Lula põe R$ 30 bi no volante dos apps em Curitiba
Início / Notícias

Lula põe R$ 30 bi no volante dos apps em Curitiba

O presidente Lula (PT) colocou nesta terça-feira (26) R$ 30 bilhões no centro da disputa do bolso ao abrir crédito extraordinário para financiar carros novos de taxistas, motoristas de aplicativo e cooperativas, dentro do Move Brasil, enquanto Curitiba discute ônibus caro, licitação do transporte coletivo e dependência crescente de corridas por aplicativo.

A medida não é doação. É financiamento reembolsável, com dinheiro público destinado a uma linha de crédito para quem usa o carro como ferramenta de trabalho. A Medida Provisória (MP) 1.359/2026 autorizou a União a destinar até R$ 30 bilhões para essa finalidade, e a MP 1.362/2026 abriu o crédito extraordinário para bancar a operação.

O programa mira motoristas de transporte remunerado privado individual, taxistas registrados e cooperativas de táxi. O dinheiro passa pelo Ministério da Fazenda e terá o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como agente financeiro, com apoio das instituições autorizadas a operar as linhas.

Para motoristas de aplicativo, o governo exige cadastro ativo há pelo menos 12 meses e ao menos 100 corridas no período, na mesma plataforma. Taxistas precisam estar registrados e em atividade. Os veículos financiados devem ser novos, custar até R$ 150 mil e atender critérios de sustentabilidade, como modelos flex, híbridos flex, elétricos ou exclusivamente a etanol.

As taxas de juros e os prazos finais serão definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O desenho divulgado pelo governo prevê prazo de até 72 meses, possibilidade de carência e condições diferenciadas para mulheres, inclusive juros menores e financiamento de itens adicionais de segurança.

O ponto político está no lugar onde o crédito entra. O carro de aplicativo virou instrumento de renda, mas também virou despesa diária com combustível, seguro, manutenção, pneus, limpeza, depreciação e taxa de plataforma. Trocar o carro pode reduzir custo imediato, mas também pode colocar uma dívida nova no CPF de quem já trabalha com margem apertada.

É por isso que a medida chega à disputa do bolso. Para o governo Lula, o crédito conversa com uma categoria numerosa, espalhada e politicamente sensível. Para a oposição, o flanco está em perguntar se o programa melhora renda ou apenas transforma precarização em financiamento de longo prazo.

Curitiba dá ao pacote uma camada local. A capital paranaense vive a reta da nova concessão do transporte coletivo, com previsão de leilão na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) em julho, segundo a Prefeitura, e tarifa ao usuário mantida em R$ 6 no período de transição.

Isso coloca ônibus, táxi e aplicativo dentro do mesmo conflito urbano. Quando o transporte coletivo fica caro, lotado ou demorado, parte do passageiro procura aplicativo. Quando o aplicativo encarece, o trabalhador sente a corrida no orçamento. Quando o motorista financia carro novo, a conta aparece no custo mensal da atividade.

A Prefeitura de Curitiba, comandada por Eduardo Pimentel (PSD), não controla a linha federal de crédito. Mas controla a política de mobilidade, a fiscalização local, o táxi, o desenho do transporte coletivo e a licitação que vai definir a operação dos ônibus por anos. A pergunta para a cidade é objetiva: o crédito federal será tratado como política de renda para motoristas ou apenas como alívio indireto para um sistema urbano que empurra o passageiro para fora do ônibus?

O Move Brasil também interessa às concessionárias e montadoras. A expectativa é que sejam comercializados ao menos 200 mil carros com a linha. O cadastro do motorista deve ser feito pela plataforma gov.br/movebrasil, e a análise de crédito ocorre depois da verificação de elegibilidade.

No Congresso Nacional, a medida provisória já está em vigor, mas ainda precisa ser analisada pelos parlamentares. Esse é o segundo campo de disputa: deputados e senadores poderão alterar o texto, ampliar exigências, reduzir brechas ou transformar a pauta em vitrine eleitoral para 2026.

A oposição deve levantar o risco fiscal, o uso do BNDES e o endividamento da categoria. O governo deve vender a medida como renovação de frota, crédito produtivo e resposta a trabalhadores que ficaram fora da proteção clássica do emprego formal.

Em Curitiba, a consequência concreta será medida no volante, não no discurso. Se o motorista conseguir trocar o carro sem perder renda para a parcela, o programa vira alívio. Se a prestação engolir a corrida, o crédito vira outro custo fixo numa cidade onde a mobilidade já pesa no orçamento de quem trabalha e de quem se desloca.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Siga o Blog do Esmael no WhatsApp

*Requer WhatsApp atualizado. Se não abrir, atualize o app.