Vergonha alheia. Foi o que se viu durante o feriado de Finados, em que bolsonaristas acreditaram até nas próprias fake news, bloquearam ilegalmente rodovias, fizeram saudações nazistas e fizeram manifestação em frente a quartéis do Exército. O que eles queriam? Dar um golpe de Estado.
A imprensa internacional registrou incredulamente esse movimento bolsonarista, que clama por um golpe militar, após a maiorida dos brasileiros escolher democraticamente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como presidente da República a partir de janeiro de 2023.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, disse nesta quinta-feira (03/11) que o resultado da urna é incontestável e prometeu que criminosos que atacam o sistema eleitoral serão responsabilizados.
“As eleições acabaram, o segundo turno acabou democraticamente no último domingo. O TSE proclamou o vencedor, o vencedor será diplomado até dia 19 de dezembro e tomará posse em 1º de janeiro de 2023. Isso é democracia, isso é alternância de poder, isso é estado republicano”, disse Moraes.
O ministro do TSE deu um duro recado para os bolsonaristas: “Não há como se contestar um resultado democraticamente divulgado com movimentos ilícitos, com movimentos antidemocráticos, criminosos que serão combatidos e os responsáveis responsabilizados sob a pena da lei. A democracia venceu novamente no Brasil.”
Segundo Alexandre de Moraes, aqueles que criminosamente não estão aceitando o resultado da urna, que estão praticando atos antidemocráticos, serão tratados como criminosos e as responsabilidades serão apuradas.
Assista trecho do pronunciamento de Moraes:
Veja a repercussão na impressa internacional
O New York Times traz na edição de hoje a notícia de que os bolsonaristas não aceitam a derrota do presidente nas eleições de domingo. Em reportagem do chefe do escritório do NYTimes no Brasil, Jack Nicas, o jornal destaca na página A4: Recusando-se a aceitar a derrota, apoiadores de Bolsonaro pedem que militares intervenham. “Dezenas de milhares de pessoas se manifestaram em cidades de todo o Brasil, muitas delas exigindo que os militares parem a transferência de poder para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva”, informa.
A reportagem está na página inicial da editoria internacional do NYT e ocupa página inteira. A descrição mostra o bizarro cenário político brasileiro: “Eles chegaram às dezenas de milhares nesta quarta-feira, furiosos e envoltos em bandeiras brasileiras, aglomerando-se do lado de fora das bases militares em todo o país”, escreve Nicas. “Eles estavam lá, diziam, para salvar a democracia brasileira de uma eleição fraudada, e só havia uma maneira de fazer isso: as Forças Armadas precisavam assumir o controle do governo”. O correspondente diz que é “uma demanda alarmante em um país que sofreu sob uma ditadura militar de duas décadas até 1985 – e mais uma reviravolta bizarra após as eleições polarizadas do Brasil”.
A Associated Press distribui reportagem assinada por Diane Jeantet e Joshua Goodman em que mostra que o fato de Bolsonaro ter sido domado na derrota, tirou o Brasil da beira do abismo. “O aparente reconhecimento do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de sua derrota eleitoral pode ter ajudado a evitar o caos político”, sintetiza. O material é replicado pelo Washington Post.
Também no Washington Post, Mac Margolis escreve que o triunfo de Lula é uma vitória para o centro político do Brasil – não para a esquerda brasileira. Ele diz que o ex-sindicalista venceu, por margem mínima, ao reunir o apoio de economistas do establishment, centristas desiludidos e da extrema esquerda. “Pode parecer errado contestar em meio a essa manifestação pública, mas Lula superou o presidente Jair Bolsonaro pela menor margem já registrada: pouco mais de 2 milhões de votos em 124 milhões”, observa.
“Metade do país não o queria. Apenas Bolsonaro mostrou taxas de rejeição mais altas e, mesmo assim, raspou cerca de 4 milhões de votos da vitória de Lula no primeiro turno em 2 de outubro”, diz o ex-correspondente. “Os brasileiros sempre se posicionaram um pouco mais à direita do que se supunha. Bolsonaro deu ao seu lado conservador uma face pública carismática, com um toque de direita. E seus seguidores não vão embora”.
Já o Wall Street Journal mostra que a derrota de Bolsonaro produziu problemas para a paz social, mas o pior já passou: Bloqueios de estradas no Brasil se dissipam à medida que a transição do governo começa. Este é o título da reportagem de Luciana Magalhães e Vinod Sreeharsha. “Caminhoneiros protestaram em apoio ao presidente Bolsonaro após perder a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva”, reporta.
No Financial Times, o relato é preciso: Jair Bolsonaro pede que apoiadores acabem com protestos em estradas. “Os comentários do presidente cessante sinalizam uma tentativa de diminuir as tensões depois que ele perdeu a eleição no Brasil”, aponta. O jornal cita as declarações do presidente. “Estou tão chateado e triste quanto você, mas temos que manter a cabeça no lugar”, disse o ex-capitão do Exército de 67 anos.
E continua mostrando a declaração do presidente endereçada aos apoiadores: “Dói a todos ter essas rodovias fechadas. Faço um apelo a você: limpe as estradas, proteste de outra maneira, em outros lugares – isso é muito bem-vindo, faz parte da nossa democracia”. Segundo o FT, grupos empresariais e autoridades públicas alertaram que a interrupção provoca o risco de escassez de bens, como suprimentos médicos e estoques para supermercados.
Já o inglês The Guardian noticia a ação de amantes do futebol para reverter os bloqueios nas rodovias brasileiras. ‘Somos pela democracia’: torcedores brasileiros liberam bloqueios pró-Bolsonaro — é o título da matéria. “Manifestantes que alegam fraude eleitoral sem fundamento e se recusam a aceitar a derrota de Lula bloqueiam estradas desde a eleição”, resume o jornal. O diário britânico traz foto de caminhões bloqueando a Castelo Branco, em São Paulo.
“Fanáticos do futebol brasileiro ansiosos para chegar aos jogos fora de casa foram aclamados como heróis democráticos depois de romper bloqueios de estradas estabelecidos por apoiadores de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro, que se recusam a aceitar sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de domingo”, relata Constance Malleret.
O francês Le Monde também noticia o pedido de Bolsonaro de desbloqueio das estradas, mas reporta que o presidente incentiva os manifestantes. “Milhares de apoiadores do presidente cessante, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no domingo, se reuniram em frente a prédios militares em uma dúzia de estados para exigir a intervenção do Exército”, informa o jornal.
Em outra reportagem do correspondente Bruno Meyerfeld, o diário diz que os manifestantes se mobilizam contra resultado da eleição presidencial e apostam no exército. “Vamos ficar, revezaremos todos os dias” — diz o título da matéria. “Vestidos com camisas verdes e douradas, dezenas de milhares de apoiadores do presidente de extrema-direita derrotados nas urnas se reuniram em todo o país na quarta-feira para protestar contra a vitória de Lula”, detalha.
O Libération também destaca o pronunciamento de Bolsonaro ontem, apontando que o presidente não estimulou o movimento de caminhoneiros, mas também não pediu o fim. E denuncia a ambiguidade do líder brasileiro. “Se a extrema-direita vencida tardiamente deu a seus partidários na noite desta quarta-feira a instrução para desbloquear as estradas do país, sua ambiguidade sobre a validade da vitória de Lula não desencoraja os encrenqueiros”, resume.
Na Espanha, os bloqueios de rodovias por manifestantes que apoiam o presidente brasileiro ganha destaque nos jornais. O jornal El País faz alarde na capa sobre os pedidos de intervenção militar e diz que Bolsonaro incentiva atos que pedem intervenção militar e, ao mesmo tempo, condena bloqueios de estradas. “Os seguidores do presidente derrotado fazem protestos em frente ao quartel-general do Exército no Rio, São Paulo e Brasília”, escreve a correspondente Naiara Galarraga Gortázar.
O diário madrilenho — o mais influente do país — revela como torcedores ajudaram a desbloquear estradas no Brasil para assistir a jogos. Segundo o relato, integrantes da torcida do Corinthians e Atlético Mineiro liberaram estradas fechadas pelos bolsonaristas e fazem defesa da democracia.
El País ainda traz texto do veterano correspondente Juan Árias dizendo que as eleições são um marco na história do país: Brasil retoma o caminho para a liberdade que foi roubada. “Todos os analistas políticos hoje apostam nas dificuldades que esperam Lula para governar um país dilacerado e dominado pelo ódio”, opina.
No português Diário de Notícias, a cobertura sobre a pós-campanha eleitoral segue intensa com o jornal destacando que Bolsonaro apela aos manifestantes que desbloqueiem as estradas, de forma a não perderem a legitimidade. Os protestos continuam enquanto Lula já prepara 2023. Na edição de quarta, o matutino lusitano já mostrava que apoiadores de Bolsonaro estavam dispostos a continuar com os protestos, embora o número de bloqueios venha caindo.
O alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung também traz pedido do mandatário pelo fim do bloqueio. “O presidente do Brasil parece estar cedendo: Jair Bolsonaro pede que seus apoiadores ‘respeitem os direitos de outras pessoas’”, relata. “Os torcedores que não querem aceitar sua derrota já pediram um golpe militar”.
Reproduzindo material da agência portuguesa Lusa, o jornal Público também aborda o apelo do presidente: Bolsonaro apela aos manifestantes que desbloqueiem as estradas. Os dois jornais portugueses ainda mostram a notícia de que carro furou barreira de manifestantes pró-Bolsonaro em São Paulo e fez dez feridos. Esse último virou também despacho da Lusa e foi reproduzido por dezenas de veículos de rádio e TV em Portugal.
O diário argentino Clarín mostra que está em curso no Brasil uma operação capitólio (tabajara!!!), com bolsonaristas marchando em cidades brasileiras exigindo golpe militar para impedir posse de Lula da Silva. “As maiores manifestações estão em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Eles acontecem em frente ao quartel do exército. Não houve reação das Forças Armadas”, escreve o enviado especial Marcelo Cantelmi.
O Página 12 também traz reportagem mostrando o comportamento anti-democrático dos apoiadores do presidente. Brasil: Os seguidores de Bolsonaro reclaman um golpe fazendo saudação nazi. Eles ignoram a vitória de Lula e exigem a intervenção do Exército. Na edição de quarta-feira, o jornal já alertava para os pedidos de golpe. “Os setores que desconhecem a vitória de Lula marcharam em frente ao quartel militar”, apontava.
Por fim, o último assunto com repercussão no FT é a questão ambiental, que continua foco de atenções. O diário financeiro, um dos mais influentes do mundo, alerta que Lula enfrenta uma luta para reverter a destruição ambiental do Brasil provocado pelo governo do líder da extrema-direita. O jornal ouve Marina Silva. “Ex-ministra diz que mudança climática será prioridade após aumento do desmatamento sob Bolsonaro”, relata.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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