Datafolha erra ao tratar polarização como vilã da política

A polarização não nasceu em 2014, nem com Lula ou Bolsonaro, e tampouco virou problema por causa das redes sociais. Ela sempre existiu na política brasileira, desde os coronéis da República Velha até os embates da redemocratização, passando por Vargas, ditadura, Sarney, Collor, FHC e Lula. Tratar a polarização como vilã recente é papo furado que simplifica a história e desloca o foco do que realmente define a opinião pública.

A tese divulgada pelo Datafolha, de que a polarização teria achatado a popularidade presidencial e imposto um teto de 42% de aprovação desde 2014, parece elegante nos gráficos, mas frágil na leitura política. Polarização é o estado natural da disputa por poder. O que muda ao longo do tempo não é a existência do conflito, mas o contexto econômico, social e institucional que cerca cada governo.

No fim das contas, vale lembrar a frase que atravessou campanhas e décadas, “é a economia, estúpido!”. Popularidade não despenca porque a sociedade discute mais política, mas porque o bolso aperta, o emprego some, o preço do alimento sobe e a esperança encolhe. Presidente não perde apoio por excesso de debate ideológico, perde quando a vida real piora. A polarização pode até organizar narrativas, mas quem define o humor social continua sendo a geladeira vazia ou cheia. É aí, e não no X, antigo Twitter, que se decide a aprovação de um governo.

Também não é irrelevante o lugar de onde parte essa leitura. O Datafolha integra o grupo Folha de S.Paulo, jornalão que nunca foi neutro no jogo político e que hoje aposta suas fichas no governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) como alternativa eleitoral a Lula. Não se trata de teoria conspiratória, mas de linha editorial e de interesses claros. A velha mídia brasileira sempre caminhou de mãos dadas com o poder econômico da Faria Lima, e isso inevitavelmente contamina a forma como pesquisas são apresentadas, interpretadas e vendidas ao público.

Desde a minha mais tenra idade acompanho bastidores políticos. Primeiro como militante, depois como analista. Sempre vi a política se mover em campos opostos. Conservadores contra reformistas, oligarcas contra trabalhadores, ditadura contra democracia, socialismo contra capitalismo, liberalismo contra neoliberalismo. Nunca houve consenso, nunca houve harmonia plena. Houve, sim, confronto de projetos.

Nos anos 1950 e 1960, a polarização se dava entre nacionalistas e entreguistas. Nos anos 1980, entre os que defendiam a transição pactuada e os que exigiam ruptura com a ditadura. Nos anos 1990, entre o receituário neoliberal e a promessa de inclusão social. Nos anos 2000, entre o lulismo e o antipetismo. Nos anos 2018, entre bolsonarismo e campo democrático. O nome dos polos muda, o conflito permanece.

A leitura do Datafolha tenta transformar essa dinâmica histórica em anomalia estatística. Diz que a polarização impede presidentes de ultrapassarem certos patamares de aprovação. Mas ignora que os picos de popularidade do passado não se explicam pela ausência de conflito, e sim por fatores muito mais concretos. Estabilização da moeda com o Plano Real. Crescimento econômico e ascensão social nos primeiros mandatos de Lula. Sensação de melhora de vida pesa mais que clima político.

O próprio histórico das pesquisas mostra isso. Sarney afundou em meio à hiperinflação. Collor caiu com os escândalos. Itamar subiu com o Real. FHC oscilou com crises internacionais. Lula despencou no mensalão e subiu com a economia aquecida. Dilma caiu com a recessão e a crise política. Temer nunca decolou por falta de legitimidade. Bolsonaro manteve rejeição alta por postura autoritária e negacionista. Lula, no terceiro mandato, oscila conforme crises administrativas e embates internacionais.

Nada disso se explica por polarização em abstrato. Tudo se explica por conjuntura.

A fala de que “desde 2014 a polarização achata a popularidade” acaba servindo como cortina de fumaça. É mais confortável atribuir à sociedade dividida a responsabilidade por índices baixos do que reconhecer erros de gestão, comunicação falha ou escolhas políticas equivocadas.

Também há um risco institucional nessa narrativa. Quando se demoniza a polarização, corre-se o risco de demonizar o próprio dissenso. Democracia não é consenso permanente. Democracia é conflito regulado, disputa aberta, alternância de poder. Países sem polarização não são mais maduros [sem trocadilhos]. São, muitas vezes, menos livres.

O problema não é a existência de polos. O problema é quando um dos polos abandona o jogo democrático, como ocorreu no Brasil com o bolsonarismo ao flertar com o golpe e atacar as instituições. Aí não estamos diante de polarização. Estamos diante de ameaça à democracia.

Misturar essas duas coisas, conflito político legítimo e radicalismo autoritário, é erro conceitual grave. E é isso que parte do debate público vem fazendo, com a ajuda involuntária de análises apressadas.

Polarização não explica o teto de aprovação. Explicam o bolso, o emprego, a inflação, a segurança, a credibilidade do governo e a capacidade de liderar em tempos difíceis. O resto é ruído teórico para quem prefere curvas de pesquisa a leitura histórica.

A polarização não é o problema da política brasileira. Ela é a própria política em movimento. Tratar isso como defeito estrutural é apagar décadas de disputa democrática e aliviar a responsabilidade dos oligarcas do sistema financeiro e da ditadura da opinião única promovida pela velha mídia. O Brasil não precisa de menos conflito. Precisa de mais verdade, mais resultados e mais compromisso com a democracia.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *