O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, lançou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como pré-candidato ao Palácio do Planalto na segunda-feira (30), dias depois de o governador do Paraná, Ratinho Junior, amarelar na disputa interna. A operação preencheu o vazio aberto no partido, mas a leitura que se impõe é outra: Caiado entrou para ocupar a vitrine, não necessariamente para chegar inteiro ao registro de candidatura.
Caiado não é novidade para o eleitorado nem para o PT. Em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar e a Constituição de 1988, ele disputou o Planalto pelo antigo PSD, ficou em 0,72% dos votos válidos, cerca de 488,8 mil votos, e terminou fora do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor.
Esse passado ajuda a medir o tamanho da aposta atual. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou em janeiro que o país fechou dezembro de 2025 com 155,3 milhões de eleitoras e eleitores aptos, o que significa que um desempenho do tamanho de 1989 hoje equivaleria a cerca de 1,1 milhão de votos, massa suficiente para ferir a cesta da direita numa disputa apertada.
A conta pesa mais porque a corrida de 2026 já mostra traço de polarização. Sondagem da Paraná Pesquisas publicada pelo Blog do Esmael na segunda-feira (30) apontou Lula com 41,3% no primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com 37,8%, e empate técnico de 45,2% [Bolsonaro] a 44,1% [Lula] num segundo turno simulado. Numa moldura dessas, votos de Caiado podem valer menos como projeto presidencial e mais como risco de canibalismo no campo conservador.
Kassab conhece esse problema. Ele disse em fevereiro ao próprio Lula que o PSD não marcharia com o PT na eleição presidencial, mas relatou um almoço respeitoso com o presidente e ministros, e em janeiro voltou a procurar o Planalto para reduzir tensões após a filiação de Caiado. No terreno concreto do poder, o PSD segue com Agricultura e Pecuária, Minas e Energia, e Pesca e Aquicultura no governo federal, enquanto o presidente do PT, Edinho Silva, já admitiu que a aliança formal com o partido não deve se repetir nacionalmente em 2026.
É por isso que a pré-candidatura de Caiado parece mais útil para Kassab do que para Caiado. O mundo político resume a lógica do cacique: ele não joga para vencer o Planalto, joga para ampliar cacife, trocar apoio por espaço e sentar à mesa com quem chegar mais forte. Deixar Caiado crescer demais nessa trilha seria criar, dentro de casa, uma candidatura puxando o PSD para uma direita que reduz a margem de manobra do partido.
O calendário ainda favorece esse tipo de recuo. As convenções partidárias vão de 20 de julho a 5 de agosto, e o prazo final para registro de candidaturas termina em 15 de agosto. Até lá, sobra tempo para o PSD converter o barulho da pré-candidatura em moeda de negociação.
A aposta do Blog do Esmael é que Caiado herdou o bastão deixado por Ratinho, mas não herdou um caminho sólido até a urna. O destino mais provável do PSD é atravessar 2026 sob o manto da independência, sem candidato próprio ao Planalto, com Kassab preservado para negociar no segundo turno e sem alimentar dentro do partido uma cobra que possa engoli-lo adiante.
Em português claro, uma candidatura para valer de Caiado poderia virar, para Kassab, um problema dentro do partido: fortalecer um nome com musculatura para mais adiante tensionar seu próprio comando no PSD. A independência do partido, nesse caso, seria o seguro mais eficiente para os pés largos do presidente nacional da legenda.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




