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A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, saiu em defesa do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), nesta segunda-feira (16), após uma onda de críticas vindas de dentro do próprio governo Lula (PT). A tensão expõe as fragilidades na comunicação entre parte do Executivo e Motta, às vésperas de votações importantes como as que envolvem o IOF e novas medidas fiscais.
A palavra-chave é previsibilidade — e foi com ela que Gleisi procurou blindar o aliado. “O relacionamento de Hugo Motta com o governo tem se caracterizado por responsabilidade e firmeza”, escreveu a ministra em suas redes. “Tratamos às claras dos interesses do país, e isso tem sido fundamental”, completou, em tom direto aos colegas de Planalto.
A crítica mais recorrente nos bastidores é de que Motta cede à pressão de deputados e empresários, o que comprometeria sua capacidade de liderança. Um exemplo foi a mudança de tom após a reunião considerada “histórica” com Fernando Haddad e Davi Alcolumbre sobre alternativas à alta do IOF. Dias depois, o próprio Motta passou a desautorizar parte das propostas anunciadas.
Pressão nos bastidores e disputa de estilos com Arthur Lira
Ministros ligados ao Centrão disseram que Motta “não entrega o que promete” e “recua sob pressão”. A comparação é inevitável com Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, considerado duro — mas confiável nos acordos.
Na visão de interlocutores do Planalto, o atual presidente da Câmara ainda não demonstrou a firmeza necessária para conduzir reformas que exigem custo político. A falta de domínio sobre a distribuição das emendas parlamentares enfraqueceria sua liderança e ampliaria a crise com o governo e o Judiciário.
O ministro Fernando Haddad, por sua vez, evitou críticas diretas, mas elogiou Lira em evento com empresários. “Na transição, ele foi claro: vamos resolver a questão econômica em outro ambiente”, afirmou, numa fala lida por muitos como um recado.
Lindbergh engrossa o coro pró-Motta no PT
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), também saiu em defesa de Hugo Motta: “Essa leitura é totalmente equivocada. Ele tem sido peça fundamental para aprovar projetos prioritários”, disse. A fala ajuda a compor um muro de contenção no Congresso para evitar que o racha com o governo se aprofunde.
Mas o fato é que, até agora, Motta ainda busca consolidar sua autoridade interna. A leitura política é que o Republicanos tenta se equilibrar entre a neutralidade institucional e os interesses eleitorais para 2026, em especial no Nordeste.
Liderança em teste e base do governo sob pressão
O episódio confirma: Hugo Motta é hoje o elo mais vulnerável entre Lula e a Câmara. Embora respaldado por Gleisi e Lindbergh, o desgaste é real. As oscilações de discurso sobre a taxação de LCI e LCA e o aumento do imposto nas apostas — medidas que enfrentam resistência de setores empresariais — foram interpretadas, de forma interessada, como sinal de “instabilidade”.
Mas o uso desse termo carrega um viés: é uma leitura produzida pela velha mídia, a serviço dos interesses do mercado financeiro, que busca ampliar seu controle sobre o orçamento público — ainda que à revelia do Parlamento. Ao classificar divergências políticas como “instabilidade”, o discurso econômico dominante tenta deslegitimar qualquer espaço de negociação real no Legislativo.
Apesar disso, em Brasília, ruídos se dissipam com o som das emendas pagas. A liberação dos recursos, ainda travada por cortes e entraves judiciais, continua sendo o fator decisivo para medir lealdade e governabilidade.
Para o Planalto, a equação é instável: sustentar o apoio de um presidente da Câmara sem o poder de Arthur Lira, sem implodir a engenharia política da base.
Resta saber se a “firmeza” destacada por Gleisi será suficiente para manter Hugo Motta como fiador de votações estratégicas — ou se ele será apenas mais uma peça descartável no xadrez do poder.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




