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O Conselho de Administração da Companhia Paranaense de Energia (Copel) aprovou, em 15 de julho de 2026, uma política que dobra de 24 para 48 meses o prazo para reconduzir o endividamento ao centro da meta, mas conserva a distribuição mínima de 75% do lucro líquido aos acionistas. A flexibilização financeira ocorre três semanas depois de um reajuste médio de 20,51% na conta de luz e durante uma sequência de interrupções de emergência registradas pela própria distribuidora.
A referência da relação entre dívida líquida e geração operacional, medida pelo Ebitda, subiu de 2,8 para 2,9 vezes. A faixa de tolerância passou de 2,5 a 3,1 vezes para um intervalo entre 2,6 e 3,2 vezes. A Copel terá até quatro anos para retornar ao centro dessa faixa.
A companhia ganha espaço para conviver com uma dívida maior por mais tempo, enquanto preserva o percentual mínimo destinado aos investidores. Esse é o conflito verificável: o caixa continuará disputado por juros, amortizações, investimentos na rede e remuneração dos acionistas.
A dívida líquida consolidada da Copel atingiu R$ 17,46 bilhões em 31 de março de 2026. O saldo era de R$ 16,30 bilhões no encerramento de 2025. O crescimento foi de aproximadamente R$ 1,16 bilhão, ou 7,1%, em três meses. O custo médio nominal da dívida ficou em 13,05% ao ano.
A alavancagem estava em 2,8 vezes no primeiro trimestre, dentro da política anterior. A mudança aprovada em julho não responde a um estouro já registrado no índice, mas amplia o limite de acomodação para os próximos ciclos financeiros.
O balanço mostra que a empresa projetou R$ 3,02 bilhões em investimentos para 2026. Até 31 de março, havia executado R$ 581,6 milhões, equivalentes a 19% do orçamento anual.
A distribuição de energia recebeu R$ 438,6 milhões no trimestre, ou 23% dos R$ 1,94 bilhão previstos para o ano. O programa inclui Paraná Trifásico, Rede Elétrica Inteligente e Confiabilidade Total, projetos diretamente ligados à modernização e à resistência da rede.
Os números não demonstram abandono dos investimentos. Eles criam, porém, uma obrigação de fiscalização: verificar se a execução alcançará o orçamento anunciado enquanto a dívida cresce e o piso de 75% do lucro permanece protegido.
Tarifa sobe 20,51% enquanto apagões se repetem
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, em 23 de junho, a revisão tarifária da Copel Distribuição, válida desde 24 de junho de 2026. O efeito médio para os consumidores cativos foi de 20,51%, com aumento médio de 19,85% para a baixa tensão e de 21,87% para a alta tensão. Para a classe residencial B1, o índice informado foi de 20%.
O reajuste alcança cerca de 5,3 milhões de unidades consumidoras atendidas pela Copel. Custos de transmissão, compra de energia, encargos setoriais e componentes financeiros do ciclo anterior entraram no cálculo regulatório.
A Copel não decide sozinha o percentual cobrado na fatura. A tarifa é homologada pela Aneel em processo regulatório próprio. Por isso, a política de dividendos não pode ser apresentada como causa direta do reajuste de 20,51%.
A coincidência econômica e política, entretanto, existe. O consumidor passou a pagar uma conta mais alta enquanto a empresa aprovou mais tempo para ajustar a dívida e manteve intacto o piso destinado aos acionistas.
A qualidade do fornecimento também entra nessa equação. A Copel publicou oito relatórios de “interrupção em situação de emergência” relativos a eventos ocorridos entre 9 de janeiro e 30 de abril de 2026. Os períodos alcançaram diferentes regiões do Paraná e, em alguns casos, duraram vários dias.
Foram registrados eventos de emergência entre 9 e 11 de janeiro, 15 e 19 de janeiro, 28 e 30 de janeiro, 31 de janeiro e 4 de fevereiro, 17 e 19 de fevereiro, 7 e 8 de abril, 25 e 28 de abril e 29 e 30 de abril. A repetição sustenta a cobrança por dados sobre quantidade de consumidores atingidos, duração média das interrupções, tempo de recomposição e investimentos realizados nos locais afetados.
Os relatórios seguem os critérios dos Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica no Sistema Elétrico Nacional, o Prodist. A classificação de emergência não prova, isoladamente, que os desligamentos foram provocados por falta de investimento, porque eventos climáticos extremos também podem danificar a rede.
No entanto, produtores rurais, industriais e comerciantes têm denunciado os recorrentes apagões após a privatização da Copel em agosto de 2023. Esses setores produtivos já realizaram audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) acerca de perdas econômicas com as interrupções da energia.
A pergunta pública permanece: os investimentos previstos estão sendo executados no volume, nos prazos e nas regiões capazes de reduzir a frequência e a duração dos apagões?
A própria Copel administra mais de 206 mil quilômetros de redes e atende quase todo o Paraná. A dimensão do sistema explica a complexidade operacional, mas também amplia a responsabilidade da companhia diante de consumidores urbanos, produtores rurais, hospitais, indústrias e serviços municipais.
Dividendos mais que dobraram no exercício de 2025
O histórico oficial mostra R$ 1,09 bilhão em proventos referentes ao exercício de 2023 e R$ 1,085 bilhão em 2024. Para o exercício de 2025, a distribuição saltou para R$ 2,45 bilhões, formada por R$ 1,1 bilhão em juros sobre capital próprio e R$ 1,35 bilhão em dividendos.
A remuneração referente a 2025 foi 126% superior à registrada para 2024. Em 2026, a companhia já declarou R$ 706 milhões em juros sobre capital próprio, com pagamento previsto para 30 de setembro.
O aumento dos proventos não comprova que um investimento específico deixou de ser realizado. A comparação revela, contudo, qual compromisso permaneceu protegido na nova política: o acionista continua com direito a uma parcela mínima elevada do lucro, enquanto a empresa ganha mais dois anos para ajustar a alavancagem.
O governo do Paraná possui 15,9% das ações ordinárias da Copel e uma ação preferencial de classe especial, a golden share, com poder de veto nas matérias previstas pelo estatuto. O Estado perdeu o controle da companhia na privatização, mas conserva participação acionária e instrumentos que exigem prestação de contas política.
A golden share não devolve ao governo a administração cotidiana da Copel nem permite veto genérico sobre todas as decisões. O Executivo estadual, porém, precisa informar como se posicionou diante da política que alongou o ajuste da dívida e preservou a distribuição mínima de 75% do lucro.
O debate não é apenas contábil. Desde a privatização, consumidores enfrentam apagões recorrentes, receberam um reajuste médio de 20,51% e passaram a acompanhar uma empresa orientada por metas de retorno aos investidores.
A Copel terá 48 meses para reconduzir a dívida ao centro da meta. O consumidor não recebeu prazo semelhante para absorver o tarifaço na conta de luz.
A fiscalização deverá comparar, trimestre a trimestre, quatro indicadores: evolução da dívida, execução dos investimentos, duração das interrupções e volume transferido aos acionistas. Sem essa conta completa, a promessa de equilíbrio financeiro servirá mais ao mercado do que ao Paraná.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura sobre a Copel, a privatização e os serviços públicos no Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




