Valdemar Costa Neto, presidente nacional do Partido Liberal (PL), afirmou nesta quarta-feira (17) que Michelle Bolsonaro terá influência na escolha da vice da chapa de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto. A declaração tira a escolha do campo puramente partidário e coloca a família Bolsonaro no centro da montagem eleitoral de 2026.
Segundo Valdemar, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques está descartada para a vaga. Questionado sobre nomes cotados, o dirigente evitou abrir a lista e disse que, se falasse, “pega fogo no mundo”.
O ponto político está na frase seguinte. Valdemar afirmou que a escolha passará por Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. Ao justificar o peso da ex-primeira-dama, o presidente do PL disse que ela tem acesso cotidiano a Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
A vice, portanto, deixou de ser apenas cálculo eleitoral. Virou assunto de família, religião, confiança pessoal e acesso ao chefe político do bolsonarismo.
O PL procura uma mulher para tentar reduzir a rejeição de Flávio Bolsonaro, organizar o voto feminino e evangélico e dar verniz mais amplo a uma candidatura marcada pela dependência do sobrenome. Michelle, nesse desenho, funciona como ponte com a base religiosa e como filtro político sobre quem entra no círculo íntimo.
A movimentação também revela um problema para os aliados. União Brasil, PP, PSD, MDB, Republicanos e Podemos têm dinheiro, bancadas, palanques estaduais e interesse direto em eleger deputados e senadores. Não precisam, necessariamente, carregar sozinhos o custo nacional da chapa de Flávio Bolsonaro.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que o Fundo Especial de Financiamento de Campanha de 2026 terá cerca de R$ 4,9 bilhões. O PL ficará com aproximadamente R$ 881,7 milhões. União Brasil terá R$ 526,2 milhões; PSD, R$ 421 milhões; PP, R$ 417,1 milhões; MDB, R$ 400 milhões; Republicanos, R$ 348,6 milhões; e Podemos, R$ 246 milhões.
Esse dinheiro ajuda a explicar a cautela. Partidos com fundo robusto podem priorizar Câmara, Senado, governos estaduais e bancadas locais, sem entregar toda a estrutura a uma candidatura presidencial que ainda busca uma vice para corrigir fragilidades de imagem.
O caso Master pesa nessa conta. Reportagem do Intercept revelou que Flávio Bolsonaro pediu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter pedido dinheiro para o projeto e afirmou que conheceu Vorcaro quando não havia acusações contra o empresário.
A disputa pela vice, por isso, não é detalhe de chapa. É tentativa de reorganizar uma candidatura atingida por desgaste político, dependente da família e ainda em busca de aliados que aceitem dividir o custo eleitoral.
No Paraná, o efeito chega ao palanque de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros. Os três estiveram no mesmo campo de Flávio Bolsonaro no lançamento das pré-candidaturas da direita ao governo e ao Senado. Agora, a pergunta local é direta: o palanque paranaense aceitará que a composição nacional seja decidida dentro da família Bolsonaro ou tentará preservar autonomia para falar de corrupção, costumes e economia sem responder pelo caso Master?
A resposta interessa a Moro, Deltan e Filipe Barros porque a campanha de 2026 no Paraná não será disputada apenas contra adversários locais. Ela será atravessada pela escolha da vice, pelo peso de Michelle Bolsonaro, pelo acesso a Jair Bolsonaro e pela capacidade de cada aliado explicar ao eleitor por que a direita que prometia institucionalidade entrega a chave da chapa ao núcleo familiar.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




