A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), pré-candidata ao Senado pelo Paraná, acusou nesta terça-feira (2) a família Bolsonaro de alimentar nos Estados Unidos uma ofensiva que alcança o comércio brasileiro, a soberania nacional e o Pix, sistema público de pagamentos operado pelo Banco Central.
A reação veio depois de o governo Donald Trump propor tarifa de 25% sobre parte das importações brasileiras, com base em investigação comercial que inclui serviços de pagamento eletrônico, comércio digital, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Gleisi afirmou que “enquanto a família Bolsonaro conspira lá fora”, ela fica “do lado de cá”, na defesa do povo brasileiro. A frase escolhida pela petista para resumir a disputa foi direta: “O Pix é nosso. O Brasil é nosso.”
A fala transforma uma investigação comercial americana em tema de campanha no Paraná. Gleisi tenta colocar a direita local diante de uma pergunta incômoda para 2026: quem defende o Brasil quando a pressão vem de Washington?
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu a investigação em julho de 2025, sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana. O procedimento permite retaliações quando Washington conclui que práticas de outro país prejudicam empresas dos Estados Unidos.
O ponto sensível para o Brasil está nos pagamentos eletrônicos. O documento americano acusa o país de favorecer serviços desenvolvidos pelo governo. No debate público brasileiro, essa formulação foi lida pelo governo Lula e por Gleisi como um ataque direto ao Pix.
A razão é concreta. Segundo o Banco Central, o Pix já ultrapassa 170 milhões de pessoas físicas cadastradas e registrou mais de 7 bilhões de transações em janeiro de 2026. O sistema é gratuito para pessoas físicas, funciona todos os dias e reduziu a dependência de cartões, boletos e transferências tradicionais.
Gleisi ligou essa pressão econômica às agendas recentes de integrantes da família Bolsonaro nos Estados Unidos. No vídeo, ela disse que o novo tarifaço americano é “resultado das articulações da família Bolsonaro” contra o Brasil e citou também a defesa feita por Flávio Bolsonaro da classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Flávio Bolsonaro esteve nos Estados Unidos, defendeu medidas duras contra organizações criminosas brasileiras e, segundo registro do Blog do Esmael, reuniu-se com autoridades do governo Trump antes de Washington ampliar a pressão sobre o Brasil.
O próprio Donald Trump, nesta terça, publicou em suas redes sociais fotos do encontro com Flávio Bolsonaro. O mandatário americano elogiou o filho zero um do ex-presidente Jair Bolsonaro dizendo se tratar de um “jovem inteligente que ama muito o seu país”.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro jurou nas redes que pediu a Trump para não taxar empresas brasileiras. A declaração tenta separar a agenda dele nos Estados Unidos da tarifa proposta pelo governo americano.
Gleisi, porém, explora a contradição entre o discurso nacionalista da extrema direita e a busca de apoio externo contra decisões, instituições e políticas brasileiras. Para a pré-candidata ao Senado, o caso deixou de ser apenas uma disputa comercial e virou conflito sobre soberania.
A fala da deputada também encosta no caso Dark Horse. Gleisi citou o filme sobre Jair Bolsonaro e associou a produção ao desgaste político em torno do Banco Master, depois de Flávio Bolsonaro admitir que pediu R$ 61 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o projeto, embora negue irregularidade.
O elo político usado por Gleisi é simples: de um lado, um sistema brasileiro de pagamento que barateia a vida de milhões; de outro, uma direita que buscou interlocução com Trump, Marco Rubio e autoridades americanas enquanto o Brasil enfrenta ameaça tarifária e pressão sobre tecnologia pública.
Lula também entrou na disputa nesta terça-feira (2). Em Catalão (GO), o presidente apareceu com um cartaz dizendo “O PIX é do Brasil” e afirmou que o sistema “assusta” os americanos. O gesto reforçou a linha do governo de transformar o Pix em símbolo de soberania econômica.
A tarifa ainda não entrou em vigor. A proposta americana prevê consulta pública até 1º de julho, audiência em 6 de julho e decisão final em julho. Até lá, o governo brasileiro tentará negociar para evitar impacto sobre exportadores, empresas e consumidores.
No Paraná, o tema atravessa a eleição antes mesmo do início oficial da campanha. Gleisi quer usar o Pix como prova material de uma disputa maior: a diferença entre defender tecnologia pública brasileira e aceitar que interesses estrangeiros ditem o custo do dinheiro no bolso do trabalhador.
O ponto que fica para a direita paranaense é objetivo. Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros, Ratinho Junior, Sandro Alex e aliados de Flávio Bolsonaro terão de dizer se tratam o Pix como patrimônio público brasileiro ou como problema comercial para empresas americanas.
A ofensiva de Trump ainda depende de etapas formais nos Estados Unidos, mas a disputa política no Brasil já começou. Para Gleisi, o Pix virou fronteira entre soberania nacional e submissão externa. Para o eleitor, a consequência possível é direta: qualquer mudança no sistema de pagamentos pode bater no custo de vender, comprar, receber e transferir dinheiro.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




