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Morreu José “Pepe” Mujica aos 89 anos

A morte de José “Pepe” Mujica, nesta terça-feira (13), aos 89 anos, encerra um capítulo singular da história política latino-americana. Ex-guerrilheiro, presidente do Uruguai entre 2010 e 2015 e referência moral da esquerda regional, Mujica faleceu após lutar contra um câncer de esôfago, deixando um legado de sobriedade, resistência e coerência ética rara na vida pública.

Em dezembro do ano passado, o presidente Lula esteve em Montevidéu, capital uruguaia, onde homenageou Mujica com o Grande Colar da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, maior honraria concedida pelo Brasil a estrangeiros.

Filho de pequenos produtores, Mujica ingressou no Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros nos anos 1960, sendo preso em condições brutais durante a ditadura militar uruguaia. Foram 13 anos de cárcere sob tortura, isolamento e violações sistemáticas dos direitos humanos. Sua libertação, em 1985, marcou não apenas a reabertura democrática, mas o início de uma transição do combate armado à política institucionalizada.

Mujica foi peça-chave na formação do Movimento de Participação Popular (MPP), corrente majoritária dentro da Frente Ampla. Elegendo-se deputado, senador e depois presidente, Pepe protagonizou a consolidação da esquerda uruguaia como força de governo. Sua liderança se deu mais pelo exemplo do que pela retórica.

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Durante seu mandato (2010-2015), o Uruguai aprovou leis progressistas históricas: legalização do aborto, do casamento igualitário e da maconha. Mujica vivia em sua chácara em Rincón del Cerro, doando boa parte de seu salário e dirigindo um Fusca. Sua imagem de austeridade virou referência mundial, atravessando fronteiras ideológicas e geográficas.

Pepe não foi apenas um presidente popular: tornou-se símbolo de uma nova esquerda latino-americana. Cultivou relações com lideranças como Lula, Rafael Correa e Hugo Chávez, mas nunca poupou críticas aos desvios autoritários da Venezuela e Nicarágua. Na ONU, em 2012 e 2013, denunciou o hiperconsumismo e defendeu um modelo de vida simples e solidária.

Mujica nunca foi refém das instituições. Atuava por dentro, mas com um olhar de fora, sempre crítico ao burocratismo estatal e ao aparelhamento partidário. Seus embates com setores sindicais, especialmente na educação, e sua crítica aberta à ineficiência administrativa demonstravam uma esquerda pragmática, mais focada em resultados do que em dogmas.

Mesmo após a aposentadoria formal em 2020, Mujica permaneceu ativo, sendo mentor de Yamandú Orsi, atual presidente do Uruguai. Sua presença foi determinante para a vitória da Frente Ampla nas eleições de 2024. Orsi resumiu a perda: “Obrigado por tudo, velho querido”. O novo governo carrega, agora, a responsabilidade de preservar o fio ético e popular que Pepe costurou por décadas.

A morte de Mujica impõe à esquerda latino-americana uma reflexão profunda: como preservar a radicalidade ética em tempos de cinismo? Pepe foi, acima de tudo, coerente com suas escolhas e fiel ao povo. Sai de cena não apenas um ex-presidente, mas uma consciência crítica viva. Sua herança, agora, é coletiva. Que não virem lenda, mas exemplo.