Índice de Tópicos
- Moro lidera, mas ainda não ganhou a eleição
- Sandro transforma a ausência de Moro em ataque
- Requião Filho ataca o modelo de Ratinho
- Porto de Paranaguá vira primeiro campo de batalha
- Educação: IDEB, escolas cívico-militares e professores
- Segurança vira disputa por policiais e equipamentos
- Olho Vivo e licitações elevam a temperatura
- Copel vira símbolo da disputa sobre privatizações
- Pedágio entra no centro da eleição
- Obras: quem fez e quem pagou?
- Impostos e economia: números contra poder de compra
- Ensino superior encerra o confronto
- As duas cadeiras e uma eleição em aberto
O primeiro debate em televisão aberta entre os candidatos ao Governo do Paraná, realizado pela Band neste domingo (9), começou com uma ausência que dominou o confronto: Sergio Moro (PL) não apareceu, deixando a cadeira vazia enquanto Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) transformaram o encontro em uma prévia de segundo turno. O senador lidera as pesquisas, mas abriu mão do primeiro confronto direto da campanha.
A transmissão oficial do debate começou às 20h e, com transmissão no Blog do Esmael, a emissora alterou o formato original para compensar a ausência de Moro e acrescentou uma rodada de perguntas e respostas entre os dois candidatos presentes.
Moro havia confirmado anteriormente sua participação, mas comunicou a desistência poucas horas antes do debate. Segundo a explicação apresentada pela própria Band, o candidato afirmou nas redes sociais que Sandro Alex e Requião Filho estariam combinando ataques contra ele.
A decisão preservou Moro do confronto direto, mas deixou para os adversários um palco sem o principal alvo da disputa. Sandro e Requião aproveitaram a ausência para apresentar suas versões sobre o Paraná e, em vários momentos, falaram diretamente com o eleitorado de Moro.
Moro lidera, mas ainda não ganhou a eleição
A ausência ocorre num momento em que Moro aparece na liderança dos levantamentos divulgados até o início de agosto.
Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 27 de julho, Moro tinha 39% das intenções de voto no cenário estimulado. Requião Filho aparecia com 18%, Rafael Greca (MDB) com 12% e Sandro Alex com 7%. O levantamento ouviu 1.104 eleitores entre 21 e 25 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais e 95% de confiança.
Outro levantamento, do Paraná Pesquisas, realizado entre 3 e 6 de julho, havia registrado Moro com 39,9%, Requião Filho com 21,1% e Sandro Alex com 10,4%.
A liderança explica parte da estratégia possível para o candidato do PL. Quem está à frente tem menos incentivo para oferecer aos adversários uma oportunidade de confronto direto, sobretudo quando o debate permite ataques, respostas e exposição de pontos frágeis.
Isso, porém, é uma leitura estratégica sobre a decisão. A transmissão registra como justificativa de Moro a alegação de que os adversários preparariam ataques conjuntos contra ele. Não há, porém, comprovação dessa combinação.
O cientista político Emerson Cervi, ouvido pela Band antes e depois do debate, chamou atenção para o custo da ausência. Segundo ele, o debate marca o momento em que a eleição começa a alcançar o eleitor menos engajado e oferece aos candidatos uma oportunidade de construir imagem sem o controle absoluto das equipes de campanha.
Sandro transforma a ausência de Moro em ataque
Sandro Alex abriu sua participação apresentando-se como candidato de continuidade do governo Ratinho Junior e associando sua candidatura a valores conservadores, liberdade econômica, segurança e gestão.
O deputado federal também explorou desde a primeira fala a ausência de Moro. Antes mesmo do início formal do confronto, afirmou que estava presente em respeito aos paranaenses e associou a participação no debate à coragem necessária para disputar o governo.
Na apresentação oficial, Sandro retomou a ideia de continuidade e afirmou que o Paraná deveria avançar sem romper o ciclo iniciado pelo governador Ratinho Junior. Também apresentou a meta de transformar o estado na terceira maior economia do Brasil.
O candidato do PSD levou para o debate a defesa do legado do atual governo. Obras, investimentos, segurança pública, educação, infraestrutura e equilíbrio fiscal foram os principais pilares de sua argumentação.
A presença de Rafael Greca como vice também apareceu como parte da narrativa de continuidade.
Requião Filho ataca o modelo de Ratinho
Requião Filho escolheu outro caminho. O candidato do PDT construiu sua participação sobre a crítica ao governo Ratinho Junior e ao modelo de gestão que Sandro Alex se apresentou para continuar.
Na abertura, falou em palavra, compromisso e coerência e associou a campanha adversária a mudanças de posição. A ausência de Moro entrou imediatamente nesse discurso.
O deputado estadual também colocou no centro do debate o custo de vida, impostos, energia, água, pedágio, privatizações e serviços públicos.
O conflito ficou mais evidente quando Requião questionou Sandro sobre a continuidade das políticas de Ratinho Junior. Citou o aumento do ICMS, a privatização da Copel e as tarifas da Sanepar como exemplos do que considera um modelo de governo que encareceu a vida do paranaense.
Sandro contestou as afirmações e sustentou que o Paraná está entre os estados de menor carga tributária, além de defender a redução do IPVA e a política de concessões. O candidato também atribuiu parte das tarifas e da política tributária ao ambiente nacional e à transição da reforma tributária.
Porto de Paranaguá vira primeiro campo de batalha
O primeiro confronto direto teve como tema o Porto de Paranaguá.
Sandro Alex apresentou os investimentos portuários e a expansão da movimentação de cargas como resultado da gestão atual. Requião Filho respondeu defendendo uma política de apoio ao produtor e criticando o modelo de pedágio e infraestrutura.
Sandro associou governos anteriores a restrições às exportações e a problemas logísticos no porto. Requião respondeu defendendo investimentos no modal ferroviário e acusando o atual modelo de privilegiar grandes grupos.
O debate estabeleceu ali uma das linhas que atravessariam toda a noite: Sandro apresentaria números de investimentos e obras; Requião tentaria deslocar a discussão para o efeito dessas políticas sobre o custo de vida e os serviços públicos.
Educação: IDEB, escolas cívico-militares e professores
No segundo bloco, a educação entrou no centro do confronto.
Sandro usou o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para defender a gestão estadual e citou investimentos em escolas, alimentação e educação profissional. Também defendeu a expansão das escolas cívico-militares.
Requião Filho respondeu questionando o modelo pedagógico e afirmou que a prioridade deveria ser a valorização dos professores, formação continuada e ampliação da estrutura educacional.
O debate avançou para a qualidade dos indicadores. Requião questionou os critérios utilizados no Ideb e mencionou a posição do Paraná em redação. Sandro rebateu defendendo os resultados obtidos pelas escolas estaduais e prometeu novos investimentos, incluindo escolas bilíngues.
A disputa revelou uma diferença central entre os dois projetos: Sandro apresentou educação como uma área de resultados mensuráveis e expansão da estrutura; Requião tentou colocar professores, formação e qualidade pedagógica no centro da discussão.
Segurança vira disputa por policiais e equipamentos
A segurança pública produziu outro dos confrontos mais duros.
Requião Filho criticou o que classificou como excesso de investimento em equipamentos em comparação com a valorização dos policiais. Questionou mudanças na carreira e defendeu novas contratações.
Sandro respondeu apresentando números da gestão. Disse que mais de 8 mil profissionais foram contratados, que a carreira foi reestruturada e que novos concursos deverão ampliar os efetivos.
Na entrevista posterior ao debate, Sandro afirmou que o governo pretende contratar mais 2 mil profissionais e abrir concurso para outros 2 mil. Também citou redução de homicídios e de roubos de veículos como indicadores positivos da política de segurança.
Requião rebateu sustentando que o policial deveria estar no centro da política de segurança, e não apenas os equipamentos.
A discussão expôs dois conceitos diferentes de segurança pública: de um lado, investimento em estrutura, inteligência, armamento e efetivo; de outro, valorização profissional e presença policial.
Olho Vivo e licitações elevam a temperatura
O terceiro bloco trouxe uma das acusações mais graves do debate.
Requião Filho questionou Sandro Alex sobre investimentos e citou o programa Olho Vivo, além de mencionar suspeitas relacionadas a licitações. O candidato do PDT atribuiu ao governo problemas de transparência e levantou dúvidas sobre contratos.
Sandro classificou as acusações como infundadas e defendeu o sistema de transparência do Paraná, além de sustentar que o estado apresenta elevado volume de investimentos.
A matéria-prima do confronto mudou nesse momento: saiu a discussão de programas de governo e entrou a disputa sobre a lisura e a eficiência da administração pública.
É importante separar os planos. As suspeitas levantadas por Requião durante o debate são declarações de campanha e não podem ser tratadas como fatos comprovados apenas porque foram pronunciadas no confronto.
Copel vira símbolo da disputa sobre privatizações
A Copel apareceu novamente como uma das principais linhas de divisão entre os candidatos.
Requião Filho criticou a privatização e relacionou o modelo à elevação dos custos de energia para famílias, empresas e produtores.
Sandro Alex defendeu a operação e argumentou que a modernização da companhia exigiria investimentos elevados. Citou novos investimentos em subestações e afirmou que o modelo preserva a capacidade de expansão da empresa.
Requião voltou ao argumento de que o consumidor paranaense estaria pagando mais caro pela energia e utilizou a Copel como símbolo de sua oposição à política de privatizações do atual governo.
A disputa não produziu convergência. De um lado, a privatização apareceu como instrumento de investimento e modernização. Do outro, como perda de patrimônio público e aumento de custos.
Pedágio entra no centro da eleição
O novo modelo de concessões rodoviárias também foi alvo de ataques.
Requião Filho chamou Sandro de responsável pelo modelo de pedágio e afirmou que as tarifas impactam o custo do transporte e, consequentemente, os preços dos produtos.
Sandro rebateu atribuindo a estrutura das concessões à participação do governo federal e destacou descontos obtidos em determinados trechos, além dos investimentos previstos nos contratos.
A discussão revelou uma das principais dificuldades eleitorais de Sandro: defender simultaneamente o legado do governo Ratinho Junior e responder às críticas sobre políticas que foram construídas antes de sua candidatura.
Requião, por sua vez, utilizou o pedágio como elo entre infraestrutura e custo de vida.
Obras: quem fez e quem pagou?
Na rodada sobre mobilidade, Sandro apresentou uma lista extensa de obras estaduais e rodoviárias.
Requião questionou a autoria atribuída pelo candidato do PSD a determinados projetos e afirmou que algumas obras têm recursos federais ou de outras fontes.
Sandro respondeu que, independentemente da origem dos recursos, o governo estadual participou da execução e entregou as obras à população.
O choque foi menos sobre a existência das obras e mais sobre a autoria política delas.
Esse ponto deverá reaparecer durante a campanha porque Sandro precisa transformar a gestão de Ratinho Junior em capital eleitoral próprio. Requião, por outro lado, precisa mostrar que a continuidade não representa necessariamente melhora para o eleitor.
Impostos e economia: números contra poder de compra
Na rodada seguinte, Requião Filho apresentou uma proposta de zerar o ICMS para micro e pequenas empresas.
O candidato argumentou que essas empresas respondem por grande parcela dos empregos e por pequena parcela da arrecadação do imposto. Também criticou o volume de renúncias fiscais do Paraná.
Sandro respondeu defendendo a política tributária estadual e o equilíbrio fiscal. Citou a menor alíquota do IPVA e outros mecanismos de redução tributária.
O confronto chegou a uma pergunta simples para o eleitor: o crescimento econômico do Paraná foi suficiente para melhorar o poder de compra da população?
Sandro apresentou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual como resultado da gestão. Requião respondeu que o indicador não necessariamente representa melhora da renda e do consumo das famílias.
A divergência resumiu boa parte do debate: Sandro falou em crescimento, obras e equilíbrio fiscal; Requião insistiu em tarifas, impostos, renda e serviços.
Ensino superior encerra o confronto
A última rodada tratou das universidades estaduais.
Sandro destacou a ampliação do orçamento das instituições estaduais, novos cursos, investimentos em pesquisa e infraestrutura tecnológica. Citou o aumento do orçamento das universidades para R$ 4,7 bilhões e anunciou investimentos em supercomputadores.
Requião respondeu defendendo a expansão da universidade pública, novos campi, pesquisa aplicada e integração com produtores e empresas.
O tema terminou com uma disputa sobre o papel do Estado na educação e na inovação.
Foi um encerramento coerente com o restante do confronto: Sandro defendeu o legado e a expansão dos investimentos existentes; Requião apresentou uma agenda de mudança no modelo de gestão.
As duas cadeiras e uma eleição em aberto
Nas considerações finais, Sandro voltou a Ratinho Junior e Rafael Greca e apresentou sua candidatura como continuidade de um ciclo de governo. Reafirmou a promessa de levar o Paraná à terceira maior economia do Brasil e repetiu o slogan de continuidade do projeto governista.
Requião Filho terminou falando em uma aliança programática e atacando privatizações, impostos, energia e pedágios. Também contrapôs a política de obras à necessidade de investimentos em pessoas e serviços.
A imagem final do primeiro debate foi simbólica: duas cadeiras ocupadas e uma cadeira vazia.
A ausência de Moro impediu o primeiro confronto direto entre os três principais polos da disputa. Ao mesmo tempo, permitiu que Sandro e Requião testassem seus discursos durante mais tempo e diante de um público que começa a acompanhar efetivamente a eleição.
O próprio cientista político Emerson Cervi avaliou depois do debate que os dois participantes ganharam visibilidade por terem comparecido, enquanto a ausência de Moro pode ter algum efeito entre eleitores que ainda não decidiram o voto, embora não necessariamente entre aqueles que já são seus eleitores.
A eleição, portanto, começa com uma contradição importante. Moro lidera as pesquisas, mas não participou do primeiro grande confronto. Sandro tem a máquina política e administrativa do governo para defender, mas ainda precisa transformar a imagem de integrante do grupo de Ratinho Junior em liderança própria. Requião Filho, por sua vez, encontrou no debate uma oportunidade para apresentar sua oposição diretamente ao eleitor.
A cadeira vazia de Moro virou o primeiro assunto da campanha. A partir de agora, os adversários terão de decidir se continuarão explorando a ausência ou se obrigarão o senador a responder, nos próximos confrontos, às críticas acumuladas durante uma noite em que ele não estava presente.
A campanha oficial apenas começou. E o primeiro debate mostrou que a disputa pelo Governo do Paraná será travada em torno de uma pergunta central: continuidade do modelo de Ratinho Junior ou mudança de rumo.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




