O advogado-geral da União Jorge Messias chega a quarta-feira (22) com a retaguarda reforçada: recebeu apoio público do ex-presidente José Sarney (MDB) e do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, enquanto a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado voltou atrás na antecipação e remarcou a sabatina para quarta-feira (29). O dado político é esse: a trincheira do indicado de Luiz Inácio Lula da Silva ficou mais larga na véspera da fase decisiva.
O centro da disputa não está no currículo de Messias, já avalizado pelo relator Weverton Rocha (PDT-MA), mas no placar. O indicado intensificou visitas a gabinetes, procurou reduzir a rejeição na oposição e tenta quebrar a resistência aberta de bancadas como PL e Novo, que já se posicionaram contra sua ida ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Sarney entrou no jogo para dar peso institucional à articulação. Alban fez outro serviço: levou para a mesa o aval do empresariado industrial, ao associar Messias à segurança jurídica e ao ambiente de negócios. Quando um ex-presidente da República e o chefe da CNI saem do bastidor e falam em voz alta, a mensagem ao Senado é simples, o governo quer transformar a indicação em fato consumado antes da sabatina.
Esse movimento conversa com a sequência que Brasília montou para o fim de abril. A CCJ da Câmara retomou para esta quarta-feira a votação da proposta que enfrenta a escala 6×1, com apoio de Hugo Motta e aposta do governo de carimbar uma agenda pró-trabalhador. O Congresso já marcou para 30 de abril a análise do veto de Lula ao projeto da dosimetria do 8 de Janeiro. E a CPI do Crime Organizado terminou em 14 de abril sem relatório final, depois de o parecer ser derrotado por 6 votos a 4.
A leitura que corre em Brasília é a de um arranjo de conveniência, o famoso “acordão”, às vésperas da eleição: o Planalto tenta vestir a camisa social do fim da 6×1, a direita preserva um palanque na dosimetria, o STF evita que prospere um relatório formal de CPI pedindo o indiciamento de ministros, e Messias ganha pista menos acidentada para buscar os 41 votos de que precisa no plenário do Senado. Não é coincidência de calendário. É correlação de forças.
O fio desencapado desse enredo continua sendo o caso Banco Master. A investigação que alcançou o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, fala em carteiras fictícias, lavagem de dinheiro e propina imobiliária de R$ 146,5 milhões. Como o BRB é controlado pelo governo do Distrito Federal, o desgaste bate primeiro no Palácio do Buriti, no ex Ibaneis Rocha (MDB) e na atual governadora Celina Leão (PP). Ao mesmo tempo, mesmo derrotado, o relatório final da CPI havia mirado Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Paulo Gonet no capítulo político do caso.
O próprio BRB tentou na segunda-feira (21) reorganizar parte do problema ao anunciar um memorando com a Quadra Capital para transferir ativos ligados ao Master. Isso mostra que a crise está longe de acabar. Politicamente, o risco maior continua mais concentrado no Governo do Distrito Federal (GDF) e em setores do Supremo do que no Planalto, porque a peça concreta do escândalo, até aqui, passa pelo banco estatal de Brasília e pelas ramificações abertas no STF e na CPI.
Por isso, a sabatina de Messias deixou de ser apenas rito institucional. Ela virou peça de um abril em que os Poderes tentam repartir danos, salvar o que interessa a cada bloco e empurrar para depois a conta mais tóxica de Brasília. O Banco Master, por enquanto, é a conta que ninguém conseguiu esconder.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




