A direita brasileira chegou a 2 de julho de 2026 dividida entre a campanha presidencial imediata e a disputa pelo comando do campo conservador na próxima década. O conflito público entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, a chapa própria formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab e a rebelião de dirigentes do Novo contra Romeu Zema mostram que a sucessão de Lula em 2030 já interfere nas alianças de 2026.
Na casa em que falta pão, ninguém tem razão. Na casa em que falta pão, o amor sai pela janela.
Os dois ditados populares ajudam a explicar por que aliados que até pouco tempo pregavam unidade contra o PT passaram a trocar acusações, lançar candidaturas concorrentes e proteger seus próprios projetos.
O pão que falta à direita é a perspectiva segura de poder em 2026.
A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, realizada com 4.999 pessoas entre 26 e 30 de junho, colocou Lula com 46,3% no primeiro turno, contra 36,6% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o presidente apareceu com 48,8%, enquanto o senador registrou 42,3%. A margem de erro informada é de um ponto percentual.
A eleição não está decidida. Campanhas mudam votos, fatos novos alteram cenários e as candidaturas ainda dependem das convenções partidárias. Os números, porém, produzem uma consequência política imediata: incentivam cada liderança da direita a calcular quanto perderá ao se submeter ao herdeiro escolhido pela família Bolsonaro.
A briga mais destrutiva ocorre dentro da própria casa.
Michelle Bolsonaro deixou a presidência nacional do PL Mulher em 30 de junho, depois de tornar pública a ruptura com Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama afirmou ter sido desrespeitada e maltratada pelo enteado nas decisões partidárias e comparou o episódio a uma punhalada. Flávio pediu desculpas e disse acreditar numa reconciliação, mas Michelle não compareceu ao encontro promovido por ele com mulheres conservadoras em Brasília.
O dano ultrapassa a família.
Michelle construiu sua influência política entre mulheres conservadoras e eleitoras evangélicas, exatamente os segmentos nos quais Flávio Bolsonaro precisa reduzir rejeição. Ao relatar que foi desconsiderada e humilhada pelo comando masculino da campanha, ela transformou uma disputa por candidaturas estaduais em conflito sobre poder, gênero e sucessão dentro do bolsonarismo.
Os números mostram o tamanho do problema. Na pesquisa AtlasIntel, Lula passou a marcar 50,1% entre as mulheres, contra 35,1% de Flávio Bolsonaro. Em maio, os dois apareciam praticamente empatados nesse segmento. O senador também perdeu oito pontos entre os evangélicos, segundo a comparação apresentada pelo levantamento.
Michelle não é apenas uma cabo eleitoral contrariada. Ela possui votos, estrutura nacional, presença nas igrejas e capacidade de falar com mulheres que rejeitam o estilo agressivo associado ao bolsonarismo. Ao abandonar o PL Mulher, preserva seu próprio patrimônio político e demonstra que não aceita ser tratada como peça auxiliar da candidatura do enteado.
A pergunta deixou de ser apenas se Michelle ajudará Flávio Bolsonaro em 2026. A pergunta passou a ser onde ela estará em 2030.
A mesma lógica orienta o movimento do PSD. Ronaldo Caiado anunciou Gilberto Kassab como candidato a vice numa chapa formada exclusivamente pelo partido. Kassab confirmou que não houve negociação com outras legendas para a vaga. A composição ainda terá de ser aprovada na convenção nacional prevista para o fim de julho.
Caiado aparece com 2,9% na AtlasIntel, distante de Lula e Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, sua candidatura permite ao PSD ocupar o debate nacional, organizar palanques, eleger bancadas e evitar que toda a direita seja incorporada ao patrimônio político da família Bolsonaro.
Kassab não precisa vencer a eleição para ganhar poder. Precisa demonstrar que o PSD tem votos, prefeitos, governadores e capilaridade suficientes para negociar em condições próprias. A chapa puro-sangue funciona como candidatura presidencial e como inventário político para as disputas seguintes.
Romeu Zema enfrenta dilema semelhante no Novo.
O ex-governador mineiro tenta manter uma candidatura presidencial própria, mas dirigentes do partido no Sul dependem de alianças estaduais com o PL. Em Santa Catarina, integrantes do Novo reagiram às críticas de Zema contra Flávio Bolsonaro e chegaram a ameaçar oposição à candidatura presidencial do próprio partido. No Paraná, o diretório estadual classificou como precipitada a ofensiva de Zema contra Flávio Bolsonaro.
A contradição paranaense é ainda mais visível.
Deltan Dallagnol pretende disputar o Senado pelo Novo dentro de uma composição estadual apoiada por Flávio Bolsonaro. Sergio Moro concorre ao governo pelo PL. Filipe Barros busca a outra vaga ao Senado. O palanque regional se organiza em torno da família Bolsonaro enquanto Zema tenta vender uma alternativa nacional ao bolsonarismo.
A candidatura de Zema é contestada não por adversários ideológicos, mas por companheiros preocupados em perder votos, fundos, alianças e palanques estaduais. Quando o projeto nacional ameaça a sobrevivência regional, a fidelidade partidária sai pela janela.
Nikolas Ferreira representa outra forma de disputa.
O deputado declarou formalmente que destinaria seu capital político a Flávio Bolsonaro e afirmou, em junho, que não haveria espaço para outro nome dentro do bolsonarismo. A adesão pública, entretanto, conviveu com cobranças por baixo engajamento: levantamento publicado pela Folha mostrou que Nikolas citou Flávio Bolsonaro em apenas dez das 544 publicações feitas no X durante os primeiros quatro meses da pré-campanha do senador.
O comportamento permite uma leitura: Nikolas apoia Flávio Bolsonaro sem entregar ao candidato o controle sobre sua audiência. Conserva a própria marca, mobiliza seguidores em agendas escolhidas por ele e evita transformar sua popularidade digital numa extensão automática dos interesses dos filhos de Jair Bolsonaro.
É apoio com patrimônio separado.
A canibalização ocorre porque Flávio Bolsonaro tenta estabelecer uma sucessão hereditária dentro da direita, enquanto Michelle, Caiado, Kassab, Zema, Nikolas e outras lideranças possuem razões próprias para impedir que o sobrenome Bolsonaro continue distribuindo sozinho candidaturas, recursos e posições.
A pesquisa de julho favorece Lula, mas não autoriza afirmar que a eleição terminou. Ela autoriza concluir que a direita entrou na campanha carregando uma dúvida corrosiva: vale a pena sacrificar um projeto para salvar Flávio Bolsonaro ou é mais vantajoso sobreviver politicamente para disputar a sucessão seguinte?
O calendário constitucional aumenta o valor de 2030. Caso Lula seja reeleito em 2026, não poderá concorrer a um terceiro mandato consecutivo quatro anos depois, porque a Constituição permite apenas uma reeleição para o período subsequente.
Sem Lula na urna, caso esse cenário se confirme, a esquerda terá de apresentar outro nome. A direita também precisará decidir quem comandará seu campo depois de Jair Bolsonaro.
Essa é a herança em disputa.
Flávio tenta recebê-la por filiação. Michelle reivindica a parcela construída entre mulheres e evangélicos. Caiado busca legitimidade eleitoral própria. Kassab oferece estrutura partidária. Zema procura ocupar o espaço liberal. Nikolas acumula audiência e tempo político.
Todos dizem combater Lula em 2026. Cada um, porém, mede forças contra os próprios aliados para não chegar pequeno a 2030.
Na casa em que falta pão, ninguém tem razão. Quando falta perspectiva concreta de vitória, a unidade vira discurso de palanque. O amor sai pela janela, e cada herdeiro corre para proteger sua parte do espólio.
A direita ainda conseguirá se unir em torno de Flávio Bolsonaro ou a eleição de 2026 já virou a primeira batalha pela sucessão de 2030? Deixe sua opinião e acompanhe a cobertura política no Blog do Esmael.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




