O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afrouxou o sutiã político nesta sexta-feira (14) após o terceiro encontro em dez dias com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Palácio da Alvorada e sinalizou que vai destravar propostas prioritárias para o governo, entre elas a que acaba com a escala 6×1.
Alcolumbre também indicou encaminhamento para a PEC 18/2025, da Segurança Pública, e para o PL 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O movimento representa uma mudança relevante em relação à resistência anterior do presidente do Senado em acelerar a pauta de interesse do Palácio do Planalto.
A conversa desta sexta-feira ocorreu em meio à tentativa de Lula de construir uma maioria política capaz de sustentar sua agenda no Congresso durante o ano eleitoral. O encontro foi reservado e marcou o terceiro contato entre Lula e Alcolumbre em dez dias.
A escala 6×1 é o principal símbolo dessa reaproximação. A PEC 221/2019 chegou ao Senado em maio, depois de ser aprovada pela Câmara dos Deputados, e prevê reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial.
O problema é que a proposta ficou parada durante semanas. O próprio Alcolumbre havia afirmado em junho que a PEC precisaria passar pelas comissões do Senado e não iria diretamente ao plenário.
O governo Lula transformou o fim da escala 6×1 em bandeira eleitoral e política. Para o Planalto, aprovar a redução da jornada antes da eleição cria uma entrega concreta ao eleitorado trabalhador e pode funcionar como contraponto à agenda econômica defendida por setores empresariais.
A PEC da Segurança Pública também está no pacote. A proposta altera as competências da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios na área de segurança pública e já avançou na Câmara, onde recebeu parecer favorável em plenário.
O terceiro item é o PL 2780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e cria uma estrutura federal para estimular a industrialização desses recursos. O projeto já foi aprovado na Câmara e aguarda apreciação do Senado.
São três pautas com forte potencial político: trabalho, segurança e soberania econômica. Para Lula, o avanço simultâneo ajuda a montar uma agenda de campanha com resultados legislativos. Para Alcolumbre, a aproximação abre espaço para negociar apoio político no Congresso e sua própria permanência no comando do Senado em 2027.
Lula já havia conseguido um movimento importante na Câmara. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou apoio à reeleição do petista depois que o Republicanos decidiu não fechar uma coligação nacional com Flávio Bolsonaro (PL). A neutralidade nacional da legenda deixou os diretórios estaduais livres para escolher seus candidatos presidenciais.
Com Motta de um lado e Alcolumbre agora mais próximo do Planalto do outro, Lula amplia sua interlocução com o chamado Centrão. Mas há uma diferença importante entre aproximação política e apoio eleitoral formal.
Não é possível afirmar que Alcolumbre tenha declarado voto em Lula ou que o Centrão esteja formalmente fechado com o presidente. O que existe, até aqui, é uma sequência de gestos de aproximação, negociação institucional e convergência de interesses.
A leitura política, porém, é evidente: quanto mais Lula consegue trazer para sua órbita os comandos da Câmara e do Senado, menor fica o espaço nacional para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O movimento também ocorre enquanto as pesquisas colocam Lula à frente do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na rodada da pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto, Lula liderava o primeiro turno, com 42,4%, enquanto Flávio Bolsonaro aparecia com 28,7%. No segundo turno, Lula tinha 48% contra 39,1% do adversário.
Não é de somenos que nesta sexta-feira, mesmo dia desse encontro entre Lula e Alcolumbre, a Quaest/Globo divulga uma nova sondagem da corrida presidencial.
O cenário ajuda a explicar por que o Palácio do Planalto trabalha simultaneamente em duas frentes: a eleitoral e a legislativa.
Na Câmara, Motta já abriu uma porta. No Senado, Alcolumbre agora sinaliza que pode abrir outra.
O desafio de Lula é transformar os acordos de cúpula em votos no plenário. Alcolumbre pode encaminhar a tramitação, mas cada proposta continuará sujeita à correlação de forças entre os senadores.
A escala 6×1, especialmente, ainda não tem votação automaticamente garantida. A mudança de posição do presidente do Senado destrava o caminho político, mas não substitui a construção da maioria necessária para aprovar uma emenda constitucional.
Depois de semanas de tensão, Lula conseguiu sentar três vezes com Alcolumbre em dez dias. Na primeira fase, o presidente do Senado segurava as pautas. Agora, começa a encaminhá-las.
No jogo de Brasília, o sutiã afrouxou. E Lula ganhou espaço.
Acompanhe o Blog do Esmael para saber se o acordo entre Lula e Alcolumbre vai virar voto no Senado.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




