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Raro acerto da Folha: editorial enquadra chantagem de Trump como ataque à soberania brasileira

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O editorial da Folha de S.Paulo publicado nesta quinta-feira (10) é um raro lampejo de lucidez na grande imprensa brasileira. Intitulado “Chantagem rasteira de Trump não passará”, o texto rompe a habitual alinhamento cúmplice ao denunciar, com todas as letras, o que realmente está em curso: uma tentativa explícita de ingerência do presidente dos Estados Unidos no sistema de justiça brasileiro para livrar Jair Bolsonaro (PL) de um julgamento por tentativa de golpe de Estado.

A crítica da Folha não se restringe à tarifa de 50% anunciada por Trump contra produtos brasileiros, um verdadeiro tiro na economia nacional. O jornal vai além: reconhece o caráter autoritário da medida e a relaciona diretamente com a tentativa de manipulação do Judiciário brasileiro. Para o jornal, qualquer esperança de que a chantagem comercial possa favorecer Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ou até mesmo o campo da direita, é ilusória. Pelo contrário, tende a desmoralizar quem se alia ao agressor estrangeiro.

O divisor de águas de Tarcísio

Em tom direto, o editorial ainda interpela líderes que costumam flertar com o bolsonarismo, como o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos). A Folha sugere que Tarcísio terá de escolher entre defender os exportadores e os empregos de São Paulo ou seguir como “joguete de boné” nas mãos de Bolsonaro e Trump.

É uma chamada pública ao posicionamento de quem ainda deseja disputar o centro político em 2026, mas hesita em romper com o bolsonarismo. Para a Folha, não há mais espaço para patriotismo de fachada, ou se está com o Brasil, ou com quem o agride economicamente.

A contradição Trumpista

O editorial também desmente com dados a justificativa de Trump para a tarifa, classificando sua carta como “repleta de mentiras e incoerências”. Ao contrário do que o presidente republicano alegou, o Brasil não contribui para o déficit comercial dos EUA; pelo contrário, a balança favorece os americanos.

Mais do que isso, a Folha aponta a hipocrisia trumpista ao se dizer defensor da liberdade de expressão no Brasil enquanto reprime vozes dissidentes em seu próprio país, inclusive com deportações.

Calma estratégica de Lula

O jornal também elogia a postura do governo Lula, que respondeu ao tarifaço com sobriedade e sangue frio. O Planalto optou por reafirmar a soberania do Judiciário e a independência das instituições brasileiras, evitando escalar o conflito no calor do momento.

A Folha defende que o Brasil mantenha abertas suas possibilidades de retaliação econômica, já autorizadas por lei, mas recomenda que isso ocorra apenas se houver agravamento. A tática, segundo o jornal, deve ser resistir com argumentos econômicos até que Trump, instável e imprevisível, se canse do tema e mude de foco.

Tempo joga a favor do Brasil

Por fim, o editorial conclui que o tempo corre a favor do Brasil e contra a estratégia de chantagem de Donald Trump. É a aposta de que o populismo cíclico do republicano acabará por desviar sua atenção, como já aconteceu com outros países alvos de ameaças semelhantes.

Ao publicar esse editorial, a Folha, mesmo que pontualmente, faz o que se espera de um jornalismo minimamente comprometido com a democracia: denuncia o autoritarismo, defende a soberania nacional e recusa o colaboracionismo de ocasião.

Se líderes e veículos não entenderem o que está em jogo, o Brasil corre o risco de se tornar refém de um trumpismo importado que ameaça instituições, empregos e a própria noção de país independente.

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Aqui está a íntegra do editorial da Folha:

O que a Folha pensa: Chantagem rasteira de Trump não passará

A chantagem rasteira de Donald Trump contra o Brasil não vai funcionar. Cogitar de que o Judiciário de uma nação soberana e democrática, que opera com independência, deixará de processar quem quer que seja para livrar o país de retaliações econômicas dos Estados Unidos não passa de devaneio autoritário.

Se a manifestação foi pensada para ajudar Jair Bolsonaro (PL) no julgamento em que é acusado de tramar um golpe, ela, na melhor hipótese para o ex-presidente, terá efeito nulo. Se tentou fortalecer o deputado fugitivo Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para a disputa de 2026, acabará tornando o seu caso na Justiça brasileira ainda mais complicado.

Se seu intento foi impulsionar a direita brasileira, o resultado líquido tenderá a ser negativo. Vai ser difícil ficar do lado de quem patrocina uma agressão estrangeira à soberania e aos empregos brasileiros, pois tarifas adicionais de 50% sobre as exportações teriam efeitos nefastos sobre vários setores da economia nacional.

Chegou a hora de lideranças como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolherem de que lado estão. Ou bem Tarcísio defende os exportadores paulistas e a soberania brasileira ou continua posando de joguete de boné de um agressor estrangeiro e da família Bolsonaro, cujo patriotismo de fancaria se dissolve e se transforma em colaboracionismo diante da perspectiva da cadeia.

Está repleta de mentiras e incoerências a carta em que Trump tenta justificar o ataque comercial. As trocas com o Brasil não contribuem para o déficit norte-americano. Pelo contrário, há anos o resultado da corrente é superavitário para os EUA. O presidente republicano diz defender a liberdade de expressão aqui, mas lá manda deportar quem emite opiniões consideradas erradas pela Casa Branca.

O histórico de decisões anunciadas mas nunca efetivadas de Donald Trump faz duvidar da implementação das tais tarifas adicionais. Ele já mandou cartas ameaçadoras a outras nações marcando prazos para o início da vigência. A entrada em vigor de todas essas decisões causaria tumultos graves na própria economia dos EUA, pois se trata de um imposto sobre seus consumidores.

O sangue frio, portanto, é o melhor caminho para lidar com o novo arreganho de Trump. Nesse quesito, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se portado bem, o que ficou mais uma vez atestado na reação sóbria do Planalto ao anúncio do tarifaço.

O governo brasileiro não deve abrir mão de seus poderes de retaliar, conferidos pelo Congresso Nacional ao Executivo em legislação recente. Mas deveria recorrer a esse expediente apenas em casos extremos, que ainda não se concretizaram.

Insistir em demonstrar às contrapartes norte-americanas que não há nenhuma razão econômica para a invectiva contra o Brasil continua a ser a linha de ação mais indicada. No mínimo se ganha tempo para que as ciclotimias do populismo empurrem o presidente dos Estados Unidos para outros temas em suas redes sociais.

O tempo trabalha a favor do Brasil e dos outros países acossados pelas bravatas das guerras comerciais de Donald Trump.