paraná, é o crescimento do quadro de adoecimento dos educadores. Segundo dados do próprio governo, em 2024, mais de 8 mil professores afastaram-se da escola por problemas de saúde, boa parte destes, com problemas ligados à saúde mental. Para não terem prejuízos na carreira, outros tantos, evitam entrar em licença médica, abusando de medicamentos controlados para suportar a pressão do dia. Enfim, a categoria está no limite da exaustão mental e profissional. Morremos um pouco por dia nas salas de aula do Paraná. Juntos morrem a esperança, a qualidade de ensino e o sagrado desejo de ensinar.
Não há sentido nenhum em uma educação que não seja humana. E infelizmente, a do Paraná, caminha a passos largos para a desumanidade. A rede de assédio moral criada pelo governo para cobrar resultados nos acessos das plataformas é assustadora. De repente aquele que é o algoz, se transforma em vítima, e a vítima se transforma em algoz. Sempre há alguém superior cobrando. É bom frisar que a cobrança desses resultados não tem nada a ver com o desempenho de aprendizagem dos estudantes. O que interessa ao governo é simplesmente o número de acesso às referidas plataformas. Quanto maior o acesso, mais louros e homenagens à escola. Quanto menos acesso, mais cobranças e mais assédio. Assinaturas de atas, reuniões de cobrança e até destituição de diretores.
A rede de assédio institucional é estrategicamente elaborada. A Seed cobra do NRE, que cobra dos tutores, que cobram dos diretores, que cobram dos professores, que cobram dos alunos. Mas vejam, o diretor que às vezes se coloca no topo dessa cadeia alimentar, torna-se vítima da mesma. O afastamento de diretores pelo não cumprimento de metas de acesso da plataforma virou uma constante. Metas estas, fixadas por burocratas que ignoram a realidade das escolas. Não importa se o estabelecimento de ensino tem laboratórios de informática, se tem o número de computadores suficientes para o uso dos estudantes, se possui acesso de internet de qualidade. A régua é a mesma para todas as escolas.
Reafirmo aqui, parece não haver por parte do governo, nenhuma preocupação com a qualidade das atividades desenvolvidas pelos alunos nestas plataformas. Se na plataforma de Redação, por exemplo, o estudante postar o mesmo texto para três propostas diferentes de redação, o acesso estará garantido. Como professor de Língua Portuguesa, posso afirmar, com toda a segurança, que as duas plataformas utilizadas na área, “Redação Paraná” e “Leia Paraná” não trouxeram benefícios para o meu trabalho de ensinar os alunos a escrever e ler adequadamente. Uma por que as plataformas utilizadas no Paraná já estão obsoletas e apresentam problemas tanto de ordem técnica, como de ordem pedagógica. Outra, porque ao invés de serem utilizadas como uma ferramenta de ensino, transformaram-se em um fim em si mesmo.
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Hoje, no Paraná, os professores são reféns destas plataformas. Para o atual governo, elas são mais importantes do que o trabalho humano dos educadores. Assim, essa supervalorização das plataformas como política de estado, secundariza a importância do trabalho docente e coloca a saúde e a vida dos educadores em segundo plano.
Enquanto isto, governador e secretário de educação parecem viver em uma realidade paralela – uma espécie de matrix. Divulgam a quatro quantos que temos a melhor educação do Brasil. Com algumas artimanhas, como o fechamento do ensino noturno, ampliação da taxa de aprovação forçosa de estudantes no final do ano, e a retirada de estudantes faltantes das listas de chamada, entre outras, ampliou a nota do IDEB do Paraná. Mas todos nós sabemos que isto não representa melhoria da qualidade de ensino. Além do mais, embora preguem o contrário, instituíram uma política educacional com um viés totalmente ideológico. Os conteúdos foram reduzidos e padronizados. Junto com o reducionismo pedagógico adotaram programas ideologizados, como o da instituição de Colégios-Cívico Militares e das parcerias público-privadas. Este último transformou dezenas de escola, em área de exploração de lucro para grandes grupos privados.
Recentemente, o atual secretário de Educação do Paraná, professor Roni Miranda, ao ser recepcionado na cidade de Telêmaco Borba, mostrou indignação ao ver um cartaz com a seguinte frase: “Secretário, traidor da educação”. Ele questionou o porquê do título. E um dos professores presentes, respondeu: “pelo fato de o Senhor ser professor”. Na mosca! Quem poderia imaginar que esse retrocesso nunca visto na educação do Paraná fosse coordenado por um professor? Virou às costas às teorias de ensino, à construção história da escola pública de nosso estado e reduziu o trabalho docente à monitoria de plataformas. Hoje educadores são peças, cuja saúde e vida têm muito pouco valor. Essa educação que temos hoje no estado, mais preocupado com holofotes e marketing pedagógico, poderia ser dirigida por qualquer animador de auditório, cantador de festa de bingo, ou algum vendedor de bugigangas, menos por um educador.
Esse processo de desvalorização do trabalho e das condições de vida dos educadores paranaenses, é também materializado pela ausência de uma política de valorização salarial. Há anos, o governo do Paraná não nos paga nem sequer os índices anuais de inflação. E agora, quando se avizinham as próximas eleições, anuncia um suposto reajuste. Na verdade, uma esmola, de 250 reais, acompanhada de uma desestruturação da tabela salarial que regulamenta a carreira dos professores.
E por fim, a desvalorização da vida de um professor, de uma professora na rede estadual do Paraná é também visível no processo de criminalização dos adoecidos. A secretaria de educação tem adotado várias medidas que penalizam aqueles educadores que ficam doentes. Como se ficar doente fosse uma vontade pessoal. O governo do Paraná tem dificuldade de ver o óbvio, o quadro de adoecimento em crescimento está ligado ao assédio e à exaustão profissional. É muita perversidade e desumanidade.
Aos amigos, familiares e companheiros de trabalho da professora Silvaneide, meus sentimentos e solidariedade. A data de 30 de maio de 2025 ficará marcada como uma tragédia, resultante de uma política de estado, que coloca a vida dos educadores em segundo plano. Uma data de denúncia sobre as condições de trabalho docente em nosso país. Nosso desafio é transformá-la coletivamente, em um dia do BASTA. Não há condições morais e humanas para o governo Ratinho continuar com esse modelo falido de educação. Basta de tanta humilhação e desvalorização! Independente de governantes mal intencionados e burocratas da educação, ainda há tempo de resgatar a valorização que a nossa profissão merece!
Em tempo:
Quando terminava de escrever este texto recebi a notícia do falecimento de mais uma professora dentro do espaço escolar. Que tristeza! Hoje, 05/06, a professora Rosane Bobato não resistiu a um infarto no Colégio Santa Gema, em Curitiba. Perdemos uma grande educadora. Meus sentimentos aos amigos e familiares.
Que as nossas escolas voltem a ser espaços de alegria, de esperança e de vida. Nunca como um espaço de adoecimento e morte.
Prof. Luiz Carlos Paixão da Rocha – Curitiba (PR)

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




