Isso a Globo não mostra: EUA afundam em ranking de corrupção sob governo Trump

A queda dos Estados Unidos no ranking global de percepção de corrupção expõe um constrangimento que parte da velha mídia brasileira costuma varrer para baixo do tapete: a “democracia mais poderosa do planeta” também está escorregando, e o recuo tem nome, governo Donald Trump, e tem método, enfraquecimento de controles, ataque a vozes independentes e sinalização de tolerância com práticas empresariais corruptas.

Em 2025, os Estados Unidos caíram para a 29ª posição entre 182 países e territórios e chegaram ao pior resultado desde 2012, com 64 pontos numa escala em que 100 é “muito limpo” e 0 é “altamente corrupto”. A Transparência Internacional (TI) avisou que a tendência pode piorar.

A ironia é que o sermão anticorrupção, usado há anos como porrete geopolítico, agora bate na própria porta.

A TI descreve um declínio de década nas democracias, não só nos Estados Unidos. O índice aponta queda de desempenho também em países como Reino Unido, Canadá e outros aliados centrais do Ocidente, com o alerta de que dinheiro grande e nomeações “questionáveis” corroem a política por dentro.

E o planeta inteiro piorou. A média global recuou para 42 pontos, o primeiro tombo em mais de uma década, segundo o relatório.

O topo continua com Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84). A lanterna segue com Somália e Sudão do Sul (9) e Venezuela (10).

O que muda, e o que a Globo não mostra, é a fotografia política por trás do número americano.

A TI aponta que, durante 2025, o governo Trump teria enfraquecido a capacidade federal de enfrentar corrupção pública e sinalizado tolerância com práticas empresariais de suborno no exterior, ao congelar e reduzir a aplicação de uma das leis anticorrupção mais relevantes dos Estados Unidos, a Lei de Práticas Corruptas no Exterior (FCPA).

Esse movimento não é abstrato. Há ato oficial da Casa Branca, desta terça (10), anunciando a pausa na aplicação da FCPA.

Na leitura da TI, quando um governo desmonta fiscalização, constrange controles e mira “inimigos”, o Estado deixa de ser guarda e vira instrumento. A corrupção não precisa nem de aumento real, basta a sensação de impunidade e de jogo viciado para a confiança pública derreter.

Há um detalhe incômodo, e bem brasileiro, nessa história.

O índice mede percepção no setor público a partir de especialistas e empresários. Não é um placar de casos concretos. Mesmo assim, vira manchete, vira munição e vira guerra política. A própria TI reconhece que eventos recentes nem sempre entram por completo na fotografia da coleta, o que reforça a disputa de narrativa em torno do resultado.

Em outras palavras: quando convém, a elite usa “percepção” como sentença. Quando incomoda, chama de “metodologia”.

Se o Brasil tem razões de sobra para discutir corrupção, orçamento capturado e promiscuidade institucional, os Estados Unidos também têm. E o recado internacional é direto: democracias que flertam com autoritarismo e deixam o dinheiro mandar na política pagam um preço.

No fim, o que cai não é só a posição no ranking. Cai o mito de pureza que sustenta o discurso de superioridade moral. E é aí que a comparação fica indigesta para quem ainda tenta vender Washington como manual de civilização.

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