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Relatório da Abin leva soberania à campanha antes da ONU

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como crítico o risco de interferência do governo dos Estados Unidos na eleição brasileira, e o tema chega ao debate eleitoral às vésperas do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira, 22 de setembro. O relatório reservado, revelado pela Folha no fim de semana, aponta tendência de escalada da pressão americana sobre o Brasil.

Intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, o documento foi enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. A Abin descreve uma sequência de atos dos Estados Unidos desde maio. Entre eles estão a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas e as sanções, aplicadas em julho, a brasileiros e empresas acusados de vínculos com o PCC. Segundo o relatório, a interferência passou a atingir relações financeiras, reputação empresarial e acesso ao dólar, com risco de sanções secundárias. O texto dá atenção especial ao secretário de Estado Marco Rubio, que atribuiu a Lula a responsabilidade pelas tarifas contra produtos brasileiros. Para a Abin, a personalização do embate pode influenciar o debate público no país.

A avaliação relatada pela Folha traz nuances. Interlocutores do governo brasileiro veem a possibilidade de pressão eleitoral partindo sobretudo de escalões inferiores da administração americana, e o Departamento de Estado declarou respeito ao processo democrático brasileiro. Lula e Donald Trump conversaram por telefone por cerca de uma hora e vinte minutos em 21 de agosto. Segundo relatos, o presidente brasileiro defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral.

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O fato novo está no efeito sobre a conversa política. Análise com dados da Palver, divulgada na manhã desta segunda-feira, 21 de setembro, mostra que o assunto cresceu 140% nos grupos de mensagens monitorados depois da divulgação do relatório. Segundo essa análise, circulam narrativas distintas entre os campos políticos. Os números descrevem a amostra monitorada e não permitem concluir qual campanha se beneficia.

O Ministério da Justiça contestou em setembro parte das acusações americanas sobre o combate brasileiro ao crime organizado. A pasta lembrou que o Brasil não consta da lista formal de 23 países classificados como grandes produtores ou rotas de trânsito de drogas. Informou também que Lula entregou a Trump, em 7 de maio, proposta de cooperação sobre lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e tráfico de armas, e que aguardava resposta.

O alerta não é inédito. Em dezembro de 2025, a Abin já listava interferência externa e crime organizado entre os riscos às eleições de 2026, em documento público. A diferença agora é que o relatório nomeia os Estados Unidos e descreve efeitos concretos sobre bancos, empresas e pessoas.

O discurso de terça-feira dirá se o presidente levará o tema ao plenário da ONU ou se o manterá na esfera doméstica, onde o relatório já circula entre governo, TSE e campanhas.

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