A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra das Relações Institucionais, atropelou o ex-deputado cassado Deltan Dallagnol no embate sobre a promoção de Januário Paludo à Procuradoria-Geral da República (PGR). Depois de ouvir do ex-procurador que deveria “lavar a boca” para falar do colega da Lava Jato, Gleisi devolveu com uma rajada de acusações e empurrou Dallagnol de volta para o terreno em que ele mais sangra: o da própria biografia.
A resposta de Gleisi não foi protocolar.
“Fala sério, Dallagnol, ficou nervosinho porque eu critiquei a promoção indecente do procurador, seu cúmplice na farsa da Lava Jato?”, disparou a deputada em vídeo publicado nas redes.
A partir daí, a ex-ministra foi para o pescoço.
Chamou Dallagnol de “ficha suja” e “mau caráter”, afirmou que ele fraudou a Lei da Ficha Limpa ao renunciar ao cargo de procurador para escapar de 15 processos no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e disse que o ex-deputado mente ao eleitorado do Paraná quando insinua que pode disputar o Senado, embora esteja inelegível até 2031, segundo sua fala.
Gleisi também puxou a investigação sobre a fundação bilionária da Lava Jato.
Segundo ela, Dallagnol e seus cúmplices foram apanhados pela Polícia Federal num conluio para desviar R$ 2,5 bilhões da Petrobras para uma fundação privada que ele controlaria. A deputada citou a investigação da PF e a correição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre os desmandos da 13ª Vara Federal de Curitiba.
O ataque político virou cobrança moral.
“Isso não é corrupção?”, perguntou Gleisi, invertendo contra Dallagnol o discurso moralista que marcou a carreira do ex-procurador na operação que levou Lula à prisão e depois foi desmontada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A ex-ministra também colocou a própria história na mesa.
Disse que nunca fugiu da Justiça, que enfrentou “com a verdade” as farsas armadas pela Lava Jato e que foi absolvida por unanimidade no STF na Ação Penal 1003. Afirmou ainda que a denúncia ligada à Odebrecht também foi rejeitada por unanimidade.
Na sequência, Gleisi elevou o custo político da Lava Jato.
Acusou Dallagnol e sua turma de terem conduzido um processo sem provas, num teatro político para ganhar projeção e dinheiro, e atribuiu à operação a destruição de 4 milhões de empregos no Brasil. Na fala da deputada, o objetivo final daquela engrenagem era impedir a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O nome de Paludo reaparece no fecho mais venenoso do vídeo.
Gleisi citou o caso do doleiro Dario Messer, tratado como “rei dos doleiros”, e afirmou que Paludo aparece ligado a episódios graves desde o caso Banestado. Segundo a deputada, Messer contou à Polícia Federal que pagava mesada ao procurador.
A frase final veio com aviso.
“Toma vergonha e se explique. O que é de vocês está guardado. É só esperar.”
O episódio mostra que Dallagnol tentou crescer para cima de Gleisi, mas escolheu uma briga em que o passado da Lava Jato volta como bumerangue. Ao mandar a deputada “lavar a boca”, abriu a porta para ouvir, em praça pública, tudo o que sua tropa sempre tentou deixar fora do enquadramento.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




