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O Supremo Tribunal Federal dá início, na próxima segunda-feira (9), aos interrogatórios dos réus acusados de arquitetar uma tentativa de golpe para manter Jair Bolsonaro no poder após a derrota nas urnas em 2022. O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal, vai comandar as oitivas na 1ª Turma do STF, presencialmente, entre os dias 9 e 13 de junho.
Mauro Cid abre os trabalhos
O primeiro a depor será o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência e delator central no inquérito. Seu testemunho é esperado com atenção, uma vez que a delação homologada por Moraes detalha os bastidores de reuniões, planos e ações para desestabilizar o regime democrático.
A agenda das audiências prevê sessões diárias das 14h às 20h, podendo se estender ao longo da semana caso necessário. Apenas o general Braga Netto, preso preventivamente no Rio de Janeiro, será ouvido por videoconferência.
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Os réus: o “núcleo duro” do plano golpista
Na sequência de Cid, os demais réus serão ouvidos em ordem alfabética. A lista revela o coração institucional da trama investigada:
- Alexandre Ramagem – ex-diretor da Abin, ligado ao “gabinete do ódio”;
- Almir Garnier – ex-comandante da Marinha;
- Anderson Torres – ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do DF no 8 de janeiro;
- Augusto Heleno – general da reserva, ex-GSI e ideólogo da linha dura no governo Bolsonaro;
- Jair Bolsonaro – ex-presidente da República;
- Paulo Sérgio Nogueira – ex-ministro da Defesa;
- Walter Braga Netto – ex-ministro da Casa Civil, da Defesa e candidato a vice em 2022.
O interrogatório presencial ocorrerá na própria sala de audiências do STF. Para além do aspecto processual, o ritual marca um momento de inflexão no enfrentamento institucional ao golpismo no Brasil.
Cronograma das oitivas
A programação da semana de audiências no STF está definida da seguinte forma:
- 10/6 – das 9h às 20h
- 11/6 – das 8h às 10h
- 12/6 – das 9h às 13h
- 13/6 – das 9h às 20h
O Supremo já ouviu 52 testemunhas ao longo da fase anterior, incluindo aliados, militares e assessores próximos do ex-presidente. As sessões foram marcadas por tensão, como o episódio em que Moraes ameaçou prender Aldo Rebelo, ex-ministro ouvido pela defesa.
Uma trama com nome e rosto
A peça acusatória aponta Bolsonaro como líder de uma organização criminosa voltada a sabotar o processo eleitoral e impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. O cerne da acusação envolve a reunião no Palácio da Alvorada, onde se discutiu um plano de ruptura institucional — confirmado por várias testemunhas em juízo.
A delação de Mauro Cid serviu como catalisador para o avanço da denúncia. Entre os elementos revelados, estão minutas de decreto de estado de sítio, tentativas de envolver as Forças Armadas e articulações paralelas com setores da segurança e inteligência.
O que está em jogo
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Ao convocar o núcleo político-militar do ex-presidente para depor sob as luzes do STF, Moraes coloca em cena o que pode ser a etapa final da responsabilização judicial pelo 8 de janeiro e seus antecedentes. O processo caminha para sentenças com potencial de redefinir os rumos da extrema-direita no Brasil.
A partir das oitivas, o relator poderá encerrar a instrução do processo e liberar a ação penal para julgamento ainda em 2025 — ano em que Jair Bolsonaro tenta manter protagonismo político em meio à inelegibilidade e à fragmentação da oposição.
Um divisor de águas
O Brasil assiste, mais uma vez, ao confronto entre a liturgia democrática e a pulsão autoritária que rondou o Planalto até o último minuto do mandato anterior. O STF, que já foi desafiado por ações e retórica golpistas, agora conduz a fase mais simbólica do julgamento dos responsáveis.
Se a democracia for, como dizem, também um processo de memória, o depoimento de Bolsonaro e seus generais será peça central na construção de um futuro em que ruptura institucional não seja sequer cogitada.
Tic-tac: risco real de prisão acelera queda de Bolsonaro
O relógio da Justiça avança sem recuos. Jair Bolsonaro, já inelegível até 2030, agora enfrenta um risco concreto de prisão — reconhecido até por aliados mais próximos, que ajustam discursos e estratégias à nova realidade.
Nos bastidores, o entorno do ex-presidente trabalha com um cenário que inclui incomunicabilidade e perda de controle narrativo. A insistência pública na candidatura de 2026 contrasta com a movimentação reservada de nomes que buscam manter o grupo coeso diante do que consideram inevitável: o enfrentamento direto com o Supremo Tribunal Federal.
A Corte, por sua vez, tem acelerado os ritos. A condenação de Carla Zambelli a 10 anos de prisão não passou despercebida. Foi um recado claro de que a responsabilização por atentados à democracia não se encerrará nos peões. Moraes já classificou as provas contra Bolsonaro como “contundentes e irrefutáveis”.
Diante disso, o ex-presidente volta a apostar na narrativa de perseguição: vídeos, ataques verbais, acenos à base radical. É uma tentativa de transformar desgaste judicial em energia política, de repetir o enredo do “perseguido” para tentar manter a militância mobilizada.
Mas o contexto mudou. O peso das evidências, o avanço institucional e a fadiga pública com discursos conspiratórios colocam Bolsonaro diante de uma encruzilhada inédita.
O tic-tac segue. E cada minuto é mais difícil de administrar.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




