O candidato ao Senado Filipe Barros (PL) foi questionado pela RPC TV, afiliada da Rede Globo no Paraná, sobre aliados, fundo eleitoral, STF, pedágios, segurança pública e suas mudanças de posição, mas saiu da sabatina desta quinta-feira, 3 de setembro, sem responder sobre o Banco Master e o projeto que apresentou para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Na Boca Maldita, centro tradicional da política de Curitiba, a leitura que circulou após a entrevista foi de que o candidato bolsonarista recebeu uma sabatina mais confortável justamente onde havia uma pergunta politicamente incômoda a ser feita: sua atuação legislativa em torno do FGC e a conexão desse projeto com o caso Master.
A crítica não significa afirmar que a RPC tivesse obrigação de perguntar sobre o assunto. Significa apontar uma lacuna editorial em uma entrevista que se propôs a examinar a trajetória e as propostas de um candidato que disputa uma das duas vagas do Paraná no Senado.
O assunto ganhou peso porque Filipe Barros apresentou na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4.395/2024, protocolado em 14 de novembro de 2024, para elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. Segundo levantamento já publicado pelo Blog do Esmael, a proposta foi retirada pelo próprio deputado em 3 de fevereiro de 2026.
A mesma ideia apareceu no Senado por iniciativa de Ciro Nogueira (PP-PI), justamente um dos personagens alcançados pela Operação Compliance Zero no episódio envolvendo o Banco Master. A semelhança entre as duas iniciativas tornou o FGC uma questão inevitável no debate político sobre o caso.
Isso não transforma Filipe Barros em investigado.
Até aqui, não há confirmação pública de que a Polícia Federal tenha colocado o deputado como alvo da operação. A diferença entre ser autor de uma proposta legislativa e ser investigado criminalmente precisa ser preservada. O próprio histórico publicado pelo Blog do Esmael registra essa distinção.
O problema político está em outro lugar.
Uma reportagem de O Globo publicada em junho de 2026 apontou que Filipe Barros apresentou projeto idêntico à chamada “emenda Master” defendida por Ciro Nogueira e também relacionou sua atuação parlamentar a requerimentos e iniciativas envolvendo Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários e interesses de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
Esse conjunto de informações estava disponível antes da sabatina da RPC.
Por isso, a ausência de uma pergunta específica sobre o Master chama atenção. Principalmente porque os entrevistadores não economizaram nas cobranças quando o assunto foi a trajetória política do candidato. Formaram a bancada os jornalistas Roberson Jannuzzi, Ana Carolina Oleksy e Marcelo Rocha.
Aqui cabe um elogio, que também é uma distinção em relação a Barros: a bancada da RPC TV, nas entrevistas anteriores, não poupou Deltan Dallagnol (Novo), Gleisi Hoffmann (PT) e Alexandre Curi (Republicanos).
Januzzi insistiu nas antigas críticas de Filipe Barros a Sergio Moro. O candidato havia chamado Moro de alguém sem caráter e, na entrevista, explicou que as divergências ficaram para trás porque existe um projeto maior para derrotar o PT e construir uma aliança da direita.
Ana também recuperou declarações antigas contra Deltan Dallagnol. O candidato reconheceu que houve divergências, mas afirmou que hoje os dois estão unidos eleitoralmente.
Marcelo voltou ao assunto e perguntou se o eleitor não poderia desconfiar de novas mudanças de posição. Filipe respondeu que nunca abandonou seus princípios.
A entrevista ainda entrou diretamente no passado de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Januzzi lembrou a condenação do dirigente no caso do mensalão e questionou como Filipe poderia defender o combate à corrupção sendo comandado por um político condenado.
Nesse ponto, Filipe defendeu Valdemar, afirmou que ele pagou por seus erros e disse que o dirigente foi responsável por abrir o PL para Jair Bolsonaro e seus aliados.
A cobrança sobre corrupção, portanto, existiu. Mas o caso Master ficou fora. E essa diferença é justamente o que alimenta a avaliação feita na Boca Maldita.
Filipe Barros construiu boa parte de sua identidade eleitoral em torno do discurso anticorrupção, da Lava Jato e do combate ao PT. Na própria entrevista, ele voltou a defender uma nova “República do Paraná”, ao lado de Sergio Moro e Deltan Dallagnol, e prometeu retomar o combate à corrupção.
Ao mesmo tempo, um dos episódios financeiros mais relevantes do ciclo eleitoral de 2026 já havia colocado seu nome no debate por causa de um projeto sobre o FGC.
A pergunta que poderia ter sido feita era objetiva: por que o deputado apresentou uma proposta que elevava quatro vezes a cobertura do FGC, semelhante à iniciativa associada a Ciro Nogueira, e por que retirou o projeto depois?
Outra pergunta possível seria ainda mais direta: houve algum contato de representantes do Banco Master, de Daniel Vorcaro ou de pessoas ligadas ao banco para tratar da proposta?
Nada disso foi perguntado na entrevista concedida à RPC TV. Filipe, portanto, não precisou responder sobre o assunto.
O candidato conseguiu concentrar sua defesa em temas nos quais tinha respostas preparadas: alinhamento com Bolsonaro, união com Moro e Deltan, crítica ao STF, redução da maioridade penal, fim do fundo eleitoral, retorno das doações privadas, redução da jornada 6×1, combate à corrupção, concessões rodoviárias e relações com os Estados Unidos.
Quando questionado sobre os R$ 3,8 milhões recebidos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, por exemplo, ele teve oportunidade de explicar a contradição entre criticar o fundo eleitoral e utilizar recursos públicos para financiar sua própria campanha. A resposta foi que o fundo deveria ser extinto e substituído por doações privadas.
Foi uma cobrança pertinente. Mas o contraste permanece: dinheiro público de campanha entrou na entrevista; dinheiro público destinado à proteção de investidores por meio do FGC, em meio ao caso Master, não.
O assunto é especialmente sensível para Filipe porque seu projeto não era uma manifestação genérica sobre o sistema financeiro. Tratava especificamente do limite de cobertura do FGC.
A proposta previa elevar o teto de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ. Posteriormente, o deputado retirou o texto. O Blog do Esmael já registrou que, depois da operação envolvendo Ciro Nogueira, Filipe afirmou que havia retirado a proposta por causa das “ilações” em torno do projeto e declarou ter denunciado à Polícia Federal negócios envolvendo o Master e a Reag Investimentos em dezembro de 2024.
Essas explicações, contudo, não apareceram na sabatina da RPC. Também não houve oportunidade para o eleitor ouvir Filipe explicar, diante das câmeras, a cronologia entre a apresentação do PL 4395/2024, a evolução da crise do Banco Master e a retirada da proposta.
Esse é o ponto político da entrevista. Não se trata de dizer que Filipe Barros tenha cometido crime. Não há base, na documentação consultada, para essa conclusão. Também não se trata de afirmar que o projeto tenha sido apresentado para beneficiar o Banco Master. Essa seria uma inferência que exigiria prova.
O fato é mais simples e mais incômodo: Filipe apresentou um projeto para ampliar o FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão; Ciro Nogueira apresentou iniciativa com a mesma ideia; Ciro acabou alcançado pela investigação relacionada ao Master; e Filipe retirou sua proposta em fevereiro de 2026.
Esse conjunto de fatos merecia, no mínimo, uma pergunta. Sobretudo porque Filipe disputa o Senado defendendo uma bandeira que exige escrutínio permanente: combate à corrupção.
A sabatina da RPC foi dura em determinados momentos. Os entrevistadores apertaram o candidato sobre suas contradições com Moro e Deltan, sobre Valdemar Costa Neto e sobre o uso do fundo eleitoral. Mas, para quem acompanha a política paranaense, ficou uma pergunta sem resposta.
Por que Filipe Barros não foi perguntado sobre o Banco Master? Na Boca Maldita, a resposta política já ganhou apelido: “mamão com açúcar”, ou “uma teta”.
O eleitor, entretanto, ainda pode fazer a pergunta por conta própria. E a campanha ao Senado está apenas começando.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




