Malafaia celebra ida de Bolsonaro à Papudinha, Moraes ironiza

Bolsonaro na Papudinha: Malafaia celebra, Moraes ironiza e bolsonarismo expõe disputa interna

A reação de Silas Malafaia à transferência de Jair Bolsonaro para a Papudinha transformou uma decisão administrativa do Supremo em palco de disputa política dentro do bolsonarismo. Ao comemorar publicamente a mudança e atribuir o mérito à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e ao governador Tarcísio de Freitas, o pastor reforçou a narrativa de “perseguição política” e reposicionou dois nomes centrais na corrida pela herança eleitoral do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado.

Em publicação no X, Malafaia parabenizou Michelle e Tarcísio por, segundo ele, “articularem” a saída de Bolsonaro da carceragem da Polícia Federal para um “lugar melhor”. Disse ainda que “certas vitórias se conquistam por etapas” e voltou a sustentar que a prisão é resultado de “vergonhosa perseguição política”. Em entrevistas, o pastor foi além e afirmou que a ex-primeira-dama teria conversado com o ministro Gilmar Mendes e que Tarcísio também teria intercedido junto a ministros do STF, transformando bastidores sensíveis em discurso público.

A decisão judicial, no entanto, teve contornos bem diferentes do enredo político montado pelos aliados. A transferência foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) após pedido da defesa, que alegou “vulnerabilidade clínica permanente” e risco à integridade física de Bolsonaro na sede da PF. O ex-presidente foi levado para a Sala de Estado-Maior do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, a chamada Papudinha, onde já estão outros réus pelos atos golpistas.

Poucas horas depois da celebração de Malafaia, Moraes deu o tom institucional e, ao mesmo tempo, irônico. Durante cerimônia de colação de grau na Faculdade de Direito da USP, o ministro brincou com o fato de professores terem extrapolado o tempo de fala e, sem citar nomes, comentou: “Ninguém cumpriu os três minutos, quase tive que tomar umas medidas. Mas eu me contive. Acho que hoje já fiz o que tinha que fazer”. A frase foi lida nos bastidores como recado direto ao bolsonarismo, uma forma de deixar claro que a transferência não foi concessão política, mas cumprimento do dever.

Na prática, a mudança de local de custódia significou melhora objetiva nas condições de detenção. Na Papudinha, Bolsonaro passou a dispor de espaço mais amplo, área externa para banho de sol e equipamentos de fisioterapia. Isso reforçou a crítica de adversários de que, apesar do discurso de vitimização, houve sim um alívio nas condições da prisão, sem qualquer alteração no regime ou na condenação.

O simbolismo político do episódio ganhou ainda mais força por causa da memória recente. Em 2017, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro gravou um vídeo direcionado a Lula dizendo que “a Papuda lhe aguarda”. A frase voltou a circular nas redes após a transferência, minando a narrativa de perseguição e expondo a ironia histórica de o ex-presidente acabar detido no mesmo complexo prisional que usou como ameaça retórica a adversários.

A comemoração de Malafaia também escancarou a disputa interna no campo conservador. Ao projetar Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas como responsáveis pela mudança, o pastor sinalizou quem enxerga como protagonistas do pós-Bolsonaro. Nos comentários em suas redes, porém, a reação mostrou fissuras: parte da militância cobrou a centralidade de Flávio Bolsonaro como herdeiro político, enquanto outra atacou Tarcísio por sua postura institucional diante do STF. O que deveria ser demonstração de força virou termômetro de fragmentação.

No fundo, o episódio diz menos sobre cela maior ou menor e mais sobre poder e narrativa. Silas Malafaia tenta transformar uma decisão judicial em trunfo eleitoral, enquanto Alexandre de Moraes deixa claro, com ironia pública, que o Supremo não joga esse jogo. A transferência não reescreve a condenação de Jair Bolsonaro nem altera o peso histórico do processo. Serve, isso sim, para revelar como o bolsonarismo tenta capitalizar qualquer gesto institucional e como, mesmo atrás das grades, o ex-presidente continua no centro de uma disputa que já não é apenas jurídica, mas essencialmente política e eleitoral.

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