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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai ampliar a presença em podcasts e videocasts na campanha pela reeleição, numa estratégia para alcançar públicos digitais e reduzir a distância entre o discurso presidencial e eleitores que não acompanham a política pelos meios tradicionais. A aposta ganha força justamente na abertura oficial da campanha, marcada para 16 de agosto.
A estratégia não nasceu nesta semana. Em maio, o secretário nacional de Comunicação do PT, Eden Valadares, já havia antecipado que a campanha pretendia levar Lula a podcasts e videocasts de diferentes áreas durante a fase mais intensa da eleição, especialmente depois das convenções partidárias.
Agora, a escolha ganhou um componente prático. Em entrevistas concedidas a podcasts nesta sexta-feira, 14 de agosto, Lula adotou um formato mais informal para tratar de política nacional, relações com os Estados Unidos e eleição. A agenda confirma a prioridade que o comando petista vinha desenhando para a comunicação digital.
A mudança interessa eleitoralmente porque a campanha presidencial começa a disputar não apenas o eleitor que acompanha televisão, rádio e comícios, mas também quem consome entrevistas longas no YouTube, cortes nas redes sociais e programas voltados a assuntos específicos.
O PT quer justamente ampliar esse território. A orientação revelada por Valadares inclui programas de política, mas também podcasts sobre futebol, games e outros temas. A ideia é tirar Lula do ambiente tradicional do palanque e colocá-lo diante de públicos que talvez não procurem espontaneamente uma entrevista política.
O primeiro turno começa no celular
O calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece 16 de agosto como o primeiro dia de propaganda eleitoral, inclusive na internet. É a partir dessa data que a disputa entra formalmente na fase de campanha, depois das convenções realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto.
É nesse momento que a estratégia dos podcasts ganha peso.
O formato permite que Lula fale durante mais tempo do que em uma entrevista tradicional de televisão e, ao mesmo tempo, produz material que pode ser recortado para TikTok, Instagram, YouTube e outras plataformas.
A própria direção do PT citou a campanha presidencial dos Estados Unidos de 2024 como referência. Donald Trump e Kamala Harris utilizaram podcasts e videocasts para atingir públicos que escapavam dos formatos tradicionais da propaganda política.
O cálculo brasileiro é semelhante: uma entrevista pode render um conteúdo longo, dezenas de cortes e diferentes narrativas distribuídas pelas redes.
Não significa abandonar televisão, rádio ou eventos presenciais. A campanha de Lula também prepara material para o horário eleitoral e agendas políticas nos estados. O movimento é ampliar o número de portas de entrada para o candidato.
Lula procura o eleitor fora do “politiquês”
A aposta também responde a um problema de linguagem.
O próprio secretário de Comunicação do PT afirmou que a intenção é reduzir o “politiquês” de Lula. Em podcasts de temas variados, o presidente pode falar sobre assuntos cotidianos e chegar ao debate eleitoral por caminhos diferentes daqueles usados em discursos partidários.
A diferença está no ambiente.
No palanque, o candidato fala para uma plateia organizada pela campanha. No podcast, a entrevista pode circular entre pessoas que não estavam procurando conteúdo eleitoral. O trecho sobre economia pode aparecer em uma rede; uma resposta sobre futebol, em outra; uma declaração política, em um corte compartilhado milhares de vezes.
Esse mecanismo transforma a entrevista em matéria-prima para a campanha digital.
Lula já conhece esse formato. Durante a eleição de 2022, o então candidato participou do podcast Flow, experiência que passou a fazer parte da memória da campanha petista como exemplo do alcance que esse tipo de conversa pode produzir.
A disputa pelo jovem muda de endereço
O conflito eleitoral é direto: partidos precisam conversar com um eleitor que não necessariamente assiste ao horário eleitoral no rádio ou na televisão e que recebe boa parte das informações políticas por plataformas digitais.
Por isso, a campanha presidencial passa a disputar também os apresentadores, os canais e os formatos que funcionam como novos palanques.
A vantagem para Lula é a capacidade de transformar uma conversa em conteúdo distribuído por várias plataformas. A desvantagem é que o formato também reduz o controle sobre a circulação das falas.
Uma frase de uma entrevista pode ganhar vida própria depois de recortada. Uma resposta longa pode ser reduzida a poucos segundos. O contexto pode desaparecer quando o trecho chega às redes.
Essa é a parte de risco da estratégia.
A campanha precisa, portanto, escolher não apenas onde Lula falará, mas com quem ele falará, quais públicos pretende atingir e quais assuntos podem produzir conteúdo político fora da bolha petista.
A cadeira vazia dos debates ainda está no jogo
A aposta nos podcasts ganha ainda mais importância porque a participação de Lula nos debates permanece sem definição.
Em maio, o PT informou que participava de reuniões preparatórias com veículos interessados em organizar os confrontos, mas não havia confirmado a presença do presidente em nenhum debate.
A estratégia cria uma diferença importante.
No debate, Lula enfrenta adversários simultaneamente e tem pouco controle sobre as perguntas. No podcast, a conversa tende a ser mais extensa e permite desenvolver uma narrativa própria.
Isso não significa que podcasts substituam debates. São formatos com funções eleitorais diferentes.
Mas a preferência por entrevistas digitais pode ajudar o presidente a administrar melhor a comunicação em uma campanha na qual cada declaração terá potencial de virar corte e circular durante dias.
A pesquisa mostra onde está a disputa
A estratégia começa com Lula na frente nas principais pesquisas recentes, mas sem margem para acomodação.
Na pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto, Lula apareceu com 42,4% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28,7% de Flávio Bolsonaro (PL). O levantamento entrevistou 2.002 pessoas presencialmente entre 5 e 9 de agosto, tinha margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro no TSE é BR-06935/2026.
Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 10 de agosto, Lula marcou 40% e Flávio Bolsonaro, 35%. No segundo turno, os dois apareceram em situação de empate técnico, com 47% para Lula e 44% para o adversário, dentro da margem de erro.
E, nesta sexta-feira, 14 de agosto, está prevista uma nova sondagem da Quaest contratada pela Globo.
Os números das pesquisas ajudam a explicar a lógica da comunicação.
Liderar o primeiro turno não encerra a eleição. Lula precisa preservar sua base, ampliar a conversa com eleitores ainda indecisos e evitar que Flávio Bolsonaro transforme a campanha digital em território exclusivo da oposição.
Do palanque para o feed
A campanha de 2026 começa, portanto, com uma mudança concreta na forma de disputar atenção.
Lula continuará usando palanques, televisão, rádio e eventos partidários. Mas a campanha petista já decidiu que a conversa eleitoral também será travada diante de microfones de podcasts e câmeras de videocasts.
O objetivo é simples: entrar onde o eleitor já está.
A disputa pelo primeiro turno não será apenas pelo voto. Será também pela atenção, pelo tempo de tela e pela capacidade de transformar uma entrevista de uma hora em dezenas de conteúdos capazes de circular pelo ambiente digital.
A partir de 16 de agosto, quando a propaganda eleitoral passa a ser permitida inclusive na internet, esse novo palanque estará oficialmente aberto.
Leia também no Blog do Esmael: a cobertura das eleições de 2026 e a disputa presidencial que começa a ganhar forma no Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




