A guerra comercial entre Estados Unidos e China entrou em nova fase às vésperas da reunião entre Donald Trump e Xi Jinping. O governo americano anunciou que o aumento de 100% nas tarifas sobre produtos chineses, previsto para 1º de novembro, foi suspenso após Pequim aceitar adiar por um ano a implantação do seu sistema de licenciamento de exportação de terras-raras. A trégua temporária inclui ainda a promessa de grandes compras de soja americana e cooperação no combate ao tráfico de precursores químicos usados na produção de fentanil.
Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, as negociações realizadas no fim de semana em Kuala Lumpur alcançaram um “quadro substancial” para que os dois líderes tratem do acordo em encontro marcado para esta quinta-feira, em Seul. Bessent declarou à ABC News que o entendimento inicial pode “restaurar a relação comercial ao ponto em que estava antes da guerra tarifária iniciada pelo próprio presidente Trump”.
Autoridades americanas destacaram que o plano reduz tensões criadas pelas sucessivas rodadas de tarifas e contramedidas desde o início do ano. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, celebrou o retorno das compras chinesas de soja, afirmando que “o mercado volta ao equilíbrio e garante prosperidade aos produtores americanos”.
Do lado chinês, o governo concordou em revisar o sistema de licenças de exportação de minerais críticos. O Ministério do Comércio havia endurecido as regras desde 2024, exigindo documentação detalhada de empresas estrangeiras e restringindo o envio de elementos como disprósio, samário e neodímio, essenciais para semicondutores, motores elétricos e equipamentos militares.
O New York Times relata que Pequim construiu, ao longo de um ano, um aparato regulatório que lhe concede controle quase absoluto sobre os minerais que movem a economia de alta tecnologia. A China domina a produção global de terras-raras e é a única capaz de refinar metais de pureza ultrafina, vitais para chips e baterias. Essa hegemonia transformou as exportações em instrumento de poder geopolítico.
Em 2024, Pequim iniciou a ofensiva exigindo que importadores informassem o destino final de cada metal, suspendeu embarques de germânio e gálio e passou a proibir a transferência de tecnologia de refino. Em abril, bloqueou exportações de sete dos dezessete elementos de terras-raras e, em outubro, expandiu a lista para doze, incluindo também equipamentos industriais usados em seu processamento. O mesmo pacote passou a vetar a saída de maquinário para produção de baterias e semicondutores e determinou que qualquer produto fabricado no exterior com materiais chineses precisará de autorização prévia para cruzar fronteiras.
Com isso, fábricas da Europa, dos Estados Unidos e do Japão enfrentam escassez e atrasos na produção. Automobilísticas e fabricantes de chips relatam dificuldades para renovar licenças e ampliar estoques. A medida elevou o alerta de Washington e de aliados, que veem na política chinesa um risco para cadeias globais de abastecimento.
A Casa Branca, por sua vez, mantém a política de sanções a empresas tecnológicas da China e pressiona aliados a restringirem o uso de componentes chineses em setores estratégicos. Ainda assim, os assessores de Trump admitem que a trégua de Kuala Lumpur visa evitar um choque global antes do encontro com Xi.
Economistas ouvidos pelo NYT avaliam que o acordo, se confirmado, apenas restabeleceria o status quo anterior à guerra tarifária, sem resolver suas causas estruturais. Ambas as potências demonstram disposição em recuar momentaneamente para proteger suas economias, mas seguem presas à lógica de confrontação.
A Organização Mundial do Comércio alertou que a persistência dessa disputa pode reduzir o PIB global em até 7% nos próximos anos. Apesar da suspensão de tarifas imediatas e do adiamento das novas regras chinesas, a desconfiança mútua continua. Washington teme que Pequim use os minerais como arma diplomática e a China acusa os EUA de tentarem conter sua ascensão tecnológica.
Do ponto de vista econômico e social, o impasse já encarece bens eletrônicos e ameaça a transição energética, ao limitar o acesso a matérias-primas para motores e baterias. Para países exportadores como o Brasil, há ganhos pontuais com a venda de soja e carne à China, mas os custos da instabilidade global tendem a superar eventuais benefícios.
Em resumo, a “paz comercial” que Trump tenta anunciar parece mais uma pausa tática do que um fim real do conflito. As duas maiores economias do planeta continuam disputando o controle das engrenagens do século XXI, a tecnologia, os recursos naturais e o poder sobre o futuro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




