O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou nesta quarta-feira (22) o caso Alexandre Ramagem a uma crise diplomática com os Estados Unidos, depois que o Itamaraty acusou Washington de ignorar a “boa prática diplomática” e confirmou uma reação por reciprocidade contra um agente americano que atuava junto à Polícia Federal no Brasil. A briga deixou de ser apenas policial e passou a ser tratada pelo Planalto como choque de soberania.
A nota do Ministério das Relações Exteriores foi dura. O Itamaraty informou que a representante da embaixada dos Estados Unidos foi convocada na terça-feira (21), criticou a “decisão sumária” contra o oficial brasileiro em Miami e afirmou que a medida americana não respeitou nem o diálogo previsto no memorando bilateral de cooperação policial nem a prática diplomática entre os dois países.
O governo brasileiro respondeu no mesmo terreno. Segundo a nota e a Reuters, os termos da reciprocidade incluem a interrupção imediata das funções oficiais, em território brasileiro, de um representante americano de área equivalente à de Marcelo Ivo de Carvalho, o delegado da PF lotado em Miami como elo com o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA.
Lula já havia dado o tom na terça-feira (21), durante viagem à Alemanha. Disse que, se houve abuso contra o policial brasileiro, o Brasil faria reciprocidade e não aceitaria “ingerência” nem “abuso de autoridade” de autoridades americanas sobre o país. Com isso, o Planalto enquadrou o episódio como tema de Estado, não como ruído burocrático entre agências.
Há um detalhe importante no meio da fumaça. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou nesta quarta-feira que Marcelo Ivo não foi expulso formalmente, mas teve as credenciais de trabalho retiradas do sistema americano; diante disso, ele próprio determinou o retorno do delegado ao Brasil e revogou, “com grande pesar”, as credenciais do agente americano em Brasília. Rodrigues disse ainda que o Brasil não pretende expulsar nenhum funcionário dos EUA.
Washington abriu o confronto na segunda-feira (20). Em publicação, o governo dos EUA disse ter pedido que a autoridade brasileira deixasse o país, sob a acusação de manipular o sistema de imigração, contornar mecanismos formais de extradição e levar “perseguições políticas” ao território americano.
O estopim foi a atuação de Marcelo Ivo no caso de Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ramagem foi detido pelo ICE nos Estados Unidos, acabou liberado em 15 de abril e, segundo Blog do Esmael, havia fugido do Brasil em setembro após condenação ligada à trama golpista.
O que Lula fez foi puxar o caso Ramagem do campo policial para o centro da política externa. Quando o Itamaraty fala em violação do memorando bilateral e o presidente fala em ingerência americana, o recado é claro: o governo quer vender o episódio como teste de autoridade nacional diante de Washington. Isso acende um conflito externo útil para o Planalto, com discurso de soberania, mas também abre uma frente delicada com a Casa Branca em pleno calendário eleitoral brasileiro.
Se Washington esperava tratar o caso como assunto técnico de imigração, Brasília devolveu como crise de Estado. E Lula decidiu que o nome de Ramagem, mais uma vez, serviria de combustível para uma guerra maior.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.
Leia também no Blog do Esmael: Senado pode ouvir diretor da PF e delegado que atuou nos EUA; Lula reage aos EUA e cita reciprocidade na PF; Lula ameaça reciprocidade após EUA expulsarem delegado da PF no caso Ramagem

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.




