A crise argentina: De te fabula narratur

J. Carlos de Assis*

As fábulas de Fedro, traduzidas do original grego de Esopo, sempre terminavam com a expressão latina: “De te fabula narratur!” Algo como “a fábula fala de ti”. Isso se aplicava às narrativas em que animais desempenhavam papéis humanos em situações das quais se podia tirar uma conclusão moral. O que acontece na Argentina, hoje, e o que aconteceu no mesmo país, no início dos anos 2000, é uma advertência do que poderá acontecer ao Brasil: a tragédia da “fábula” argentina pode aplicar-se a nós.

Os elementos básicos das duas situações são os mesmos, separados apenas por períodos de tempo. Ambos, Argentina e Brasil, estão sofrendo as consequências de ter retardado demais o processo de ruptura com o neoliberalismo. Com isso, enfrentam os efeitos da degradação social e política de nossas economias. A Argentina saiu na frente, e só agora rompeu com as políticas do Fundo Monetário Internacional. Nós sequer o iniciamos, mas, ao contrário, o aprofundamos, com Temer e Bolsonaro.

Tanto a Argentina quanto o Brasil realizaram eleições em plena época de políticas neoliberais. No caso deles, no governo Menem. No nosso, nos governos Temer e Bolsonaro. Sob o neoliberalismo, lá, como aqui, acumularam-se os problemas sociais dos dois países: alto desemprego e do subemprego, ampliação da miséria, aumento do custo de vida e da inflação. Para o povo, a situação se tornou cada vez mais insuportável. Aí surgiu a perspectiva das eleições.

Eleições são sempre momentos em que as sociedades exprimem esperanças de  mudança em suas perspectivas de vida. E é justamente aí que aparece um risco, sobretudo para as democracias: com uma situação social degradada, de um lado, e, de outro, com as expectativas de uma mudança de curto prazo com o resultado eleitoral,  a situação social e política torna-se explosiva. Foi o que aconteceu na Argentina no ano 2002 e volta a acontecer agora. Expectativas demais para poucos resultados!

A tragédia argentina não precisa repetir-se no Brasil. Podemos escapar do “de te fabula narratur”! Tudo vai depender de como Lula, certamente o futuro presidente, vai definir as linhas estratégicas de seu governo. Não seria prudente esperar muito tempo para enfrentar as crises emergenciais, sobretudo a do alto custo de vida e a do desemprego. A incompetência e a falta de vontade política de Bolsonaro para enfrentá-las criaram um clima de ansiedade propenso a explosões sociais.

Num livro que escrevi para rememorar quatro décadas de domínio da economia brasileira pelo FMI e o Consenso de Washington – “A Economia Brasileira Como Ela É”, a ser lançado brevemente pela Amazon -, chamei a tragédia argentina do início dos anos 2000 de “síndrome de De La Rúa”. De La Rúa foi o presidente que sucedeu o neoliberal radical Carlos Menem, criando grandes expectativas positivas na opinião pública. Seu fracasso, renunciando ao mandato pela metade, foi o fracasso do país.

A eleição de Lula, se não vier a ser acompanhada, depois da posse, de uma política imediata de regeneração da economia em confronto direto com o neoliberalismo,  a fim de enfrentar os graves problemas sociais brasileiros, pode nos levar ao mesmo beco sem saída que custou à Argentina quatro décadas de crises econômicas e sociais sucessivas. O que estamos vendo hoje no país vizinho é o legado neoliberal em sua forma mais crua. Ele não seja, para nós, uma fábula a ser imitada ou copiada!

*J. Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, da Frente Nacional Em Defesa da Soberania.