O aceno do governador Ratinho Junior (PSD) a Flávio Bolsonaro (PL) abriu uma crise política dentro do próprio campo da direita e provocou reação na campanha presidencial de Ronaldo Caiado (PSD). Depois de Ratinho defender, em 21 de setembro, que eleitores de Flávio votem em Sandro Alex (PSD) para o governo do Paraná, o presidenciável do PL apareceu dois dias depois ao lado de Sergio Moro (PL) e declarou que o senador é seu candidato no estado.
O episódio deu material aos adversários para falar em “amor não correspondido”. Ratinho tentou aproximar Sandro Alex do eleitorado bolsonarista, mas Flávio Bolsonaro foi explícito na transmissão realizada nesta quarta-feira, 23 de setembro: “Quero deixar claro que o candidato da Força Bolsonaro no Paraná ao governo é Sergio Moro”.
A movimentação de Ratinho também criou constrangimento dentro do PSD. O partido tem candidato próprio à Presidência, Ronaldo Caiado, e Gilberto Kassab, presidente nacional da legenda, compõe a chapa como vice. Em entrevista divulgada nas redes sociais, porém, Ratinho não mencionou Caiado e sustentou que Sandro Alex teria vínculos mais fortes com Jair Bolsonaro do que Moro.
“Tem muita gente que agora está tendo a consciência de que quer votar no Flávio e vai votar no Sandro Alex”, afirmou Ratinho. O governador também atacou a relação passada de Moro com Jair Bolsonaro e classificou a saída do então ministro da Justiça do governo federal, em 2020, como uma “traição”.
A fala ganhou peso porque Ratinho e Caiado haviam protagonizado uma demonstração pública de proximidade poucas semanas antes. Em 1º de setembro, Caiado anunciou que pretendia convidar Ratinho para comandar o Ministério da Infraestrutura caso fosse eleito presidente. O governador paranaense respondeu que seria “um privilégio” caminhar ao lado do candidato do PSD.
Na campanha de Caiado, a guinada provocou irritação.
O ex-ministroAldo Rebelo, coordenador político da candidatura presidencial do PSD, reagiu em mensagem obtida pelo Blog do Esmael. “A seita bolsominion é traíra”, escreveu o ex-ministro em 22 de setembro. Aldo coordena a articulação política de Caiado desde julho.
A expressão é de Rebelo e traduz a reação política do núcleo caiadista. O fato objetivo é que Ratinho, integrante do PSD, passou a pedir uma combinação eleitoral envolvendo Flávio Bolsonaro justamente na reta final do primeiro turno, enquanto seu próprio partido tenta sustentar a candidatura presidencial de Caiado.

Sandro Alex já vinha administrando essa ambiguidade. Em sabatina da Folha e do UOL, em 17 de agosto, declarou apoio a Caiado, mas evitou romper com Flávio Bolsonaro. Disse que estaria com o candidato de seu partido e, ao mesmo tempo, reconheceu que lideranças de sua coligação apoiavam outros nomes da direita.
No Paraná, a reação do grupo Moro-Deltan foi transformar a tentativa de Ratinho em motivo de ironia. Uma mensagem encaminhada ao Blog resumiu a provocação dizendo que, enquanto Ratinho e Sandro “chifram Caiado” e procuram espaço no bolsonarismo, Moro aparecia nas gravações da reta final ao lado de Flávio Bolsonaro.
A parte verificável da provocação ocorreu publicamente. Moro participou em 23 de setembro da superlive de Flávio Bolsonaro ao lado de Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo). Antes disso, em 7 de setembro, Moro, Deltan e Filipe estiveram com Flávio Bolsonaro em manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo.
A fotografia política, portanto, é diferente da narrativa apresentada por Ratinho. O governador reivindica para Sandro Alex a herança da parceria administrativa mantida com Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022. Flávio Bolsonaro, porém, transformou sua preferência estadual em declaração pública e colocou Sergio Moro no seu palanque paranaense.
Isso não apaga o rompimento histórico entre Moro e Jair Bolsonaro em 2020, nem as críticas que bolsonaristas fizeram ao ex-juiz desde então. Mostra, porém, que a eleição de 2026 produziu uma recomposição política entre o PL, Moro e o grupo de Flávio Bolsonaro no Paraná.
Para Ratinho e Sandro, sobra uma contradição eleitoral concreta: tentam disputar o eleitor bolsonarista enquanto o candidato presidencial desse campo pede voto para o principal adversário da chapa governista no Paraná.
Acompanhe no Blog do Esmael a reta final das eleições de 2026, os movimentos das campanhas e os bastidores da disputa pelo Palácio Iguaçu.


Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




