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Lula diz que Brasil não aceita tutela dos EUA contra facções

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu nesta sexta-feira (29), em Laranjeiras (SE), à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, e transformou a pauta da segurança pública em disputa aberta sobre soberania nacional.

A fala ocorreu durante ato da Petrobras em Sergipe, onde o governo anunciou investimentos bilionários em petróleo, gás e fertilizantes. No fim do discurso, Lula deixou o roteiro econômico e entrou no confronto diplomático com Washington.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou na quinta-feira (28) que PCC e CV passarão a ser tratados como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho. A medida também enquadra as facções como Terroristas Globais Especialmente Designados, categoria que abre caminho para bloqueios financeiros e restrições internacionais.

Lula não defendeu as facções. O presidente afirmou que PCC e CV praticam terror contra comunidades, famílias e trabalhadores nas periferias brasileiras. A diferença, segundo ele, está no uso político e internacional da palavra terrorismo.

Na fala, Lula disse que o Brasil vai combater as organizações criminosas dentro do território nacional, com leis brasileiras, Polícia Federal, inteligência, cooperação internacional e controle sobre lavagem de dinheiro e tráfico de armas.

O Palácio do Planalto seguiu a mesma linha em nota oficial. O governo afirmou que o terror imposto por facções em comunidades busca lucro com crimes como tráfico de drogas e armas, mas não pode ser confundido com terrorismo internacional de motivação política, religiosa ou ideológica.

A nota também avisou que medidas unilaterais dos Estados Unidos podem reduzir a troca de informações entre polícias, afetar o sistema financeiro brasileiro e atingir inovações nacionais como o Pix. Esse é o ponto mais sensível para bancos, fintechs, empresas exportadoras e companhias com operações fora do país.

Lula elevou o tom ao dizer que o Brasil não aceita ser tratado como país subordinado. Ele afirmou ter discutido crime organizado com Donald Trump em reunião anterior e disse que entregou documentos ao governo americano sobre lavagem de dinheiro, tráfico de armas e brasileiros procurados que estariam nos Estados Unidos.

O recado mirou também a família Bolsonaro. Sem citar Flávio Bolsonaro nominalmente no trecho mais duro, Lula atacou “um filho de bolsonarista” que teria ido aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil. A referência política é direta: Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve em Washington nesta semana, encontrou Donald Trump e Marco Rubio, e defendeu a classificação das facções brasileiras como terroristas.

O conflito, portanto, deixou de ser apenas policial. A direita tenta empurrar a eleição presidencial de 2026 para o terreno da segurança pública, enquanto Lula tenta enquadrar o tema como defesa da soberania, da economia e das instituições brasileiras.

O governo brasileiro não fecha a porta para cooperação. Ao contrário: a nota do Planalto afirma que o crime organizado não respeita fronteiras e que o Brasil mantém parcerias com outros países, inclusive os Estados Unidos. A trava está no uso de uma decisão estrangeira como pretexto para sanções, interferência política ou ação fora dos canais institucionais.

Lula também conectou a crise externa à pauta interna da segurança. Ele cobrou a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública no Senado e defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública com dinheiro, inteligência e uma força especializada contra o crime organizado.

A resposta do governo tem risco político. Se a direita conseguir vender a classificação americana como uma vitória contra o crime, Lula terá de explicar por que rejeita o rótulo de terrorismo sem parecer tolerante com facções. Se o Planalto conseguir colar a medida à palavra intervenção, Flávio Bolsonaro entra na campanha como aliado de uma potência estrangeira contra decisões do Estado brasileiro.

A fala em Sergipe abriu a nova frente da disputa. De um lado, Washington usa a linguagem da guerra ao narcoterrorismo. De outro, Lula tenta dizer ao eleitor que segurança pública se combate com polícia, inteligência e soberania, não com tutela de Trump sobre o Brasil.

A próxima etapa será medir se o Congresso compra a PEC da Segurança Pública e se os efeitos financeiros da decisão americana chegam a bancos, fintechs, exportadores e empresas brasileiras com relações internacionais.

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