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Lula recebe Ramaphosa e reforça o eixo do Sul Global

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe nesta segunda-feira (9), em Brasília, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa (Congresso Nacional Africano), numa visita de Estado que vai além do rito diplomático: o encontro recoloca o Brasil no centro da articulação do Sul Global, num momento em que a guerra no Oriente Médio sacode o preço do petróleo, pressiona os mercados e empurra as potências emergentes a buscar mais coordenação política e econômica.

A agenda oficial começa no Palácio do Planalto, segue com almoço no Palácio Itamaraty e inclui ainda compromissos de Ramaphosa no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o Planalto e o Itamaraty, a visita foi organizada como visita de Estado, o que revela o peso político atribuído por Brasília à relação com Pretória.

O dado relevante, porém, está fora do protocolo.

Lula tenta aproveitar a presença do líder sul-africano para reafirmar uma linha que seu governo vem perseguindo desde 2023: reconstruir a presença internacional do Brasil por meio da cooperação Sul-Sul, do fortalecimento do BRICS e da defesa de um multilateralismo menos dependente do eixo Washington-Bruxelas. O Itamaraty lembra que Lula esteve na África do Sul em 2023, na 15ª Cúpula do BRICS, e voltou ao país em 2025, para a Cúpula do G20 em Joanesburgo. Brasil e África do Sul mantêm parceria estratégica desde 2010.

Há também uma relação comercial que interessa ao governo.

Dados citados na cobertura da visita indicam que o intercâmbio entre Brasil e África do Sul ficou entre US$ 2,2 bilhões e US$ 2,3 bilhões em 2025, patamar visto como modesto para duas economias relevantes do Sul Global. A leitura no Planalto é que há espaço para ampliar acordos em comércio, investimento, turismo e cultura, além de dar mais densidade política a uma relação que historicamente rende menos do que promete.

Esse ponto ajuda a entender por que Ramaphosa chega a Brasília num momento tão sensível.

A nova escalada da guerra no Oriente Médio elevou o barril de petróleo a mais de US$ 119 e acentuou a volatilidade global, com temor renovado de inflação, pressão cambial e desaceleração econômica. Nessa conjuntura, a diplomacia de Lula tenta vender a imagem de um Brasil que conversa com vários polos de poder, mas quer falar em nome de uma agenda de estabilização, desenvolvimento e autonomia estratégica do Sul Global.

Ramaphosa também não chega sem contexto.

A África do Sul presidiu o G20 em 2025 sob o lema de solidariedade, igualdade e sustentabilidade, numa cúpula realizada em Joanesburgo que reforçou o peso político do continente africano no debate global. Ao mesmo tempo, Pretória atravessou atritos com Donald Trump, que criticou a participação sul-africana no processo de transição do G20 e ampliou a tensão entre a Casa Branca e o governo sul-africano. Esse ambiente aproxima ainda mais Brasília e Pretória na defesa do multilateralismo e na crítica a tentativas de esvaziamento dos fóruns internacionais.

No governo Lula, essa visita tem serventia interna e externa.

Internamente, ajuda a sustentar a narrativa de que o Brasil voltou a ter política externa ativa, num momento em que a conjuntura internacional impõe riscos à economia e ao preço da energia. Externamente, sinaliza que o Planalto quer transformar o discurso do Sul Global em alianças concretas, com comércio, investimentos e concertação diplomática entre países emergentes.

O encontro com Ramaphosa, portanto, não deve ser lido como cerimônia de calendário. Trata-se de uma tentativa de Lula de mostrar que o Brasil ainda pode influenciar o debate global por fora das velhas hierarquias de poder. Em tempos de guerra, petróleo caro e mercados nervosos, essa aposta tem menos glamour do que urgência. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

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